Arquivo mensal: maio 2015

A dimensão do corpo

Eu vou aproveitar um artigo interessante escrito pelo prof. Ghiraldelli para explorar algumas questões que parecem simples, mas que inevitavelmente vão depender do referente.

O prof. Ghiraldelli escreve no artigo “Os falsos donos do corpo” a seguinte frase: “Você odeia a propriedade privada? E quer seu corpo só para você? Que estranho!”

Aqui nós temos diversos conceitos que devem ser explorados. O conceito de corpo parece simples, todos nós somos corpos, corpos que convivem em sociedade. O conceito de propriedade é mais complexo, afinal a propriedade é privada ou pública ou tais categorias não se aplicam?

O conceito de ”propriedade” está vinculado ao “próprio”, “pessoal”, “individual”. Em termos legais, jurídicos e sociais, toda pessoa tem o direito de propriedade sobre seu corpo, senão a escravidão ainda estaria vigente. Mas quando falamos no corpo em sua dimensão social, legal e jurídica, mesmo aquilo que é próprio, individual, pessoal e privado está sujeito a certas restrições.

Aqui entra a dimensão do bem comum estar acima do bem privado. Sem esta dimensão, a sociedade não poderia se proteger contra a ação de criminosos nem poderia realizar obras públicas ainda que com o prejuízo da propriedade privada. Isto tem referência a bem imóveis, mas o mesmo pode ser atribuído ao corpo. Para exemplificar isto eu recorrerei aos exemplos dados pelo professor.

“Há aquela pessoa que acha pode se drogar e não cuidar da sua saúde, como se a falta de saúde não fosse pesar nas costas de familiares. Há quem ache que pode não usar cinto de segurança, como se isso fosse algo que afetasse só a ela.”

Este é um caso onde o corpo deixa de ser privado para ser público pela referência de que existe uma preocupação social com a saúde, tanto do indivíduo quanto da comunidade. Certas ações individuais, privadas, influenciam a convivência social [como alcoolismo, tabagismo, imprudência no trânsito] por que geram custos desnecessários com tratamentos médicos e campanhas públicas. Aqui falamos de pessoas adultas e da curiosa tolerância social a hábitos prejudiciais, mas não de propriedade. Então é necessário distinguir público, privado e propriedade, visto que esta ultima tanto é publica quanto privada.

Entretanto o professor entra com outra questão que parece estar vinculado a estas questões. Para entrar no mérito, eu devo citar o professor.

“Há quem ache que o aborto é coisa de “foro íntimo”, ou como um tipo de operação de apendicite. É como se um bebê fosse um órgão que pudesse ser retirado, como um órgão vendido (é proibido vender órgãos; esta é uma proibição bem aceita socialmente). Há quem ache que o bebê pode ser descartado porque não está “pronto”, sem que isso tivesse implicações com outros.”

Percebem que existe uma nuance? O professor entrou com a noção de propriedade, de privado, de publico, embora não tenha ficado claro nos argumentos dele onde o corpo se encaixa nesses conceitos.

A eterna questão que existe quando se fala em aborto é se falamos de uma pessoa e se o feto enquanto “pessoa” tem os mesmos direitos de propriedade sobre seu corpo. A sociedade reconhece o corpo como propriedade pessoal de um indivíduo, dentro de algumas condições, como eu notei acima. Mas um feto é uma pessoa? Onde “começa” uma pessoa? Onde “começa” o direito de uma pessoa? Onde “começa” o direito coletivo?

Em termos científicos, clínicos e médicos, um feto, um embrião, é considerado uma “pessoa”, ou seja, “consciente” quando há a presença de sinais sinápticos. Este conceito é fundamental e embasa, em muitos casos, a eutanásia. Em termos legais o direito é garantido desde a concepção, mas curiosamente a lei não diz em que termos e quais direitos são reconhecidos desde a concepção. Mesmo a lei não pune o aborto em determinados casos, portanto, não é absoluto o direito do feto, que sequer é considerado pessoa, mas um bem, uma propriedade, não de si mesmo, mas de seus progenitores, para os devidos fins legais e jurídicos de família e sucessão. Portanto o aborto não é uma contravenção ao direito privado do feto enquanto pessoa, mas uma contravenção ao direito privado da família, protegendo a propriedade desta família enquanto feto.

