Quando o céu caiu – I

Era mais uma manhã qualquer, eu estava junto com outras pessoas no ônibus, na via livre, enquanto olhava apática a paisagem da cidade, cheia de carros, ônibus e pessoas, correndo sabe-se lá para onde.

Um estrondo ao longe assustou alguns usuários, eu olhei o clima e não vi qualquer nuvem ou sinal de chuva. De algum lugar de lá do céu eu vi um vulto cair mais adiante, seguiu-se a explosão, todos gritaram, o ônibus caiu da via livre nas ruas abaixo, muito ferro retorcido, vidros quebrados, gritos de dor.

Quando a fumaça e a poeira se dissiparam, eu chequei minha condição. Eu tinha alguns arranhões, mas não estava ferido. Eu olhei em redor, os que podiam se levantar saíam em disparada, os que não podiam, gemiam. Eu saí do ônibus e gritei aos passantes que chamassem por socorro, mas outros estrondos se somaram, nuvens de explosão subiam em vários pontos da cidade. Eu tentei chamar alguns que saíram do ônibus, mas nenhum quis ficar e eram muitos para eu fazer alguma coisa. Mulheres, crianças e idosos primeiro. Os mais feridos, ou em estado crítico. Eu voltei a olhar para dentro do ônibus e tirei de dentro quem não tivesse com traumas mais graves. Muitos alijados, em meio aos corpos mortos não durariam muito, se não viesse o socorro e, pelo cenário, isso iria demorar.

Não havia muito mais que eu podia fazer, eu fui olhar o que tinha caído do céu. Há alguns metros adiante, uma cratera fumegante e, no centro, tinha algo que parecia um tipo de aeronave, mas que estranhamente estava em melhores condições do que o ônibus. Havia bastante fogo e destroços, mas se aquilo era uma aeronave, deve ter um piloto. Considerando que o estado desse veículo é impressionantemente estável, a despeito da queda e do choque, eu fui checar o piloto para tentar resgatá-lo.

Eu me aproximei do que parecia ser a cabine de comando da aeronave, evitando os destroços e os focos de incêndio e achei muito curioso que a fuselagem não estava sequer quente. A aeronave estava com arranhões e partes fendidas, uma claraboia quebrada me permitiu ver o piloto. Aparentemente estava desacordado e estava com alguns ferimentos. Tateei em torno da cabine de comando e das proximidades da claraboia até achar alguma trava que pudesse abrir alguma entrada na aeronave, para tentar resgatar o piloto. Achei um tipo de botão de pressão e a cabine abriu-se com alguma dificuldade. Cheguei ao piloto e procurei pela trava do cinto em sua cadeira.

– Krat nav tetati ne po!

O piloto estava fraco, mas estava consciente e protestava contra minha ajuda, se debatia contra minhas tentativas de soltá-lo. Eu não conseguia reconhecer a linguagem que ele falava e pela aparência de sua aeronave, conclui que se tratava de um extraterrestre. Eu tive que improvisar, eu amarrei o piloto com um tipo de fita metálica que achei solta na cabine e o arrastei para fora da aeronave. O piloto se debatia, certamente me tomando com um de seus inimigos. Um som de turbinas ao longe me fez pensar que talvez pudesse ser o inimigo que o derrubou. Com dificuldade, eu o arrastei para um ponto escondido e fiquei olhando o céu.

Outro tipo de aeronave passou zunindo, pairando feito beija-flor, lançando flashes de energia em direção a algum alvo mais adiante. Uma aeronave semelhante se deteve próximo do ônibus destroçado e o vaporizou com um disparo de energia. Sejam lá de onde tenha vindo essas criaturas, elas não são pacíficas, vão destruir qualquer sinal de resistência ou sobreviventes. Eu tinha que dar um jeito de sair dali junto com o piloto para um lugar mais seguro. Não era uma situação comum e o perigo era iminente, eu não tive escolha senão levar o piloto para um local que apenas eu conhecia, chame de esconderijo, se quiser.

– Hakas metat reser nor leparen?

O piloto parecia confuso quando percebeu que eu estava levando ele na direção oposta de onde estavam as aeronaves. Ele parou de se debater quando deve ter percebido que eu o estava ajudando. O que não faltavam eram pedaços de cimento, aço e vidro para nos esconder. Eu arrastei o piloto através das ruas esburacadas, achei um carro abandonado e o usei para chegar rapidamente ao meu esconderijo. Eu arrisquei e soltei o piloto da fita metálica que eu havia usado para prendê-lo e comecei a fazer mimicas para tentar fazê-lo entender que eu queria ajuda-lo e que ele devia entrar no meu esconderijo. Ele balançou a cabeça para cima e para baixo. Pelo visto, alguns sinais são universais. Com alguma dificuldade, ele entrou no esconderijo.

Eu fechei a porta e fiquei ouvindo a movimentação do outro lado, na expectativa de que não havíamos sido seguidos e que estávamos em segurança. O piloto encontrou meu sofá e ali despencou, espirrando um pouco de seu sangue. Seu uniforme estava ficando empapado de sangue, o que indicava que seu ferimento havia ficado mais grave. Eu era o responsável por ele, então assim que me certifiquei que estávamos seguros, novamente, por mímicas, tentei explicar para ele que eu precisava tirar seu uniforme para fazer o curativo.

– Baka! Ona ne sepa joren!

O piloto balançava seus braços na linha do ombro, vigorosamente, aparentemente embaraçado ou com vergonha de algo. Eu arrisquei e fiz o sinal de que não havia muito a fazer e esse sinal, pelo visto, era universal também. Eu fiquei surpreso e um pouco envergonhado ao perceber que o piloto era fêmea. A cor da pele era roxa, ela tinha chifres, mas o resto do corpo tinha a mesma anatomia de uma mulher. Mas não tinha outro jeito. Eu ficava ruborizado quando ela gemia, ao ser tocada em áreas sensíveis, mas eu consegui fechar o ferimento.

Eu a deixei descansar, trouxe comida e um papel com um mapa do lugar, indicando o banheiro, caso ela quisesse tomar banho e o quarto de visitas, caso ela quisesse dormir. Ela balançou a cabeça. Pelo menos estamos nos comunicando. Eu terei que pensar em algo para facilitar nossa comunicação, para evitar situações constrangedoras como essa. Ela comeu rápido, bom sinal de saúde em recuperação. Ela fez uma mímica que indicava que ela iria tomar banho. Definitivamente, certos sinais são universais. Eu balancei a cabeça, ela saiu do sofá e eu fui ao meu quarto pegar roupas limpas para ela, deixando de frente à porta do banheiro e fui comer.

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