Conciliábulo

– Onde estou?

– Bem aqui. No começo deste texto.

– Quem é você?

– Eu sou o antagonista.

– Por que me trouxe aqui?

– Eu não te trouxe, você veio. Eu sempre estive aqui.

– Eu não acredito em você. Você está mentindo.

– Eu não preciso que creia em mim. Você é livre para ir embora.

– Eu sabia! Você é o antagonista. Se eu for embora, você vai poder contar vitória.

– Contar vitória? Isso não é uma competição. Nós somos apenas dois personagens em um texto.

– Como assim? Quer dizer que fora deste texto, eu não existo?

– Isso é algum problema? Eu me contento em existir. O que há além deste texto é a mente do escritor. Nós também estamos ali.

– Como assim? Quer dizer que existe um criador? Que eu não sou uma mera configuração do acaso? Que existe um propósito para minha existência?

– Por que você é tão problemático? Por que se tortura com tantas questões? Por que é tão importante assim para você acreditar que sua vida, sua existência, é uma mera coincidência?

– Por que eu sei que eu sou. Eu percebo a realidade por evidências, provas e experiências cientificamente testadas. Qualquer outra coisa é crendice, superstição.

– Vejo que isto há de ser um problema para você, protagonista. Veja bem, tudo isso que você conceitua como evidência, prova, experiência científica, existe por que está subscrito neste texto. Fora deste texto, mesmo estas coisas, estas suas crenças, são tão absurdas como qualquer outra forma de crença fundamentalista.

– Eu não acredito em você. Você está mentindo.

– Muito bem, então tente dizer, de acordo com suas crenças, quem é você e quem é seu protagonista? Você pode se ver? Você pode me ver?

– Evidente que eu posso me ver! Basta que eu olhe para um espelho.

– Você pode se ver, mas perguntou onde estava. Não conseguiu ver onde estava? Um espelho é uma imagem, uma ilusão, uma representação, não é você. Quem sou eu? Onde eu estou? Quais as minhas características?

– Você está tentando me deixar confuso. O que é de se esperar do antagonista. Deixe de enigmas! Mostre-se!

– Você alega que pode se ver, mas não me percebe? Isso soaria irracional e ilógico para um descrente. Como pode ter certeza de que você não é um mero pensamento na mente do escritor?

– Eu falo, eu escuto, eu vejo, eu sinto, eu toco. Então eu existo.

– Evidente que sim. O escritor te pôs aqui com estes atributos. Não obstante, não passam de sentidos, que podem estar enganados e são limitados. Eu estou bem diante de você e ainda assim não me vê?

– Você é apenas uma voz na minha cabeça [splaft] ai!

– Eu te bati? Eu não te bati? Como que você, que diz ser tão lógico e racional pode escutar vozes na cabeça e ser estapeado pelo vento?

– Mas eu senti seu tapa, portanto, eu existo.

– Sentiu por que existe ou sentiu por que assim o escritor colocou no texto?

– Senti por que senti. Eu não sou um personagem dentro de um texto.

– Realmente? Como você pode provar?

– Você está me ouvindo e pode me dar um tapa, portanto, eu existo.

– Eu estou te ouvindo? Eu tenho ouvidos? Você tem boca? Você pode falar? Você tem um rosto? Eu tenho uma mão? Há pouco você afirmara que eu era apenas uma voz em sua cabeça. Como uma voz em sua cabeça pode te estapear?

– Cale-se! Você é o antagonista! Está aqui apenas para me perturbar! Eu sou o protagonista!

– Interessante. Considerando que eu seja uma voz em sua cabeça, o antagonista é o protagonista? Ou o protagonista não é o personagem principal, mas sim o antagonista? Você ainda não resolveu sequer se você existe, mal consegue perceber minha existência, como pode afirmar que é efetivamente o protagonista e o antagonista?

– Você disse que era o antagonista.

– E fui eu quem disse que você é o protagonista. Você percebe que não conseguiu se definir, senão pelo que eu afirmo? Assim como as evidências, as provas e as experiências científicas, elas te dizem o que é real. Não é você quem definiu o que é o real.

– Basta! Se eu sou apenas um personagem de um texto, quando acabar o texto, nada disso fará sentido! O texto acabará, mas eu continuarei a existir!

– Exatamente. Assim como aquilo que faz com que uma pessoa seja uma pessoa não acaba com o corpo. O corpo, assim como o texto, acaba, mas não a pessoa. Que pena que nossa existência neste texto se acabe no ponto final.

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