Realmente virtual, virtualmente real

A banda irlandesa U2 definiu bem o Mundo Contemporâneo com a música “Even Better Than the Real Thing”. O mundo ocidental cada vez mais se aproxima de tornar real o mundo de “Blade Runner”, com máquinas semelhantes ao anime “Ghost in the Shell”. Eu não sei identificar com precisão quando todas essas mudanças aconteceram. O que eu sei é que, desde a década de 90 do século XX a mudança está cada vez mais acelerada, de uma forma tal que instituições obsoletas tentam sobreviver de algum jeito.

O homem, a humanidade, o sistema, dobrando-se sobre si mesmo, reciclando e reinventando novas formas de dizer as mesmas coisas que eram ditas no século XVIII, gerando toda uma nova era: a Era da Internet. Nunca, de forma tão aberta, quase absoluta e democrática, se teve tanto acesso à informação. A nova geração [re]produz e [re]cria valores latentes de uma forma que não estava previsto no esquema e não há forma alguma de parar o processo.

Começamos a Era Moderna com o aparecimento da indústria e da produção para consumo em massa. Foi introduzido no mundo outros materiais e outros produtos, bem como os meios de comunicação em massa, a linguagem midiática, mais o desenvolvimento de necessidades supérfluas e fúteis. Coisas e pessoas passaram a ter valor financeiro, valor capital e assim nós somos negociados, recebemos um preço e somos embalados. De gente, nos tornamos apensos das máquinas, senão acessórios das máquinas, ao invés das máquinas serem nossos instrumentos, nossas extensões, nosso “organismo” artificial.

Não foi suficiente substituir matérias primas por simulacros, não bastou trocarmos produtos duráveis por produtos com data de validade, não bastou trocarmos produtos orgânicos por produtos artificiais. O homem se tornou um simulacro de si mesmo, estendemos nossa data de validade, criamos organismos artificiais, tornamos possível a reprodução artificial.

Agora o homem [re]descobre também a plasticidade de sua condição, de sua sexualidade, de seu gênero, de sua identidade/preferência/opção sexual. Torna-se desnecessário que a medicina altere por cirurgia as pessoas que nasceram intersexuais. Torna-se desnecessário que a educação e a sociedade imponha o padrão heteronormativo. A pessoa humana é X, Y, mas isto não vem com manual de instrução dizendo que tal pessoa é ou “homem”, ou “mulher”. Será uma grande surpresa quando a ciência descobrir que a pessoa humana tem o Z, como os habitantes do planeta X1S do “Manifesto Onigâmico” de Mauro Bartolomeu.

A internet deslocou ainda mais a pessoa do corpo. Ferramenta de comunicação e plataforma de criação, ela deu ao homem uma nova forma de se representar, de se incorporar, ao dispor ao usuário dessa mídia revolucionária a alternativa de criar avatares. Novas aplicações para uma palavra antiga, o homem pode se tornar deus, ao menos no ambiente virtual. Aqui, qualquer um pode ser qualquer coisa, pode ser qualquer um. O homem encontrou na internet o habita ideal para suas fantasias e utopias, o virtual é realmente possível, ou o real é virtualmente possível.

O homem ocidental cristão pode se transportar e se tornar um senpai de uma escola de garotas no ginásio e ser disputado por todas. O garoto introvertido e inseguro pode se transportar e incorporar no herói do anime. A mulher recalcada e frígida pode se tornar uma sexóloga. A garota inexperiente, mas curiosa, pode se tornar uma fêmea fatal. Acabaram todas as fronteiras, de origem, de etnia, de linguagem, de cultura, de gênero, de sexualidade, de preferência/opção sexual, de tipos de relacionamento, de faixa etária. Na internet, o homem se torna pessoa humana. Capaz de se expressar sem medo, sem receios, até suas mais íntimas fantasias, desejos, pulsões, libidos e instintos.

Na Sociedade Contrassexual, a pessoa humana, seu corpo, terá todas as formas e meios de se expressar, seja de forma virtual, seja de forma real.

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