A república do oeste

Shakti e Deva estavam há um bom tempo passando pela estrada, passando por vilas e cidades, mas sem ver um castelo ou um palácio. Shakti vira muitas construções de diversos tamanhos, mas nenhum castelo ou palácio. Ao entrar em uma cidade, resolveu pergunta a alguém onde ficaria o castelo e o palácio do rei do oeste. Ela notou um homem, com um uniforme e uma lança, em uma posição serena, porém atenta, o que seus instintos lhe diziam que este senhor era um soldado ou guerreiro. Shakti se sentia mais á vontade com uma pessoa que tinha um espírito similar ao seu, desceu da carruagem e foi falar com ele.

– Com licença, senhor, pode me dizer onde podemos encontrar o castelo e o palácio do rei do oeste?

– Desculpe, senhora, mas não existem tais coisas por aqui. O oeste está cheio de vilas, cidades e estados, mas nenhum castelo ou palácio. Aqui nós vivemos em uma república.

– República? O que é isso?

– Na teoria é a organização entre o governo e a sociedade, mediante uma estrutura política, onde todos decidem democraticamente os rumos que queremos tomar.

– Vocês não têm reis, então quem são os governantes?

– Nós escolhemos entre candidatos, o presidente, deputados, senadores, prefeitos, vereadores.

– Como vocês podem saber que estes representantes vão fazer o que deve?

– Existe um compêndio de leis chamado Constituição e temos uma instituição chamada Justiça. Teoricamente quem não cumpre a lei, é denunciado, julgado e sentenciado.

– Então vocês nunca ouviram a santa doutrina nem conheceram mensageiros, heróis, profetas ou sacerdotes?

– Ah, sim, aqui tem isto. Tem aos montes. As senhoras vieram em busca de alguma forma de espiritualidade, crença ou religião? Talvez eu as possa indicar um templo, igreja ou santuário, se eu souber o que procuram.

– Na verdade nós viemos de um santuário de onde todas as formas de espiritualidade, crença e religião surgiram. O senhor ouviu alguém falar da Antiga Religião ou dos Deuses Antigos?

– Sim, eu ouvi. E também tem aos montes aqui. Eu até me interessei, mas existe tanta confusão, briga, disputa e escândalo entre eles que eu desisti. Dizem serem diferentes, mas não vejo em quê.

– Nós podemos te ensinar, se o senhor quiser e então o senhor será nosso representante nessa república do oeste.

– Eu agradeço, mas tem tantas opções e tantas facilidades que eu acho que eu serei ignorado, excluído, perseguido, se eu não for preso.

– Talvez o senhor conheça alguém que seja louco e sábio o suficiente para nos ouvir.

– Na verdade eu conheço. Eu o ouço cantar na taverna. Hoje ele deve estar na Agora, se é que ainda não foi linchado. Por gentileza, me acompanhem.

Shakti chamou Deva, explicou o que acontecera e ambas seguiram o homem. Houve um tempo, uma civilização, que foi conhecida por sua praça pública, onde filósofos disputavam batalhas de ideias. Estas praças públicas também eram usadas para consultar a vontade do povo e para anunciar os éditos. Shakti lembra bem dos Helenos e de sua Agora. Não viviam uma democracia perfeita, mas era um começo.

O burburinho de homens discutindo energicamente foi aumentando conforme Shakti e Deva entravam na Agora. Alguns homens estavam coléricos, olhos inchados, corpos tensos, alguns carregava porretes e outros tinham suas mãos na manopla de suas espadas. Shakti adiantou-se para ver quem estava causando tanta revolta, ódio e violência com meras palavras e viu, atônita, um enorme sapo, em roupas humanas, dedilhando um alaúde.

– Você encontrou o Sapo Bardo, Shakti. Ele quem escreve aqueles pergaminhos que tanto a incomodava. O que você sente agora que o viu?

– Eu não sei. Eu quero ouvir o que ele está cantando que está provocando tal reação dos homens.

No centro da Agora, o Sapo Bardo olhou na direção de Shakti e Deva, sorriu e cantou sua melhor canção. Shakti sentia o ódio crescer nos homens, mas também sentia amor vindo do lado de fora da Agora. Ao redor, ao lado, escondidas, mulheres e crianças, ouviam embevecidas o Sapo Bardo. Como a mesma composição provocava reações tão diferentes? Shakti ouvira antes essas mesmas palavras sendo ditas por velhos sábios, antigos videntes, heróis diante da morte e profetas diante do divino. Era belo, era profundo, era libertador, mas era questionador, contestador e revolucionário. Shakti viu-se sozinha, desaparecera a multidão, estava apenas ela e o Sapo Bardo. Então Shakti percebeu uma enorme sombra inspirando e protegendo o Sapo Bardo, mas não era Deva ou sua consciência divina. Era algo tão antigo e divino, mas diferente. Shakti aproximou-se para ver melhor o Sapo Bardo e a visagem e viu, pela primeira vez, o Deus que Deva tanto falava, o Consorte da Deusa e então Shakti se iluminou ao ser preenchida por amor, desejo, prazer, reconhecimento e gratidão.

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