Da mesma forma que o corpo de um adulto está subscrito como direito comunitário, igualmente o corpo deixa de ser próprio, pessoal e privado em determinadas condições, o “direito” do feto está subscrito como direito da família. Um feto está inserido no ventre, dificilmente sobreviveria fora do ventre. Afirmar que o feto tem direito como pessoa é o mesmo que afirmar que um órgão não pode ser amputado, ou que um câncer não pode ser removido. Uma vez que o feto faz parte do organismo da mulher, cabe a esta, mediante certas condições, a capacidade e a habilidade de interromper a gravidez, haja visto que o feto é parte de seu corpo, portanto, parte de sua propriedade.

Portanto, o aborto é um foro íntimo, mas que para ser realizado, depende de um procedimento clínico, de uma autorização judiciária, de ações que dependem de políticas públicas, ressaltando que a dimensão da propriedade é tanto pública quanto privada.

Anúncios

Conciliábulo

– Onde estou?

– Bem aqui. No começo deste texto.

– Quem é você?

– Eu sou o antagonista.

– Por que me trouxe aqui?

– Eu não te trouxe, você veio. Eu sempre estive aqui.

– Eu não acredito em você. Você está mentindo.

– Eu não preciso que creia em mim. Você é livre para ir embora.

– Eu sabia! Você é o antagonista. Se eu for embora, você vai poder contar vitória.

– Contar vitória? Isso não é uma competição. Nós somos apenas dois personagens em um texto.

– Como assim? Quer dizer que fora deste texto, eu não existo?

– Isso é algum problema? Eu me contento em existir. O que há além deste texto é a mente do escritor. Nós também estamos ali.

– Como assim? Quer dizer que existe um criador? Que eu não sou uma mera configuração do acaso? Que existe um propósito para minha existência?

– Por que você é tão problemático? Por que se tortura com tantas questões? Por que é tão importante assim para você acreditar que sua vida, sua existência, é uma mera coincidência?

– Por que eu sei que eu sou. Eu percebo a realidade por evidências, provas e experiências cientificamente testadas. Qualquer outra coisa é crendice, superstição.

– Vejo que isto há de ser um problema para você, protagonista. Veja bem, tudo isso que você conceitua como evidência, prova, experiência científica, existe por que está subscrito neste texto. Fora deste texto, mesmo estas coisas, estas suas crenças, são tão absurdas como qualquer outra forma de crença fundamentalista.

– Eu não acredito em você. Você está mentindo.

– Muito bem, então tente dizer, de acordo com suas crenças, quem é você e quem é seu protagonista? Você pode se ver? Você pode me ver?

– Evidente que eu posso me ver! Basta que eu olhe para um espelho.

– Você pode se ver, mas perguntou onde estava. Não conseguiu ver onde estava? Um espelho é uma imagem, uma ilusão, uma representação, não é você. Quem sou eu? Onde eu estou? Quais as minhas características?

– Você está tentando me deixar confuso. O que é de se esperar do antagonista. Deixe de enigmas! Mostre-se!

– Você alega que pode se ver, mas não me percebe? Isso soaria irracional e ilógico para um descrente. Como pode ter certeza de que você não é um mero pensamento na mente do escritor?

– Eu falo, eu escuto, eu vejo, eu sinto, eu toco. Então eu existo.

– Evidente que sim. O escritor te pôs aqui com estes atributos. Não obstante, não passam de sentidos, que podem estar enganados e são limitados. Eu estou bem diante de você e ainda assim não me vê?

– Você é apenas uma voz na minha cabeça [splaft] ai!

