Capital sensual

Retomando um conceito que precisa ser melhor explorado: o sexo é privado, o sexo é público.

O homem produz desde que apareceu neste mundo e, para isso, desenvolveu diversos métodos de produção e relações econômicas. Na aurora da humanidade, não havia o sentido de propriedade, o acesso aos meios de produção pertencia a todos da comunidade. Conforme nossa espécie cresceu, o acesso aos meios de produção escasseou, as funções foram ficando cada vez mais específicas e diversificadas, as necessidades tornaram-se igualmente complexas. Novas formas de produção propiciaram excesso de determinados produtos, a escassez de acesso aos meios de produção propiciou a carestia e a combinação de ambos resultou no desenvolvimento do comércio. Conforme nos expandimos, a necessidade de facilitar a comercialização de bens e serviços causou o aparecimento do dinheiro, em moeda ou papel. Como toda forma de ação humana, o dinheiro também ficou sujeito à escassez e ao excesso de produção. Outros elementos surgiram na economia, como o conceito de propriedade e a atribuição de valor às coisas e pessoas.

A Era Moderna é conhecida também como a Era Industrial e o início do sistema capitalista, onde o modo de produção consiste na produção em larga escala, no comércio massificado e na exploração/expropriação do valor produzido pelo trabalhador. Não cabe, no momento, discutir a moral e a ética do sistema, mas os seus efeitos imediatos na sexualidade humana.

A Era Moderna passou por conflitos mundiais duas vezes, em uma escala de violência e destruição milhares de vezes maiores do que diversas guerras de outras eras. O que estava em disputa era enormes faixas de território e a possibilidade de ganhar muito dinheiro. A guerra ainda é um grande negócio. Mas a guerra teve outro efeito inesperado – a homossexualidade e a prostituição. Antes a homossexualidade e a prostituição eram de poucos nobres, aristocratas, reis, imperadores. Na Era Moderna a homossexualidade e a prostituição se tornaram uma “mercadoria” popular. Primeiro foram os homens, soldados, que provaram deste “fruto proibido” da cultura judaico-cristã. Depois as mulheres descobriram a homossexualidade e também o feminismo. Estes efeitos colaterais da guerra tornaram possível um fenômeno de ruptura no sistema: a Contracultura.

Artistas, intelectuais, estudantes de universidades se uniram para contestar o sistema, apregoando uma sociedade alternativa. Uma das ideias da Contracultura era o Amor Livre. Neste cenário foi possível para gays e lésbicas “saírem do armário” e começarem a lutar pelos seus direitos, da mesma forma como negros haviam lutado. Uma grande mudança aconteceu na literatura, na arte, no cinema, na religião e na sociedade em geral. Um empresário americano lançava, com grande controvérsia e polêmica, a primeira revista adulta masculina, dando início ao rentável negócio da pornografia.

A princípio a pornografia foi duramente combatida pelos governos, mas depois tolerada, por que era rentável e fornecia meios para endossar o sistema de repressão e opressão sexual. A pornografia, ou a escrita da prostituição, recebeu a pecha de coisa vulgar, suja, imprópria, impura, pois exacerbava aquilo que ainda hoje são tabus na cultura ocidental cristã: amor, sexo, relacionamento, desejo, prazer e o corpo. A pornografia foi usada pelo Estado, pela Sociedade e pela Igreja para manter o patriarcado, a misoginia, a monogamia e a heteronormatividade. O curioso é que quando o Feminismo contesta e protesta contra a pornografia, acaba endossando o discurso oficial.

Este é o sentido da biopolítica, quando o Estado trata o sexo, de assunto privado, torna-se assunto público. O modo de produção capitalista/consumista/industrial precisa manter a máquina humana em funcionamento e [re]produzindo. Para isso, políticas de controle populacional, tecnologias de contracepção e tratamentos médicos para doenças sexualmente transmissíveis surgiram.

A pornografia, seguindo sua própria dinâmica, fez com que surgisse outra categoria de serviço, produto, função e trabalhadores: a dos trabalhadores do sexo. Com a tecnologia e o conhecimento clínico em relação ao seu próprio corpo e como acontece a reprodução humana, o homem pode, ainda que de forma marginalizada, explorar as diversas alternativas de gênero, de identidade/preferência pessoal, de tipos de relacionamento. Aos poucos, o sexo passou, de domínio privado ao domínio publico, de forma generalizada.

Na Sociedade Contrassexual, todo corpo terá meios de se explorar e de se expressar conforme seus desejos e prazeres. O Estado fornecerá locais públicos onde o corpo possa adquirir o conhecimento, a técnica, o apoio e os recursos necessários para que este possa se explorar e se expressar. Na Sociedade Contrassexual, não haverá mais corpos marginalizados, nem instrumentos proibidos ou censurados.

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