O reino do oeste

Shakti conduzia a carruagem pela estrada que ligava o reino do norte ao reino do oeste. Ao seu lado, Deva dormia, algo que era novidade para Shakti. Shakti sabia que Deva tinha uma existência divina, mas sua manifestação mortal tinha as mesmas necessidades humanas que ela. Deva também sonharia? Sua existência divina dormiria? O que aconteceria ao mundo se a Deusa dormisse? Shakti espantou suas divagações com informações mais prementes, sobretudo os relatórios sobre o reino do oeste.

O reino do oeste surgiu em uma região nova, ainda a ser explorada, onde muitos povos viajavam, para estabelecerem colônias, para fugirem das guerras, para fugirem das perseguições, para fugirem dos regimes opressivos. Conflitos e confrontos aconteciam aos milhares, entre os novos habitantes e entre estes e os aborígenes. Cidades surgiam e desapareciam com velocidade inacreditável. Shakti não recorda de qualquer relatório falando de algum herói, profeta, rei ou Deus que tenha ido ao reino do oeste para levar a santa doutrina aos homens. Um bocejo e um movimento anunciaram que Deva despertara.

– Oooaho. Bom dia Shakti. Alguma novidade?

– Bom dia Deva. Por enquanto estamos na estrada. Algumas vilas, casas, camponeses, viajantes. Campos cultivados, gado, fauna e flora. Sem novidades.

– Ah, que chato. Eu espero encontrarmos alguma taverna ou um pouco de diversão. Enquanto isso, poderia me divertir com seus pensamentos? Eles sempre me fazem rir.

– Eu estava pensando se sua existência divina também teria sono e dormisse. Mas não gostei de pensar nas consequências.

– Mesmo? E se isso que nós estamos vivendo e vendo como o mundo, a vida e nossa presença não são sonhos de minha existência divina? E se o fim de tudo acontecer quando eu despertar?

– O fim… de tudo…

– Sim, minhas senhoras, o Fim está próximo! Deus retornará para julgar e condenar os pecadores! Arrependam-se e recebam a salvação do Messias!

Shakti olhou um tanto surpresa para o lado e deparou-se com uma carruagem emparelhada com a delas e dentro estava aquele senhor que elas haviam visto no reino do leste. Shakti não tinha certeza se ele as havia reconhecido ou se estava delirando como parecia ser usual desse pobre homem.

– Hã… boa tarde, cavalheiro. Nós estamos indo ao reino do oeste. O senhor conhece alguma estalagem onde possamos comer e descansar?

– Ah sim, o reino do oeste! O Novo Mundo! Que nosso Senhor nos prometeu quando viesse o Tempo! Nós temos espalhado o Santo Evangelho e nós temos ganhado muitas daquelas pobres almas para o Senhor! Abençoadas sejam, pois eu lhes trago a palavra viva e eficaz. Aceite ao Senhor e não morrerás! Por que o pecado conduz à morte e somente aceitando à redenção do Messias é que estarão livres da morte espiritual!

– Insanidade. Eu não conheço este que se diz o Senhor ou o Messias. Eu não gerei o homem para que viva se culpando por sua natureza, pois tudo é sagrado e divino. Apenas o homem pode corrigir seus impulsos, apenas o homem pode controlar suas ações. Eu não gerei, seja o homem ou Deus, para passar sua existência no medo, na escravidão ou no ódio. Volte para onde pertence, monge do culto do medo. Eu hei de varrer sua Igreja de meus domínios.

O homem ficou colérico, bufou, fungou, retesou os músculos, como os ignorantes costumam reagir quando contrariados. No entanto não teve tempo de dizer ou fazer coisa alguma. Ele e sua carruagem sumiram dentro de uma cratera que surgiu na estrada, uma cratera funda o bastante para chegar ao magma quente que existe no subsolo do mundo. Desta vez, Shakti não sentiu medo em ver mais uma vez a face escura de Deva, mas sim mais amor do que achava ser capaz de sentir.

– Oh. Você me encanta e me enche de orgulho, Shakti. Pela segunda vez viu minha fúria, mas não sentiu medo. Então me diga, Shakti, o que sente diante do fato de que tudo que existe deve morrer, incluindo eu? O que sentirá quando tiver que encarar minha face negra?

A cena foi interrompida por risos estridentes. Shakti olha para uma enorme fila de crianças em direção a uma escola sendo guiadas e cuidadas por mulheres, provavelmente suas professoras, mães, tias ou avós. Shakti sempre gostou de crianças, ela costumava a passar seu tempo livre no santuário ao redor de crianças.

– Quando olha para estas crianças, você as quer bem, Shakti?

– Sim, eu quero bem a todas elas.

– Você não as conhece e mesmo assim as quer bem?

– Sim, mesmo não as conhecendo. A criança é capaz de viver no mundo sem preocupações, sem expectativas, sem julgamentos. A criança é capaz de dar e receber, carinho e amor, sem restrições. A criança está aberta e disposta a aprender. Infelizmente aprende coisas ruins, ensinadas por adultos magoados e frustrados. Um dia este adulto foi criança, sofreu como todos sofrem, mas tomam fatos da vida como se fossem algo pessoal e se tornam amargurados. A vida é como tem que ser. Se a vemos e julgamos segundo nossas conveniências, o problema é nosso, não da vida ou do divino. O homem cria os problemas e os recria ao ensinar a seus filhos. O homem cria os problemas e os potencializa ao torná-los mecanismos de uma sociedade. O homem cria os problemas, mas ao invés de alterar o sistema e as causas dos problemas, prefere se fazer de vitima ou praticar caridade.

– Shakti, o sentimento que tem por estas crianças é o mesmo sentimento que os Deuses têm com a humanidade. O santuário foi fundado para mostrar ao homem que toda ação tem consequência, que devemos ser conscientes e responsáveis por nossos atos, que o homem tem todo o potencial necessário para evoluir. Nisso consiste toda nossa santa doutrina e o caminho iniciático. Mas o homem tem que querer e se esforçar para que sua vida, sua existência, tenha um significado mais profundo. No entanto, se o homem se perder, não é nossa culpa, não é nossa responsabilidade, não é nosso problema.

– Então nós devemos continuar a acreditar no homem e na sua capacidade inata. Ainda que continue seus erros, o homem é uma criança que precisa de cuidados e orientação. Se não ficarmos ao lado do homem, quando este cair ou se machucar, ele não terá por que se reerguer. Se não insistirmos em ensinar o homem, quando este errar ou falhar, ele não terá por que se corrigir.

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