Humanidade plástica

Os bisavôs de Mark Shelley ainda viviam assustados com o livro que a escritora famosa desta família escrevera por volta do século XIX. Seu tio avó, Kirk Lang, fez um filme que deu origem ao filme Metrópolis. Um primo seu americano havia ajudado a escrever o roteiro de Blade Runner. Um primo russo, Logan Asimov, ajudou a escrever livros que falavam de autômatos.

Mark tinha que aguentar piadas de seus colegas no Instituto Prometeu, piadas sobre autômatos, androides, ciborgues. Mas ele não ligava mais, nem mesmo quando o cinema ora alimentava o terror do homem, ora estimulava as fantasias humanas. Mark estava no lugar e no laboratório perfeito para ele explorar as tecnologias avançadas, ali ele tinha contato com pesquisadores da área de células tronco, pesquisadores de sistemas de clonagem, pesquisadores de biotecnologia e pesquisadores da área de inteligência artificial.

Foi uma sensação quando a equipe do Dr. Sato conseguiu utilizar a impressora 3D para recriar tecidos biológicos. Mark funcionou como uma ponte entre diversas equipes para tentar algo que parecia ser arriscado demais e impossível: “Imprimir” um ser humano completo. Se conseguissem, como iriam chamar esta criatura, se não era nem artificial nem natural, nem humano, nem cibernético? Mas seus colegas discutiam um assunto mais delicado e sensível. Que tipo de humano imprimiriam? Masculino ou feminino? As mulheres queriam homem e os homens queriam mulher e a briga estava ficando feia. Mark sugeriu algo que poderia explodir de vez a discussão: ele sugeriu imprimir um hermafrodita. Mas o que seguiu foi silêncio. A equipe se dispersou e começou a trabalhar.

Mark ficou com o grupo que cuidaria da estrutura óssea, ou do esqueleto da criatura. A partir de um molde tirado de um esqueleto bem comum de consultórios médicos e faculdades de medicina, Mark começou a injetar com a impressora 3D os diversos ossos que comporiam a criatura. Mark, no entanto, não gostou dos resultados, pois pareciam masculinos ou femininos demais. Mark precisaria de referências de algum setor do instituto que mexesse com necropsia e torceu para que tivesse algum registro com dados de pessoas transgênero, intersexuais ou hermafroditas.

Ele, Regina e Kim conseguiram com o professor Duran não apenas os dados necessários, mas puderam medir diversos voluntários e voluntárias que preenchiam suas expectativas. Kim percebeu que as amostras anteriores não eram inteiramente descartáveis e Regina redimensionou alguns ossos. A partir desses modelos, Mark pode desenvolver os moldes perfeitos para a estrutura óssea desta criatura e imprimiu os ossos com a impressora 3D.

Ao chegar ao laboratório central, Mark e seus colegas foram ajudar outros grupos para as outras partes da criatura. Até ter os outros ingredientes, o esqueleto ficou conservado em uma solução salina, em um enorme tanque. Regina auxiliou no desenvolvimento dos sistemas vasculares. Kim auxiliou no desenvolvimento dos sistemas neurais. Mark foi auxiliar no desenvolvimento dos órgãos e dos tecidos. Foi extremamente delicado e difícil desenvolver cada um destes elementos e ainda teriam que adequar o resultado ao esqueleto que estava pronto.

Quando conseguiram, o professor Tales, coordenador do projeto, lembrou que nada disso seria completo e eficiente sem o desenvolvimento de uma inteligência artificial, ou melhor, de uma mente, de uma alma, para esta criatura. O cérebro é como um computador, a mente é como um sistema operacional. Que tipo de inteligência seria inserido nesta criatura? Quais memórias? Quais preferências? Qual caráter? Qual talento? Qual habilidade? O mais principal: teriam os pesquisadores e pesquisadoras envolvidas o direito de definir, como se fossem Deuses, a identidade dessa criatura?

Uma série de discussões éticas estava em cena. O projeto não estava construindo um autômato, não estavam montando um androide, não estavam copiando outro ser humano, não estavam conectando próteses biotecnológicas em um corpo senciente. Aquilo era para ser um ser humano, totalmente desenvolvido por um laboratório. A divisão de embriologia sugeriu então que alimentasse o cérebro com as mesmas informações básicas que todo ser humano é equipado ao nascer e deixar que a criatura decidisse por si. Mal o projeto havia concluído e os pesquisadores tratavam a criatura como se humana fosse.

Aos poucos, conforme o concerto e colaboração de cada equipe, os órgãos, os sistemas vasculares, os sistemas neurais e todos os demais tecidos foram sendo colocado no esqueleto. Uma equipe com treinamento em Unidade de Terapia Intensiva aplicou na criatura os mesmos princípios ao paciente que se recupera de um coma. A criatura foi sendo alimentada, ventilada e irrigada. Depois de um longo período de espera e expectativa, detectaram-se os primeiros sinais sinápticos, pulsação e batimento cardíaco.

Foi uma comoção enorme quando a criatura abriu os olhos. A criatura estava viva e reagia ao ambiente. A criatura teria que aprender da mesma forma que um bebê aprendia, mas aquilo surpreendeu a todos ao assimilar um vasto conteúdo pela conexão neural ligada diretamente na rede. Muitos saíram correndo e outros se borraram nas calças quando a criatura ergueu-se do tanque, saiu daquele berço e demonstrou possuir a habilidade de andar.

Mark notou que a criatura estava visivelmente tolhida e constrangida pelos fios, sondas e tubos. Corajosamente, foi desconectando cada sensor. A criatura deixou Mark retirar as conexões e demonstrou que podia respirar e falar, ao agradecer pela ajuda de Mark. Ousado, Mark lhe perguntou como queria ser identificada e chamada. A criatura preferiu ser tratada como feminina e escolheu um nome sugestivo para si mesmo: Galathea.

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