Ao vencedor, a história

Dizem os sábios que toda história tem três lados, mas frequentemente sabemos apenas um lado, o lado do vencedor. Ao perdedor, ao excluído, ao banido, ser o bode expiatório é o máximo de atenção que receberá. Aqueles que detêm o poder sempre precisarão de bodes expiatórios e do perdedor como exemplo do que acontece com quem desafia o sistema.

Kobori Tadamasa viveu muitos anos de sua vida ao lado do vencedor. Descendente de uma longa linhagem de guerreiros samurais, ele serviu ao Shogun Ashikaga Yoshikazu fielmente assim que recebeu sua ordenação como samurai.

Até que o tio de Yoshikazu, o Shogun Ashinaga Jinkyou, decidiu que seu sobrinho não merecia ser o senhor da região de Quioto. Em segredo, armou seu exército para atacá-lo. Seu tio apenas precisava de um subterfúgio, ou podia arrumar um motivo.

Dissimuladamente, Jinkyou enviou um mensageiro solicitando ao seu sobrinho que enviasse sua filha, Hayaname, até o distrito de Konjou, para casá-la com seu filho, Hatori, sob o pretexto de unir mais as famílias. Nervoso, Yoshikazu pediu a Tadamasa que escoltasse sua filha, junto com um destacamento de seu exército. Ele mal desconfiava que batedores de seu tio espionavam desde que chegou o mensageiro.

Os batedores avisaram a Jinkyou da movimentação de Yoshikazu e o numero da comitiva que seguiria com a princesa Hayaname. Jinkyou esperava por isso, então movimentou dez vezes mais efetivos, devidamente disfarçados com uniformes da família Senkyo, uma família adversária.

Tadamasa estava firme ao lado da liteira que levava a princesa Hayaname quando seus instintos perceberam que estavam sendo cercados. Tadamasa ordenou ao destacamento que permanecessem em posição de defesa enquanto se postava na frente da liteira. O primeiro ataque veio de três pontos diferentes, o destacamento começou a combater os atacantes quando surgiram mais três, mais cinco, mais seis grupos de ataque, vindo de diversos pontos. Tadamasa tentava coordenar a defesa, mas o esforço demonstrou ser em vão quando começaram as chuvas de flechas e lanças. Tadamasa sentiu que o ataque tinha um motivo muito maior do que simples conflitos entre famílias quando o destacamento começou a sucumbir diante do avanço de uma cavalaria pesadamente armada.

Tadamasa corria com seu cavalo de um lado a outro, colhendo os atacantes que chegassem perto da liteira, mas seu cavalo não aguentou o esforço. Sua armadura, sua espada e sua bravura pouco puderam fazer quando seu corpo foi alvejado por milhares de flechas e lanças. Hayaname também resistiu bravamente, mas acabou morrendo.

Jinkyou, assim que recebeu o informe e a prova de que seu plano foi bem sucedido, enviou um mensageiro acusando Yoshikazu de não cumprir com a promessa e que a recusa em atender a uma solicitação da família era motivo suficiente para declarar guerra. As tentativas de amenizar ou contornar a crise apenas aumentaram o escândalo e os batedores de Yoshikazu não retornavam quando eram mandados em busca de sinais do paradeiro da princesa. Jinkyou não demorou para mobilizar todo seu exército, cercar e devastar toda a região de Quioto, tomando o lugar de seu sobrinho assim que lhe cortaram a cabeça.

Para todos os efeitos, Jinkyou havia agido pela honra da família contra um senhor feudal incompetente, perdulário e traiçoeiro. Morto, Yoshikazu não tinha como se defender. Como senhor de Quioto, Jinkyou depois acionou sua polícia para encontrar e prender alguns acusados pela emboscada e morte da princesa. Com promessas de ganhar muitas terras e dinheiro, os juízes condenaram rapidamente os suspeitos indicados, que foram executados em praça pública. Jinkyou aproveitou para assinalar que seria assim que traidores e conspiradores seriam tratados. O povo de Quioto não tinha outra coisa a fazer senão se resignar.

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