Magritte na filosofia

A obra “Manifesto Contrassexual”, de Beatriz Preciado, é uma proposta baseada no argumento que as questões da sexualidade, gênero, em como suas derivações [identidade, preferencia
e opção sexual] são linguagens que fazem parte de um discurso biopolítico.

A autora teve como base as obras de Deleuze/Guattari, Foulcault e Derrida. Eu me sinto ambientado nesse tema, sendo comunicólogo e tendo estudado a teoria semiótica. Felizmente eu tive contato com Roland Barthes, bem como eu tive a felicidade de ler Guattari/Deleuze e Foulcault, apenas me faltando Derrida, o que será minha próxima aquisição.

A linguagem é um produto cultural, típico do ser humano, através do qual nós passamos [transmitimos/comunicamos] nossas concepções a respeito do mundo. Cada tipo de saber humano é expresso dentro de uma linguagem, dentro de normas [ortografia/gramática] e dentro de um discurso normativo.

Eu vou iniciar esta resenha pelo título da obra, para então introduzir alguns conceitos básicos da autora. Quando falamos em “manifesto contrassexual”, o leitor não deve entender que a autora é contra a sexualidade, aqui o puritanismo e o conservadorismo são miragens que devem ser desconstruídas. A proposição da autora é expressar-se contra os conceitos pré-concebidos, que são estruturados na falsa noção a respeito de gênero/sexualidade, que são parte da biopolítica.

Através da desconstrução a autora discute e questiona a conexão entre o significado e o significante, apontando o quanto essa conexão é artificial, ilusória, arbitrária. Aqui não cabem teorias da biologia e da genética, pois estes conhecimentos estão dentro do discurso normativo e não expressariam outra coisa senão aquilo que é determinado pela biopolítica.

Felizmente eu tive contato com obras que apontam que nosso DNA define a forma de nossos órgãos sexuais, mas não a nossa sexualidade, nem o nosso gênero. Através de exemplos e de casuísmos, a autora demonstra que os conceitos pré-concebidos não são normais, naturais, científicos, mas são construções socioculturais, são obra de uma pré-operação da biopolítica [quando não pós-operação], ao atribuir dentro dos padrões normativos um dentre apenas dois gêneros.

Aqui eu introduzo um conceito da autora: o papel que um determinado gênero exerce dentro da estrutura normativa é uma performance, assimilado pela pressão social e pela educação.

Existe uma interessante contradição nessa biopolítica, afinal o senso comum diz que o sexo é algo íntimo, privado, mas nós vemos continuamente o Estado, a Sociedade e a Igreja interferir e impor um padrão normativo, mostrando que o sexo é público.

A autora foca sua obra na Era Moderna, na Era Industrial e no Capitalismo. O Capitalismo, sendo um sistema econômico baseado no consumo massivo de bens e produtos, procurou matérias primas mais acessíveis e mais baratas pela tecnologia e ciência. Em nome da produção, da economia e da massificação, apareceram diversos simulacros imitando outra coisa, em uma constante ressignificação e reificação da realidade, cada vez mais plasmática, moldável, falseável.

Aqui eu introduzo outro conceito da autora: o pós-humanismo, a deslocação entre natural/artificial, entre normal/anormal, entre orgânico e prostético. O gênero não está vinculado ao órgão sexual, como a sexualidade não está vinculada com a reprodução. O pós-humano se apropria, ressignifica e reifica, em uma linguagem própria, como uma resistência, a contrassexualidade, onde a pessoa reassume o domínio sobre seu corpo.

Para este intento, a autora utiliza-se da dinâmica da teoria queer, fazendo uma releitura, uma reinterpretação, das expressões utilizadas nos guetos da sexualidade desviante. A ressignificação e reificação do dildo desloca a estrutura social centrada na falocracia. A ressignificação e reificação do papel do homossexual, do transgênero, desloca a estrutura social centrada na heterossexualidade. A ressignificação e reificação de relacionamentos e de tipos familiares alternativos desloca a estrutura social centrada no patriarcado.

A autora desconstrói, a maneira de Derrida, os conceitos pré-concebidos, assim como os estereótipos, modelos e padrões, não apenas da estrutura normativa, mas mesmo das teorias desviantes, ao tornar o gênero e a sexualidade, fatores multidisciplinares e polifórmicos. O gênero e a sexualidade não são nem natural, nem artificial; não são normais nem anormais; não são nem orgânico nem prostético, podem ser ambas as coisas e nenhuma delas; são aquilo que nós definirmos ser.

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