O grande tabu

Toda sociedade, desde a mais simples até a mais complexa, tem seus tabus. No sentido mais amplo, o tabu tem mais algo a ver com um evento ou fenômeno sagrado, divino, que precisa ser separado, protegido, do que com proibição. O tabu tem uma função social, que é reforçar a norma e servir como catarse de nossas impulsões.

Morte é um tabu, ou melhor dizer, o defunto. Mas a sociedade tem que lidar com o luto, o e como lidar com o corpo do finado. Para lidar com a morte e a finitude, a humanidade tem ritos de passagem para marcar e anunciar o fim de uma vida. Para lidar com o luto e o corpo, a humanidade tem que separar o local onde os despojos serão tratados e escolher aqueles que irão fazer as exéquias.

Em extensão, o homicídio é um tabu. Aquele que causa por algum meio a morte de outro é como desafiar a fortuna, o destino, a vontade divina. Dos crimes que são punidos pelas sociedades, o homicídio é o mais carregado de simbolismo e estigma. Dependendo das circunstâncias e da vítima, o criminoso carregará consigo uma marca que o equipara a seres sobrenaturais sedentos de sangue e morte.

Como paradoxo, a guerra é um tabu por envolver morte e homicídio, mas o simbolismo e valores contidos na guerra são de outra natureza. As sociedades humanas separam e treinam aqueles que são incumbidos de ir combater em uma guerra. O soldado que está na guerra será tido como herói caso seu país seja vencedor. O soldado, apesar de cometer homicídio, será homenageado se voltar vivo e será considerado herói se tombar em batalha.

Outro caso similar é o tabu do canibalismo. Envolve morte, homicídio e crudivorismo. Comer em si mesmo tem diversos tabus, dependendo da comida, da sociedade e da cultura. O canibalismo, entretanto carrega uma carga maior de simbolismo e estigma. Combinado com a guerra, em algumas sociedades, é esperado que o soldado vencedor coma o soldado vencido. Em circunstancias muito especificas e raras, sociedades que realizam rituais de sacrifício humano cometem o canibalismo, dando uma dimensão sagrada e religiosa ao ato.

Assim como diversos aspectos conectados com a morte têm tabus, diversos aspectos conectados com a vida têm seus tabus. Necessidades básicas, como comer e beber, dependendo da sociedade e cultura, tem tabu. Tanto preceitos religiosos proíbem determinados tipos de alimentos e bebidas para seus membros, quanto preceitos religiosos prescrevem os mesmos determinados tipo de alimentos e bebidas como oferendas ao divino.

Há algo em comum a estes tabus. Todos versam sobre restrições relativas ao corpo. O corpo é a causa e a consequência do tabu. Então quando entramos na questão do prazer, do desejo, do sexo, os tabus aumentam exponencialmente. O caso mais explícito, em diversas sociedades, é o tabu do incesto. O interessante é que no âmbito do mito, do sagrado, do divino, o incesto tem outro significado. Em algumas sociedades, por conta desta grandeza mítica, o incesto é cometido por nobres e reis, como simulacro do divino e confirmação da linhagem divina destes.

Neste mesmo intuito, ronda o tabu que gira em torno do gênero, identidade/preferência sexual e modelos de relacionamento. Em alguma sociedade a homossexualidade ainda carrega um enorme estigma, por conta do recalque, repressão e opressão sexuais impostas pela sociedade, pelo Estado e por algumas religiões. O interessante é que em algumas religiões, o travestismo e a homossexualidade são tidos e vistos como aspectos do divino, celebrados com ritos e mitos próprios. Apenas muito recentemente o discurso de gênero foi questionado, dando espaço para identidades/preferências sexuais alternativas, quando a humanidade percebeu que estes conceitos eram cultural e socialmente determinados.

A humanidade está começando a questionar os modelos de relacionamentos padronizados, ainda de forma restrita e controlada grupos exploram outras formas de relacionamento. O interessante é que a humanidade ainda não questionou os padrões e imposições culturais e sociais no que tange aos limites de faixa etária, especialmente quanto a capacidade, habilidade, responsabilidade, consciência e sexualidade.

O grande tabu que ainda resiste é a noção de que uma pessoa, dependendo de sua idade, não é capaz de ter consciência nem de consentir em ter um relacionamento, tampouco se reconhece que ali existe um corpo dotado de sexualidade, que deve ter a liberdade e o direito de se expressar. Na Sociedade Contrassexual, toda pessoa terá o direito e a liberdade de expressar sua sexualidade, nos termos que quiser se definir, sendo irrelevante sua idade.

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