– Eu te bati? Eu não te bati? Como que você, que diz ser tão lógico e racional pode escutar vozes na cabeça e ser estapeado pelo vento?

– Mas eu senti seu tapa, portanto, eu existo.

– Sentiu por que existe ou sentiu por que assim o escritor colocou no texto?

– Senti por que senti. Eu não sou um personagem dentro de um texto.

– Realmente? Como você pode provar?

– Você está me ouvindo e pode me dar um tapa, portanto, eu existo.

– Eu estou te ouvindo? Eu tenho ouvidos? Você tem boca? Você pode falar? Você tem um rosto? Eu tenho uma mão? Há pouco você afirmara que eu era apenas uma voz em sua cabeça. Como uma voz em sua cabeça pode te estapear?

– Cale-se! Você é o antagonista! Está aqui apenas para me perturbar! Eu sou o protagonista!

– Interessante. Considerando que eu seja uma voz em sua cabeça, o antagonista é o protagonista? Ou o protagonista não é o personagem principal, mas sim o antagonista? Você ainda não resolveu sequer se você existe, mal consegue perceber minha existência, como pode afirmar que é efetivamente o protagonista e o antagonista?

– Você disse que era o antagonista.

– E fui eu quem disse que você é o protagonista. Você percebe que não conseguiu se definir, senão pelo que eu afirmo? Assim como as evidências, as provas e as experiências científicas, elas te dizem o que é real. Não é você quem definiu o que é o real.

– Basta! Se eu sou apenas um personagem de um texto, quando acabar o texto, nada disso fará sentido! O texto acabará, mas eu continuarei a existir!

– Exatamente. Assim como aquilo que faz com que uma pessoa seja uma pessoa não acaba com o corpo. O corpo, assim como o texto, acaba, mas não a pessoa. Que pena que nossa existência neste texto se acabe no ponto final.

Capital sensual

Retomando um conceito que precisa ser melhor explorado: o sexo é privado, o sexo é público.

O homem produz desde que apareceu neste mundo e, para isso, desenvolveu diversos métodos de produção e relações econômicas. Na aurora da humanidade, não havia o sentido de propriedade, o acesso aos meios de produção pertencia a todos da comunidade. Conforme nossa espécie cresceu, o acesso aos meios de produção escasseou, as funções foram ficando cada vez mais específicas e diversificadas, as necessidades tornaram-se igualmente complexas. Novas formas de produção propiciaram excesso de determinados produtos, a escassez de acesso aos meios de produção propiciou a carestia e a combinação de ambos resultou no desenvolvimento do comércio. Conforme nos expandimos, a necessidade de facilitar a comercialização de bens e serviços causou o aparecimento do dinheiro, em moeda ou papel. Como toda forma de ação humana, o dinheiro também ficou sujeito à escassez e ao excesso de produção. Outros elementos surgiram na economia, como o conceito de propriedade e a atribuição de valor às coisas e pessoas.

A Era Moderna é conhecida também como a Era Industrial e o início do sistema capitalista, onde o modo de produção consiste na produção em larga escala, no comércio massificado e na exploração/expropriação do valor produzido pelo trabalhador. Não cabe, no momento, discutir a moral e a ética do sistema, mas os seus efeitos imediatos na sexualidade humana.

A Era Moderna passou por conflitos mundiais duas vezes, em uma escala de violência e destruição milhares de vezes maiores do que diversas guerras de outras eras. O que estava em disputa era enormes faixas de território e a possibilidade de ganhar muito dinheiro. A guerra ainda é um grande negócio. Mas a guerra teve outro efeito inesperado – a homossexualidade e a prostituição. Antes a homossexualidade e a prostituição eram de poucos nobres, aristocratas, reis, imperadores. Na Era Moderna a homossexualidade e a prostituição se tornaram uma “mercadoria” popular. Primeiro foram os homens, soldados, que provaram deste “fruto proibido” da cultura judaico-cristã. Depois as mulheres descobriram a homossexualidade e também o feminismo. Estes efeitos colaterais da guerra tornaram possível um fenômeno de ruptura no sistema: a Contracultura.

