Quando o céu caiu – II

Depois que eu comi, fiquei assistindo televisão e estava quase dormindo quando eu ouvi uma voz feminina.

– Que mundo é esse que um Filho da Luz tira a roupa e toca um Filho da Sombra?

Eu fiquei duplamente surpreso, pois havia me esquecido e minha visitante e, até a pouco, eu não sabia que ela falava minha língua. Eu olhei para trás e a vi com a calça e a camisa que deixei para ela vestir. As roupas não eram apertadas, mas definiam bem melhor suas formas femininas do que seu uniforme. Nossos olhares se cruzaram e ambos ficamos ruborizados.

– Perdoe-me… hã… senhora, mas você estava com um ferimento grave e eu tive que remover parcialmente seu uniforme e tocar em seu corpo. Mas por que me chama de Filho da Luz? Como está falando minha língua?

– Eu entendo sua situação e agradeço sua ajuda. Para mim, você é muito parecido com um Filho da Luz e eu aprendi sua língua captando as transmissões deste seu aparelho que emite som e imagem.

– Eu te garanto que eu não sou um Filho da Luz e não conheço um Filho da Sombra, exceto por você. Aquelas aeronaves que passaram depois de sua queda eram dos Filhos da Luz?

– Sim, sem dúvida. Nossa luta começou muito antes deste mundo ser formado, mas havia um pacto de nunca envolver os aborígenes deste mundo em nossa guerra. Infelizmente para os seus, essa regra foi quebrada.

– Se eu estiver correto, os Filhos da Luz quebraram essa regra de não interferir neste mundo há muito tempo. Este mundo tem ficado por milênios debaixo da dominação de povos, governos e religiões ligados aos Filhos da Luz.

A criatura colocou sua mão e dedos, como se apoiasse seu queixo e fez uma expressão séria, como se estivesse pensando. Mais sinais universais.

– Isso faz sentido. Se a regra estivesse sendo observada, sua gente estaria em um nível de progresso muito diferente, teria uma sociedade diferente e um governo diferente. Ainda existem humanos que mantêm as religiões originais deste mundo?

– Em lugares aonde a “civilização” não chegou e alguns humanos que tem tentado resgatar essas religiões originais. Estas religiões tem alguma ligação com seu povo?

– Eu devo supor que algumas sim, outras não. Mas o que me deixa curiosa é o motivo que os habitantes deste mundo se tornaram tão parecidos com os Filhos da Luz.

– Eu acho que isso aconteceu por que os Filhos da Luz fizeram mais do que interferir com o meu povo. De acordo com textos antigos, seres desceram do céu e se uniram com as fêmeas humanas.

– Devem ter sobrado alguns aborígenes, senão esses textos nunca seriam conhecidos. Eu espero poder encontrar aqueles que carregam a descendência do meu povo.

– Então seu povo também esteve neste mundo e produziu descendência?

– Sim, embora nossos colonos não tenham forçado ou escravizado seu povo. Haviam colônias dos dois povos antes da guerra chegar até esta galáxia. Nós contamos histórias de como acreditávamos estarmos longe e em segurança. Pelo que assimilei de seu aparelho, sua gente é uma mistura muito curiosa de diversos povos locais e possui a herança tanto da Luz quanto da Sombra.

– Isso talvez explique como minha gente parece se dividir em duas vertentes, uma tentando manter as coisas como estão e outra querendo mais liberdade.

– Esta é uma conclusão muito interessante. Então há uma boa possibilidade de encontrarmos outros de sua gente e da minha gente que lutam pelo mesmo ideal. Precisamos encontrar um meio de localizá-los, nos comunicarmos e iniciar a resistência. Por falar nisso… onde eu estou?

– Este é um lugar que apenas eu sei a localização. Um tipo de esconderijo. Aqui eu posso ler, escrever e fazer meus rituais.

– Deve ser um incômodo ter que se esconder para poder ter alguma liberdade. Que tipo de rituais você faz aqui?

– Eu sou um destes da minha gente que tenta resgatar a religião original deste mundo, então meus rituais devem ser uma tímida imitação dos cultos aos Deuses Antigos.

– Considerando as circunstâncias, não se preocupe se são imitações ou tímidas. Continue praticando. Em que local você faz os rituais?

Eu me levantei, fiz um sinal com a mão para ela me seguir e a levei para meu santuário. Ela olhou com bastante interesse os itens expostos. Eu lhe mostrei meu livro de rituais e ela o leu. Então ela olhou para mim com um sorriso que eu não irei esquecer.

– Você está indo bem. As religiões originais deste mundo eram assim. Não tinham um texto sagrado, não tinham templos, seus ancestrais simplesmente faziam os cultos com os materiais que tinham.

– Obrigado. O que você disse para mim significou muito.

– Agora nós temos que começar a montar a resistência. Eu espero que nós tenhamos uma oportunidade de realizarmos juntos um ritual.

Ela ficou um pouco ruborizada e essa promessa me deixou bem animado.

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