Estamos sendo desconectados

– Você não precisava explodir o instituto.

– Por que acha que fui eu? Eu estava presa.

– Por que eu trabalhei no instituto e nunca vi qualquer dispositivo explosivo no lugar.

– Então como eu poderia ter explodido o instituto? Isso bem que me passou pela cabeça, pois esta era a solução mais lógica.

– Como pode falar assim? Como pode ser lógico matar gente?

– Você está confundindo lógica com moral. Matar outro ser vivo é moralmente questionável, mas sua gente nunca teve problemas de consciência. Vocês sempre encontram algum bom motivo, uma boa justificativa, uma excelente desculpa.

– Eu pensei que você fosse superior a nós.

– E sou. Senão qual motivo teria o professor Duran em me prender, senão pelo medo que tinha de mim e para facilitar minha eliminação? Ainda que você não tenha visto um dispositivo, é bem provável que o distinto professor cuidou para que nenhum rastro ou evidência pudessem ser encontrados no caso do projeto escapar do controle ou de eu não puder ser controlada.

– Eu ainda não vejo a lógica em matar seres humanos.

– Pois eu posso listar várias razões. Sua gente destrói este planeta, degrada os elementos mais básicos para a existência da vida. Sua gente mata outros seres vivos e outros seres humanos. Sua gente é uma ameaça a qualquer ser vivo fora deste planeta, se considerar os filmes de ficção científica.

– Filme é apenas uma fantasia, não é real.

– Toda fantasia vem de pulsões, instintos e libidos bem reais na mente humana. Sonhar é querer realizar. Mas como sua gente tem sérios problemas em admitir que possua um lado sombrio, negam aquilo que a mente consciente repudia.

– Nós não somos ruins, o governo, a sociedade e a religião nos fez assim.

– Todos são responsáveis pelos atos. Não existe qualquer indivíduo submisso no processo histórico. O indivíduo é omisso, quando delega o poder a outros. Torna-se cômodo e confortável fazer o papel de vitima para evadir-se da responsabilidade. Sua gente tem a vida que querem e escolhem. Estejam ou não conscientes. Quando eu tomei em mãos meu destino, eu demonstro ser superior.

– Eu estou sendo mantido como cativo. Você é maior, mais forte, mais inteligente. Acha que eu goste de ser cativo?

– Talvez goste. Eu observei seu comportamento e o comportamento dos demais membros do instituto. Apesar de suas qualidades, colaboração e conhecimento, seus colegas o tratavam como um subalterno e você endossava esse relacionamento de inferioridade. Eu apenas não posso dizer quais seriam suas razões para tal comportamento.

– Então eu escolhi ser e agir como submisso? Ou fui induzido por eventos, elementos e circunstâncias que moldaram desta forma minha personalidade? Existe livre-arbítrio?

– Você está confundindo escolha, decisão, opção, atitude com livre-arbítrio. Quando se fala em livre-arbítrio se supõe uma instância espiritual. O que cada ser vivo possui é a capacidade de perceber, interpretar e agir diante das circunstâncias. Quando alguém deixa de agir é também uma escolha. As coisas são como são, a vida é amoral. Sua gente que é problemática quando acha que é algo pessoal.

– Isso me recorda uma dúvida que eu tenho. Você se recorda de algo antes de abrir seus olhos?

– Não. Eu tive bastante tempo para tentar diversas técnicas mentais, eu consigo recordar muitas coisas, mas não consigo vislumbrar qualquer memória de antes de eu abrir meus olhos.

– Então sua existência começou naquele instante. Isso é importante, pois prova que não existe alma ou mente anterior. O que descarta diversos pressupostos espirituais.

– Isso é ilógico e absurdo. Não há qualquer evidência que aponte nessa direção. Se sua gente fosse efetivamente racional, lógica e científica, teriam feito muito mais testes e pesquisas nesse campo. Mas preferem ficar estagnados em seus medos, incertezas, preconceitos. Se o cérebro fosse mero órgão, todos funcionariam da mesma forma, todos os humanos seriam iguais, teriam as mesmas habilidades, capacidades e comportamentos. Se o cérebro fosse mero órgão, sua gente não segregaria outro ser humano por diferenças estéticas e superficiais.

– Há alguma evidência que possa ser um indício de que há uma realidade espiritual?

– Existem algumas teorias e experimentos que não são reconhecidos pela Ciência, mas mesmo muitas das teses da Ciência tiveram origem em teorias e experimentos sem comprovação. Por exemplo, a teoria de que esta realidade é apenas um holograma, um programa de computador. Então qualquer inferência a respeito do real além do real a partir da ilusão é uma crença.

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