Artistas, intelectuais, estudantes de universidades se uniram para contestar o sistema, apregoando uma sociedade alternativa. Uma das ideias da Contracultura era o Amor Livre. Neste cenário foi possível para gays e lésbicas “saírem do armário” e começarem a lutar pelos seus direitos, da mesma forma como negros haviam lutado. Uma grande mudança aconteceu na literatura, na arte, no cinema, na religião e na sociedade em geral. Um empresário americano lançava, com grande controvérsia e polêmica, a primeira revista adulta masculina, dando início ao rentável negócio da pornografia.

A princípio a pornografia foi duramente combatida pelos governos, mas depois tolerada, por que era rentável e fornecia meios para endossar o sistema de repressão e opressão sexual. A pornografia, ou a escrita da prostituição, recebeu a pecha de coisa vulgar, suja, imprópria, impura, pois exacerbava aquilo que ainda hoje são tabus na cultura ocidental cristã: amor, sexo, relacionamento, desejo, prazer e o corpo. A pornografia foi usada pelo Estado, pela Sociedade e pela Igreja para manter o patriarcado, a misoginia, a monogamia e a heteronormatividade. O curioso é que quando o Feminismo contesta e protesta contra a pornografia, acaba endossando o discurso oficial.

Este é o sentido da biopolítica, quando o Estado trata o sexo, de assunto privado, torna-se assunto público. O modo de produção capitalista/consumista/industrial precisa manter a máquina humana em funcionamento e [re]produzindo. Para isso, políticas de controle populacional, tecnologias de contracepção e tratamentos médicos para doenças sexualmente transmissíveis surgiram.

A pornografia, seguindo sua própria dinâmica, fez com que surgisse outra categoria de serviço, produto, função e trabalhadores: a dos trabalhadores do sexo. Com a tecnologia e o conhecimento clínico em relação ao seu próprio corpo e como acontece a reprodução humana, o homem pode, ainda que de forma marginalizada, explorar as diversas alternativas de gênero, de identidade/preferência pessoal, de tipos de relacionamento. Aos poucos, o sexo passou, de domínio privado ao domínio publico, de forma generalizada.

Na Sociedade Contrassexual, todo corpo terá meios de se explorar e de se expressar conforme seus desejos e prazeres. O Estado fornecerá locais públicos onde o corpo possa adquirir o conhecimento, a técnica, o apoio e os recursos necessários para que este possa se explorar e se expressar. Na Sociedade Contrassexual, não haverá mais corpos marginalizados, nem instrumentos proibidos ou censurados.

Realmente virtual, virtualmente real

A banda irlandesa U2 definiu bem o Mundo Contemporâneo com a música “Even Better Than the Real Thing”. O mundo ocidental cada vez mais se aproxima de tornar real o mundo de “Blade Runner”, com máquinas semelhantes ao anime “Ghost in the Shell”. Eu não sei identificar com precisão quando todas essas mudanças aconteceram. O que eu sei é que, desde a década de 90 do século XX a mudança está cada vez mais acelerada, de uma forma tal que instituições obsoletas tentam sobreviver de algum jeito.

O homem, a humanidade, o sistema, dobrando-se sobre si mesmo, reciclando e reinventando novas formas de dizer as mesmas coisas que eram ditas no século XVIII, gerando toda uma nova era: a Era da Internet. Nunca, de forma tão aberta, quase absoluta e democrática, se teve tanto acesso à informação. A nova geração [re]produz e [re]cria valores latentes de uma forma que não estava previsto no esquema e não há forma alguma de parar o processo.

