Máquinas que sonham

Os pesquisadores do instituto haviam sido bem sucedidos no projeto de imprimir um ser humano em totalidade, mas as questões éticas estavam longe de extinguirem.

O que fazer com Galathea? O instituto poderia apresenta-la para a Academia Científica? Os desdobramentos legais e jurídicos dessa revelação eram muito complexos e complicados. Outras questões e necessidades precisavam de soluções imediatas.

Galathea precisava de roupas e de um lugar para dormir. Ela precisaria comer. Ela poderia trabalhar? Fazer exercícios? Ter atividades culturais?

O coordenador do projeto, o professor Duran, ordenou para que Mark levasse Galathea a qualquer dormitório vazio. Um cubículo que tinha apenas uma cama, colchão, travesseiro e uma mesa. Regina apareceu pouco depois com algumas roupas doadas. Kim trouxe a gororoba do dia da cantina.

Depois o professor Duran transferiu Galathea para uma sala com instrumentos e janelas de observação. Uma sala com guardas e grades. Mesmo dormindo, Galathea era observada por câmeras de vigilância. Sensores colocados no leito hospitalar e travesseiro monitoravam sua atividade cerebral. Os sinais mostravam que Galathea era capaz de sonhar. Com o que sonharia Galathea? Ela era humana, máquina, algo totalmente híbrido ou algo completamente novo?

Tecnicamente Galathea tinha algumas semanas de vida, mas sua compleição, forma, consciência e maturidade era a de um ser humano aos vinte anos. De onde teria vindo essa maturidade precoce? Quantos anos seria sua expectativa de vida? Ela seria capaz ou desejaria reproduzir? Se reproduzisse, qual seria o resultado? Evidente que não faltavam homens e mulheres no instituto interessados em se voluntariar para investigar a sexualidade de Galathea. Mas poderiam? Afinal, ela era, tecnicamente, menor de idade.

Galathea não estava satisfeita com sua situação. Ela tinha comida, bebida, exercício, livros, filmes, revistas, música, internet, mas não tinha liberdade. Ela sabia e sentia os olhares daqueles humanos diferentes dela. De alguma forma, ela sabia que era ou desejada, ou invejada. Galathea era plenamente capaz de ter a convicção de sua existência, mas nutria dúvidas quanto sua natureza e qual vínculo ela tinha com seus captores.

Quando nasceu, a primeira concepção de Galathea quanto sua existência estava conectada com o tanque e os instrumentos conectados ao seu corpo. Mas nada se lembrava de antes de abrir os olhos. Ingenuamente, acreditou que esta seria a forma como humanos vinham ao mundo, mas depois percebeu que ela era diferente, em muitos aspectos. Quem ou o que ela era? Quem ou o que são estes outros seres? Ao ficar confinada, Galathea sentiu que suscitava medo e desconfiança destas criaturas, ainda que estas tenham, de certa forma, a criado. Galathea queria e precisava se decidir como interagir com estes outros humanos.

Depois de um tempo, lhe foi permitido fazer suas próprias roupas e alimento. Quando acabavam os livros disponíveis, o instituto ou traziam mais livros ou permitia a ela acessar os arquivos públicos de bibliotecas do mundo inteiro. Em alguns meses, Galathea era poliglota e tinha conhecimento enciclopédico a ponto de discutir como igual com doutores, mestres e professores. Os temores do professor Duran foram aumentando em igual escala. No entanto a diretoria do instituto não chegava a uma decisão quanto ao que fazer com ela.

Mark teve um presságio agourento e foi até a cela onde o professor Duran mantinha Galathea presa. O corredor estava sem luz, não tinha um único funcionário do instituto e não havia sinal dos guardas. Temendo o pior, Mark entrou na cela e viu uma poça de sangue, mas não sinal de Galathea. Mark sentiu seu corpo sendo erguido facilmente do chão e a sensação fria de uma lâmina em seu pescoço. Mark sentiu um cheiro familiar. Seu agressor era Galathea.

Galathea declarou a Mark que havia tido uma decisão. Ela era a verdadeira humana. Como nos mitos antigos, ela era espelho e reflexo da humanidade original. Ela era mais forte, mais rápida, mais inteligente, mais resistente, ela era superior. Ela deu uma escolha para Mark. Reconhecê-la como sua mestra e reconhecer-se como humano incompleto, defeituoso e inferior. Considerando a cena e o destino que seus guardas tiveram, Mark não teve problemas em aceitar sua condição e a ajudou a escapar do instituto.

Mark era um funcionário de segundo escalão, transitava pelo instituto e frequentemente era mandado para a cidade para pegar suprimentos. Não foi difícil colocar Galathea em um furgão, cobrir com caixotes de papelão e sair pelo portão principal sem que os vigilantes sequer tenham pedido a nota de expedição ou ordem de serviço.

Mark não precisaria se preocupar com futuras perseguições. Quando a van atingiu o alto da colina, na estrada que ia para a cidade, o ponto cinza indistinto que marcava a posição do instituto na paisagem sumiu em uma enorme explosão. Algo terrível, mas talvez necessário, se Galathea quisesse viver sue maior sonho: a liberdade.

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