O fim do desejo

Shakti e Deva saíram da republica do oeste e começaram a percorrer a estrada que as conduziria dali ao santuário. Shakti conduzia a carruagem, mas seus pensamentos estavam a milhas de distância. Ela tentava imaginar os heróis, sábios, profetas e Deuses passando por estes mesmos caminhos. Desde que ela era pequena ela via Deva receber a todos e com todos realizar o devido ritual, sempre com o mesmo entusiasmo. Shakti conseguia entender a sua experiência nessa jornada, mas não sabia se seria capaz de entender as experiências dos homens e dos Deuses. Tantas lendas contam dos desafios, provações e perigos que estes personagens enfrentaram. Estas coisas deveriam torna-los firmes e confiáveis, mas aparentemente muitos acabam voltando aos mesmos hábitos e costumes. Shakti tentava entender e aceitar que isto também era manifestação do divino e também outra forma de empreender a mesma jornada que, no final, há de conduzir ao mesmo destino.

– Ainda está cismada com o Sapo?

– Não, Deva. Eu apenas estou curiosa como ele conseguiu aprender tanto, sem ter empreendido a jornada do herói, sem ter vindo ao santuário. Eu estou curiosa como ele, mais do que muitos, se mantém firme na doutrina, não a distorce nem a deturpa para seus interesses. Sobretudo eu estou curiosa para entender como o homem, ao invés de andar para frente, acaba voltando para trás, depois de obter o conhecimento. Afinal, o caminho deveria torna-los aptos a conduzir a humanidade ao seu propósito. O caminho tem falhas ou o homem não é forte o suficiente para ser mestre sequer de si mesmo?

– Ah. Eu sinto que você também duvida como eu havia duvidado. Cessou sua esperança no homem, Shakti? Quando você ainda não conhecia o Sapo, tinha um julgamento diferente sobre ele. Então eu não posso julgar um homem antes de conhecê-lo. O Sapo não conheceu a jornada do herói, mas isso não significa que o caminho que ele trilha não seja válido. Eu acho que você quer saber o que é o caminho, afinal. Todos os seres, a partir do momento em que nascem, começam esta jornada. Nisto consiste o caminho, todos os caminhos. A jornada que oferecemos é apenas um método dentre muitos. Então eu não posso impor ao homem que siga os mesmos passos, nem tome a mesma direção, pois nisto consiste o livre-arbítrio. Eu senti muita dor e decepção ao ver o reino do norte, mas o que acontece com os homens não é problema nosso. Cada um deve ser responsável e consciente pelos seus atos, escolhas e decisões. Nisto consiste a única regra do caminho.

– Eu estou tentando entender. Eu apenas fico pensando em quanto tempo irá demorar até o homem compreender no que consiste o mistério. Enquanto isto não acontecer, o homem continuará a vagar perdido, sem direção, sem orientação. Quantos caminhos o homem irá criar até achar uma trilha confiável? Quantos heróis, sábios, profetas e Deuses devem ser enviados ao homem até que ele reencontre sua verdadeira essência, natureza e propósito?

– Tantos quantos forem necessários, Shakti. Eu tenho a eternidade. Mesmo quando este corpo cessar sua existência, meu espírito continuará habitando em todo ser vivo. Meu Amado habita em todo ser vivo. Nós coroamos o Sapo não por que ele me reconheceu como a Deusa, isto é fácil e óbvio. Nós coroamos o Sapo por que ele me reconheceu em toda mulher, ele me reconheceu em você. Nós coroamos o Sapo por que ele se reconheceu como o Deus. Nós também devemos reconhecer em todo homem o Deus, nisto consiste o meu motivo para sempre estar disposta a consumar o ritual sagrado. Além do que, Shakti, de uma maneira ou outra, todos deverão passar pelos meus portais. Ainda que na morte, alcançarão o fim da jornada, o fim do desejo e ali eu estarei.

– Ainda que o caminho do homem o conduza a perder sua humanidade, ainda que o homem se tornar um acessório de máquinas, em sua condição mortal haverá de passar pelo seu portal. Outros Deuses e Deusas também deverão passar por este portal. Como você, enquanto Deusa, pode morrer e passar pelo portal que é seu mistério?

– Mesmo meu eu divino deve morrer, Shakti. Eu tenho meu Amado para me segurar. Ainda existem outras Deusas, nas quais eu estou presente, afinal, eu sou a mais antiga e a mais nova. Estas Deusas são a minha presença e não são, elas são tanto minhas mães como minhas filhas, são únicas e tem sua identidade e personalidade próprias. Então, ainda que meu eu divino morra, eu existirei nelas, renascerei, crescerei e, na sucessão do trono, haverei de retomar meu lugar.

– Antes de chegarmos ao santuário, Deva, eu gostaria de lhe pedir algo.

– Desde quando você precisa da minha autorização para me pedir algo?

– Mesmo assim eu sinto que há a necessidade de verbalizar. Eu realmente gostaria de ver mais vezes o Sapo.

– Haha! Você gostou e ficou impressionada com tamanha devoção. Quanto a isso, não se preocupe, haveremos de rever o Sapo muitas vezes.

– Outra coisa é que eu gostaria de não sofrer muito quando tiver que enfrentar sua face negra.

– Meu amor, quantas vezes você enfrentou minha face benévola e não sofreu? O êxtase carnal é uma pequena morte. Apenas sofrem aqueles que temem o inevitável e se apegam à sua existência material. Quando eu te abraçar, Shakti, tudo que irá sentir é a mais absoluta paz, plenitude e abundância. Agora quem te pede algo sou eu. Nunca, jamais, deixe de me amar.

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