Começamos a Era Moderna com o aparecimento da indústria e da produção para consumo em massa. Foi introduzido no mundo outros materiais e outros produtos, bem como os meios de comunicação em massa, a linguagem midiática, mais o desenvolvimento de necessidades supérfluas e fúteis. Coisas e pessoas passaram a ter valor financeiro, valor capital e assim nós somos negociados, recebemos um preço e somos embalados. De gente, nos tornamos apensos das máquinas, senão acessórios das máquinas, ao invés das máquinas serem nossos instrumentos, nossas extensões, nosso “organismo” artificial.

Não foi suficiente substituir matérias primas por simulacros, não bastou trocarmos produtos duráveis por produtos com data de validade, não bastou trocarmos produtos orgânicos por produtos artificiais. O homem se tornou um simulacro de si mesmo, estendemos nossa data de validade, criamos organismos artificiais, tornamos possível a reprodução artificial.

Agora o homem [re]descobre também a plasticidade de sua condição, de sua sexualidade, de seu gênero, de sua identidade/preferência/opção sexual. Torna-se desnecessário que a medicina altere por cirurgia as pessoas que nasceram intersexuais. Torna-se desnecessário que a educação e a sociedade imponha o padrão heteronormativo. A pessoa humana é X, Y, mas isto não vem com manual de instrução dizendo que tal pessoa é ou “homem”, ou “mulher”. Será uma grande surpresa quando a ciência descobrir que a pessoa humana tem o Z, como os habitantes do planeta X1S do “Manifesto Onigâmico” de Mauro Bartolomeu.

A internet deslocou ainda mais a pessoa do corpo. Ferramenta de comunicação e plataforma de criação, ela deu ao homem uma nova forma de se representar, de se incorporar, ao dispor ao usuário dessa mídia revolucionária a alternativa de criar avatares. Novas aplicações para uma palavra antiga, o homem pode se tornar deus, ao menos no ambiente virtual. Aqui, qualquer um pode ser qualquer coisa, pode ser qualquer um. O homem encontrou na internet o habita ideal para suas fantasias e utopias, o virtual é realmente possível, ou o real é virtualmente possível.

O homem ocidental cristão pode se transportar e se tornar um senpai de uma escola de garotas no ginásio e ser disputado por todas. O garoto introvertido e inseguro pode se transportar e incorporar no herói do anime. A mulher recalcada e frígida pode se tornar uma sexóloga. A garota inexperiente, mas curiosa, pode se tornar uma fêmea fatal. Acabaram todas as fronteiras, de origem, de etnia, de linguagem, de cultura, de gênero, de sexualidade, de preferência/opção sexual, de tipos de relacionamento, de faixa etária. Na internet, o homem se torna pessoa humana. Capaz de se expressar sem medo, sem receios, até suas mais íntimas fantasias, desejos, pulsões, libidos e instintos.

Na Sociedade Contrassexual, a pessoa humana, seu corpo, terá todas as formas e meios de se expressar, seja de forma virtual, seja de forma real.

Pessoa e personalidade

Dentro da proposta da obra “Manifesto Contrassexual” de Beatriz Preciado, considerando a Desconstrução de Derrida quanto ao que tange a plasticidade da Linguagem, este texto irá explorar os conceitos [pré] concebidos sobre pessoa, identidade e individualidade.

O conceito de pessoa está conectado ao sentido de ser humano, bem como à identificação do “ser” e do “eu”. Se esse eu se refere ao corpo, ao ego ou à mente, esta é a questão crucial. Quando usamos a linguagem e definimos quem ou o que é o nosso “eu”, automaticamente definimos a alteridade do “outro”, quando usamos a localidade física para definir o “eu” em relação a um corpo, tornamos material o conceito de “eu”.

