O fantasma na máquina

Shakti e Deva saíram depois de tomar uma garrafa de uma bebida alcoólica e comer um prato feito com muita carne. Antes de saírem, comparam de Gretel alguns casacos feitos com couro e peles. Retomaram a estrada e notaram que alguns dos frequentadores da taverna as espiavam com um olhar desconfiado e ameaçador.

– Deva, por mais rápida e habilidosa que eu seja, eu não poderei lidar com um ataque de muitos destes bárbaros. Talvez devamos comprar com a Gretel uma espada para você.

– Creia-me, Shakti, eu não preciso de espada. Mas nós podemos convidar o cavalheiro que compartilhou a mesa conosco.

– Eu não confio nele. Eu senti que ele pretendia nos usar de alguma forma para retomar a coroa que perdera.

– Então talvez devamos nos deixar usar, assim chegamos mais rapidamente ao palácio do rei atual.

– Ali no palácio haveremos de encontrar muitos doutores e pensadores. O que faremos contra o ataque deles?

– O que sempre fizemos com pensadores, filósofos e doutores que vinha ao santuário, repletos de arrogância, prepotência e autoritarismo. Deixaremos que bebam do próprio veneno.

Shakti e Deva prosseguiram pela estrada, percebendo que estavam sendo seguidas. No entanto a carruagem que as seguia não tinha cavalos, mas se movia, fazendo um curioso barulho. Quando a estranha carruagem passou ao lado, um homem abriu uma janela e as saudou de dentro.

– Senhoras, permitam que as acompanhe. Eu soube que mulheres vindas do santuário viajavam pelos reinos. Eu não pretendo usá-las, eu diria que perder a coroa foi a melhor coisa que me ocorreu. Não que as senhoras precisem de minha companhia, mas em terras tão violentas, uma pessoa e uma espada a mais vêm a calhar.

– Que carruagem estranha é esta que se move sem cavalos?

– Isto, senhoras, é um veículo. Isto se movimenta pela força de um motor. Se tiverem um tempo, eu lhes posso mostrar e explicar como funciona.

Curiosas e interessadas, ambas pararam na margem da estrada e deixaram que o cavalheiro mostrasse e explicasse o que era um veículo. Olharam maravilhadas o motor, viram as engrenagens, ouviram que a energia do motor vem de um fluído flamejante, viram como se conectavam as rodas com o volante, sentaram na cabine do veículo, apreciaram o conforto.

– Que maravilha interessante o veículo. Como será que o homem aprisionou um espírito nessa máquina para que ela se movesse?

– Oh não minha senhora. Não há espírito algum aqui dentro. