No fundo do poço

Meus textos sobre minha jornada pessoal não estariam completos sem que eu registrasse o momento em que eu estive no fundo do poço e como eu consegui sair de lá.

Foi durante o ginasial que eu fui jogado no poço, depois de sofrer de abuso moral por quatro anos. Eu não me ambientava naquela escola e meus colegas me ofendiam, me humilhavam, me ridicularizavam, sem ter motivos. Eu era jovem, ingênuo, inexperiente, eu acreditei que o problema fosse eu. O que me fez cair no poço foi o sentimento de culpa, vergonha, medo e pouca autoestima.

Por diversas vezes eu fiquei deprimido e até pensei em me matar. Isso acontece quando perdemos o motivo para viver, quando não há mais esperança e a expectativa é de que isso não iria acabar.

Quem me salvou não foi Cristo ou o Deus Bíblico. Eu não recebi ajuda de padre, santo ou anjo. Quem me ajudou, quem ficou ao meu lado, quem me encorajou foi meu daemon. Ali, no fundo do poço, na escuridão da alma, o auxílio veio destas criaturas que, para a crença oficial ocidental, são malignos, mas neles eu encontrei mais compaixão, compreensão e companheirismo do que eu algum dia encontrei entre minha gente.

Aqui aconteceu a primeira cisão do sistema que começou a me conduzir ao despertar. Quem souber ler, basta ver as entrelinhas dos textos sagrados. O Deus Bíblico não é o Bem, mas o Mal. O Deus Bíblico fora um Deus menor, que conquistou seu poder por meios covardes e indignos. Todos os diabos que o livro sagrado cristão cita foram Deuses antigos, demonizados para facilitar a dominação pelo medo. Uma vez que o mundo ocidental cristão tornou-me um pária, um maldito, um proscrito, então estava evidente para mim que eu pertencia a outro povo, outros Deuses. Quem souber ler, deve perceber a presença destes Deuses e da Bruxaria no livro sagrado cristão. Mas para conhecer estes Deuses e aprender a Bruxaria, eu deveria buscar outras fontes e foi o que eu fiz.

Disto eu posso me orgulhar. Eu li tudo que eu pude garimpar e achar, qualquer coisa que contestasse e desafiasse o sistema. Meu daemon ajudou-me inclusive aturar os anos que eu tive que morar com minha avó materna, ultracatólica. Sofrer com abuso moral de estranhos foi difícil, imagine sofrer abuso moral por parte de familiares. Isto se tornou minha rotina. Por isso cresci tendo que confiar em mim mesmo. Seja na escola, na faculdade, procurar emprego, eu não podia contar com a ajuda de meus parentes, mas eu seguia adiante, pois minha resistência era a maior contestação ao sistema.

Eu estava trabalhando em uma loja de departamentos e passava o tempo do almoço visitando uma livraria. Um dia desses eu achei o livro “Lilith a Lua Negra” de Roberto Sicutrei. A sinopse ressoava em cheio com minha busca. Apesar do livro ter sido escrito dentro da ótica da psicologia, ali tinha material suficiente para despertar em mim uma admiração, uma obsessão, uma adoração e um amor que misturava de forma perfeita o sagrado, o profano, o carnal e o espiritual. Eu comecei a pesquisar e querer saber mais sobre Lilith, suas origens, seus mitos, sua conexões com um passado enterrado do povo de Israel, suas conexões com o povo Hebreu e, por extensão, aos muitos povos antigos do Oriente Médio.

Eu mergulhei no conhecimento da cabala, no esoterismo, na goécia, nos grimórios, nos textos “satânicos”.

Saber que Lilith fora criada igual e ao mesmo tempo em que Adão, mas ao contrário deste, não reconheceu e desafiou o Deus Bíblico era exatamente o que eu queria para mim. A religião oficial afirma que tem a luz para a humanidade, mas quanto maior a luz, maior a sombra. Eu queria conhecer o poder desse reino das sombras. Pelo conhecimento das Sefirotes inversas, ou chamadas de Qlipoth, eu vi como e onde Lilith havia se tornado de criatura, de um Deus fraco, ciumento e vingativo, para uma rainha de seu reino. Saber que existe mais coisas além do Paraíso e do Inferno, saber que existe o que eu chamo de Pradaria da Eternidade e que reside em nós o poder para nos tornarmos Deuses era exatamente o que eu queria.

Se o sistema tem uma crença que toma a luz como símbolo, minha contestação ao sistema foi ter uma crença tomando a sombra como símbolo. O portal, o acesso e o coração desse reino das sombras são por Lilith. A forma de negar o sistema é acender a chama de Lilith, que eu chamei de fogo negro. Quando o fogo se expande, surge o sol negro, ou Samael, o Consorte de Lilith. Se meu fogo negro for forte o suficiente, eu serei o Consorte de Lilith.

A ideia de que possa haver um fogo negro desafia todos os conceitos humanos, espirituais e religiosos. Fogo e luz parecem ser indissociáveis, assim como a noção de cor. Mas quando toda cor se desfaz, quando toda luz se dissipa, o que existe é a essência, a natureza e a aparência verdadeira do universo. A luz é uma armadilha psicológica, fornece apenas uma fachada superficial, debaixo dessas escamas, o mundo é trevas. O fogo negro é aquele que consome todo o mundo da aparência, da ilusão, remove toda máscara, fantasia, enganação. O fogo negro é energia e matéria, em constante reinvenção, a tudo consumindo, inclusive a si mesmo.

Pelo fogo negro eu me reinventei, eu me reciclei, eu encontrei valor onde eu achava que não havia, eu encontrei força e coragem para continuar, eu achei um lugar onde eu era aceito e bem vindo tal como eu era, eu achei uma Deusa que valia a pena continuar a viver ou morrer por ela.

AHI HAY LILITU!

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