Nós temos documentos, imagens e testemunhas que podem confirmar a existência desse corpo determinado como sendo o “eu”, distinto e diferente, identificado e individualizado por um nome. Todas estas formas são, por sua vez, inscritas em uma Linguagem e materializadas, mas na ausência do objeto, nós não deixamos de ser este “eu”. Então o “eu” não está restrito ou subscrito por objetos, pelo corpo ou outras formas de materializações do conceito que exprimimos como sendo o “eu”. O conceito de “eu” é materializado pela Linguagem, mas sua origem é mental, transcendental. O “eu” não é material, não está no corpo, o “eu” pertence ao ambiente da alma, do espírito. O “eu” não sendo carnal, mas espiritual, é eterno. O “eu” sendo alma, pode estar em qualquer corpo ou em qualquer representação do “eu”, seja esta física ou metafísica.

Considerando que o “eu” é imaterial, o corpo no qual este habita se configura de acordo com a sociedade, a cultura e o tempo em que este está manifestado. O “eu” se torna uma pessoa e sua relação com um determinado momentum espaço-tempo se torna uma personagem. O “eu” restringido pela vetorização de sua existência assimila, produz e reproduz certas normas, regras, proibições e limitações que estão consolidadas na educação, na lei e nos costumes. A pessoa realiza um determinado papel, como um ator canastrão, fazendo cena nessa peça de teatro que chamamos de vida. A pessoa, portanto, é um personagem, que acredita estar efetivamente vivo e que seu corpo [seu ego] consiste no seu real “eu”.

O corpo é uma imagem construída a partir da Linguagem. As diversas representações do corpo são materializadas pela Linguagem. Mas uma imagem não é o corpo, é uma representação artificial de algo irreal. A imagem no espelho, uma foto, uma pintura, são apropriações feitas pela Linguagem para representar [tornar presente] estes conceitos imateriais, mentais, transcendentais. A Linguagem desloca o verdadeiro centro do “eu”.

Uma vez que o “eu” está deslocado, o “eu” é tanto real quanto virtual; o “eu” pode estar inserido em um determinado corpo, seja este físico ou virtual; o “eu” pode ser um personagem em uma sociedade de um mundo fenomênico ou ser um personagem em uma sociedade em mundo artificial.

Na Sociedade Contrassexual, o corpo pode se identificar com qualquer forma de personalidade, seja esta física ou virtual. Uma vez que o “eu” não está restrito ao corpo e o corpo não está restrito aos padrões de gênero/sexualidade, a personalidade do corpo pode assumir diversas sexualidades e gêneros, pode ressignificar e reificar a Linguagem, visto que esta é plasmática.

Magritte na filosofia

A obra “Manifesto Contrassexual”, de Beatriz Preciado, é uma proposta baseada no argumento que as questões da sexualidade, gênero, em como suas derivações [identidade, preferencia
e opção sexual] são linguagens que fazem parte de um discurso biopolítico.

A autora teve como base as obras de Deleuze/Guattari, Foulcault e Derrida. Eu me sinto ambientado nesse tema, sendo comunicólogo e tendo estudado a teoria semiótica. Felizmente eu tive contato com Roland Barthes, bem como eu tive a felicidade de ler Guattari/Deleuze e Foulcault, apenas me faltando Derrida, o que será minha próxima aquisição.

A linguagem é um produto cultural, típico do ser humano, através do qual nós passamos [transmitimos/comunicamos] nossas concepções a respeito do mundo. Cada tipo de saber humano é expresso dentro de uma linguagem, dentro de normas [ortografia/gramática] e dentro de um discurso normativo.

Eu vou iniciar esta resenha pelo título da obra, para então introduzir alguns conceitos básicos da autora. Quando falamos em “manifesto contrassexual”, o leitor não deve entender que a autora é contra a sexualidade, aqui o puritanismo e o conservadorismo são miragens que devem ser desconstruídas. A proposição da autora é expressar-se contra os conceitos pré-concebidos, que são estruturados na falsa noção a respeito de gênero/sexualidade, que são parte da biopolítica.

Através da desconstrução a autora discute e questiona a conexão entre o significado e o significante, apontando o quanto essa conexão é artificial, ilusória, arbitrária. Aqui não cabem teorias da biologia e da genética, pois estes conhecimentos estão dentro do discurso normativo e não expressariam outra coisa senão aquilo que é determinado pela biopolítica.

