O palácio de cristal

O cavalheiro conduziu Shakti e Deva até o palácio do rei do norte em completo silêncio. Deva o observava com compaixão e Shakti viu-se naquele homem. Olhar e perceber nossos próprios comportamentos que não nos auxilia na perspectiva do outro é desconcertante. Shakti sabia o que se passava na mente do cavalheiro e entendeu o que Deva sentia. Aquele que sabe tem o dever de falar o que sabe. Não é nada pessoal, não é uma critica dirigida ao ouvinte, apenas se aponta para a realidade e de como nós a distorcemos, por nossas conveniências, por nossas preferências, por nossas opções, por nossas vaidades. Somos tão orgulhosos de nossas convicções e certezas que quando o sábio remove os véus das aparências, sentimos nossas concepções atacadas e, por extensão, nos sentimos atacados. Ao invés de recebermos e agradecermos por ouvir um pouco de sabedoria, por ter nossa visão esclarecida, nós nos encolhemos ainda mais em nosso pequeno mundinho.

– Aqui estamos senhoras. Eu espero algum dia poder vê-las novamente. Quem sabe eu até vá ao santuário de vocês.

– Nos reencontraremos, senhor. Neste mundo ou no, outro. Mesmo que não creia.

O cavalheiro fez uma mesura, entrou no veículo e foi embora. O palácio era belíssimo, parecia ser feito de cristal, mas o cenário destoava de tanta beleza. Ao redor, diversas máquinas, chaminés, engrenagens. Shakti sentiu um forte cheiro de óleo, fuligem e fluídos inflamáveis. A cacofonia de metais em choque, gatilhos e travas, motores explodindo, tornava difícil pensar ou raciocinar com clareza. Uma curiosa contradição para a reputação deste reino como sendo o mais racional e científico. Shakti e Deva não tiveram dificuldades em abrir o portal e entrar. Assim que o portal fechou-se, certamente um mecanismo de fechamento automático, o silencio imperou. Não havia qualquer sinal de servos ou guardas.

Seguindo sua intuição, Shakti consegue encontrar a sala particular do rei do norte. Na cadeira atrás de uma enorme mesa, tudo que encontraram foi um esqueleto. Quem quer que tenha sido o rei do norte, morrera há muito tempo. Sua morte não foi notada, nem lamentada. O trono e a coroa foram esquecidos também. Quem ou o quê mandava naquele reino era incerto. Os habitantes do reino viviam mais como acessórios das máquinas do que como seres humanos.

– Vamos embora Shakti. Não há nada a fazer aqui.

– Mas Deva e o povo daqui? O que será de suas almas? Será que estas vidas não merecem ouvir a santa doutrina?

– Todos temos escolhas, Shakti e temos que conviver com a responsabilidade de nossos atos e palavras. Eu lhes dei o conhecimento para tornar suas vidas mais confortáveis. Mesmo o conhecimento técnico e científico são meus dons, mas este povo orgulhou-se demais de suas capacidades e permitiram se encantar com suas preciosas máquinas. Eles acreditaram completamente que mecanismos que emulam, imitam e copiam as forças e leis da natureza provava que a razão e a ciência explicam tudo. Eles descartaram tudo aquilo que não se encaixava nesse mundo mecanicista, asséptico e estéril. Eles mataram sua humanidade, não há como alcançar estas almas, uma vez que estas escolheram pelo esquecimento de suas existências.

– Nós não podemos enviar uma sacerdotisa ou um profeta para tentar despertá-los?

– Depois de ter visto o Iluminado e de ter visto o destino do reino do norte, eu tenho minhas dúvidas se valeu a pena termos criado o santuário, ter enviado tantos pelo mundo com a santa doutrina. Como eu posso verter amor em uma terra sem coração, Shakti?

Shakti olhou para a terra devastada e tentou imaginar como aquele povo pode chegar até tal ponto. Como viviam, como apreciavam a vida, como amavam, se tudo é mecânico, automatizado, racional? Como entender tal cenário, considerando que tudo é manifestação divina? Seria esta a revanche do Caos? Seria esta a vontade da humanidade?

– Deva, nos falta ainda ir ao reino do oeste. Talvez eu consiga encontrar uma resposta.

– Oh. Minha assistente tem mais esperança na humanidade do que eu? Será que você vai me ensinar algo, Shakti? Existe tanto amor assim dentro de você?

– Normalmente eu ficaria envergonhada com isso, mas eu me recuso a sentir vergonha. Eu não quero encontrar uma resposta para você, Deva, eu quero encontrar algo que disperse minhas dúvidas. Eu a conheço muito bem, Deva, isto que vemos é uma manifestação de sua vontade, então eu quero entender e aceitar por que eu te amo, Deva, eu te amo em toda sua complexidade e imensidão.

O rosto de Deva brilhou como o sol enquanto ela sorria. Sua Shakti havia despertado.

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