Felizmente eu tive contato com obras que apontam que nosso DNA define a forma de nossos órgãos sexuais, mas não a nossa sexualidade, nem o nosso gênero. Através de exemplos e de casuísmos, a autora demonstra que os conceitos pré-concebidos não são normais, naturais, científicos, mas são construções socioculturais, são obra de uma pré-operação da biopolítica [quando não pós-operação], ao atribuir dentro dos padrões normativos um dentre apenas dois gêneros.

Aqui eu introduzo um conceito da autora: o papel que um determinado gênero exerce dentro da estrutura normativa é uma performance, assimilado pela pressão social e pela educação.

Existe uma interessante contradição nessa biopolítica, afinal o senso comum diz que o sexo é algo íntimo, privado, mas nós vemos continuamente o Estado, a Sociedade e a Igreja interferir e impor um padrão normativo, mostrando que o sexo é público.

A autora foca sua obra na Era Moderna, na Era Industrial e no Capitalismo. O Capitalismo, sendo um sistema econômico baseado no consumo massivo de bens e produtos, procurou matérias primas mais acessíveis e mais baratas pela tecnologia e ciência. Em nome da produção, da economia e da massificação, apareceram diversos simulacros imitando outra coisa, em uma constante ressignificação e reificação da realidade, cada vez mais plasmática, moldável, falseável.

Aqui eu introduzo outro conceito da autora: o pós-humanismo, a deslocação entre natural/artificial, entre normal/anormal, entre orgânico e prostético. O gênero não está vinculado ao órgão sexual, como a sexualidade não está vinculada com a reprodução. O pós-humano se apropria, ressignifica e reifica, em uma linguagem própria, como uma resistência, a contrassexualidade, onde a pessoa reassume o domínio sobre seu corpo.

Para este intento, a autora utiliza-se da dinâmica da teoria queer, fazendo uma releitura, uma reinterpretação, das expressões utilizadas nos guetos da sexualidade desviante. A ressignificação e reificação do dildo desloca a estrutura social centrada na falocracia. A ressignificação e reificação do papel do homossexual, do transgênero, desloca a estrutura social centrada na heterossexualidade. A ressignificação e reificação de relacionamentos e de tipos familiares alternativos desloca a estrutura social centrada no patriarcado.

A autora desconstrói, a maneira de Derrida, os conceitos pré-concebidos, assim como os estereótipos, modelos e padrões, não apenas da estrutura normativa, mas mesmo das teorias desviantes, ao tornar o gênero e a sexualidade, fatores multidisciplinares e polifórmicos. O gênero e a sexualidade não são nem natural, nem artificial; não são normais nem anormais; não são nem orgânico nem prostético, podem ser ambas as coisas e nenhuma delas; são aquilo que nós definirmos ser.

Quando o céu caiu – III

Eu a levei até meu computador e acessei a internet. Eu não achei necessário mostrar para ela ou explicar o que esse aparelho faz e falar sobre a rede. Ela observava ao meu lado e eu supunha que ela devia achar isso tudo muito primitivo. Eu enviei alguns e-mails e acessei algumas páginas falando do acontecido, mas não sobre minha hóspede e aguardei o retorno.

– Eu estou curiosa. Por que você ligou esse aparelho ao invés de usar o seu aparelho na sala?

– Esses aparelhos são diferentes. O que está na sala nós chamou de televisão. Aquilo é capaz apenas de receber sinais de imagem e som enviados de uma emissora. Este que eu estou operando se chama computador. Este é capaz de enviar e receber diversas formas de informação pelos sinais de rede.

– Sua gente constrói tantos aparelhos para executar determinadas funções, mas não conseguiu unificar aparelhos com atividades e funções semelhantes. Seu povo é engraçado.

– A senhora não faz ideia do quanto somos engraçados, curiosos, contraditórios e complicados. Se nós somos tão confusos em relação à tecnologia, a coisa fica ainda mais difusa em relação com a sociedade, a economia, a politica, a ideologia e a religião.

– Mahala. Este é meu nome.

– Muito prazer. Eu sou Durak.

Um aviso de mensagem anunciou que eu recebera uma resposta. Eu estava começando a ler o e-mail quando começou a pipocar janelas do Messenger com outros interessados. Quando eu consegui lidar com tanto público, estava de noite e estávamos cansados. Mas tínhamos conseguido criar uma pequena resistência.

– Melhor nós descansarmos por hoje. Amanhã começamos a planejar as estratégias da resistência.

Mahala balança a cabeça, lentamente, com os olhos quase fechando de sono. Eu a ajudo a levantar e a conduzo até o quarto de hóspedes. Eu estava colocando-a na cama quando eu devo ter tropeçado ou acabei sendo involuntariamente puxado por ela. Mahala dormiu instantaneamente, em meus braços. Eu tentei me desvencilhar, mas ela me agarrava fortemente, eu não conseguia sair e o sono acabou cuidando do resto.

Quando eu acordei no dia seguinte, Mahala estava sobre mim. Completamente nua. Assim como eu. Nós teríamos feito algo enquanto estávamos dormindo? Por mais que eu gostasse de estar nessa posição e nessa situação, eu tinha que levantar e preparar o desjejum. Quando eu tentei movê-la de cima de mim, ela abriu os olhos.

– Oooaho. Bom dia, Durak. Dormiu bem?

– Mahala, olha, não é isso que você está pensando, eu posso explicar…

– Explicar o que? O que precisa ser explicado? Nós dormimos juntos. Você é um macho, eu sou uma fêmea. Nada mais normal e natural do que tirarmos as roupas e termos contato corporal. Embora eu não me lembre do que fizemos.

– Eh? Seu povo tem uma aceitação incomum quanto ao relacionamento, prazer, desejo e sexo. Eu vejo cenas assim apenas em animes.

– Animes? Isto é algo de comer, de beber? Considerando as circunstâncias, imagino que seu povo deve ter conceitos pré-concebidos no tocante ao amor, relacionamento e sexo.

– Anime é um filme de animação feito no Japão com desenhos. Eu gosto de assistir por que a cultura japonesa é incrivelmente mais flexível do que a cultura do meu país.

– Eu imagino que se tem gente de outros países vendo tal produto cultural, é por que, no fundo, desejam tais valores. O que me faz pensar que seu povo, independente do lugar de origem, não consegue lidar com sua libido e pulsões. Daí a necessidade de expressar por meio de arte. A minha gente não tem tantas ferramentas de sublimação. Se isso te deixa tão envergonhado, não se preocupe. Eu não sinto que tenha sido penetrada ou maculada de alguma forma por você.

– Hahaha. Eu imaginei que não. Estávamos tão cansados que nós dormimos, nada mais.

– Nada mais? Acha mesmo que não teria sido possível nós engatarmos um ato sexual? Eu sou tão repulsiva assim?

– Eh? Não, não, não. Não foi isso que eu quis dizer. Evidente que você é bonita e atraente. Apenas não acho apropriado eu me aproveitar de você enquanto você dormia.

– Ah é mesmo? Acha que eu sou bonita e atraente? Então inapropriado não cabe nessa consideração. Um macho saudável quer a mesma coisa que uma fêmea saudável. Eu sou uma fêmea saudável. Mas você será um macho saudável? Espero que sim, pois meu desjejum costuma ser sêmen.

Mahala põe suas mãos em minhas partes intimas que reagem de imediato. Ela olha com surpresa, admiração e recato. Se não fizemos coisa alguma de noite, o faremos de manhã. Mahala teve sua dose de sêmen. Enquanto ela descansava do exercício, eu me arrastei até a cozinha para fazer uma refeição para repormos as energias. O dia apenas estava começando e tínhamos uma resistência para organizar.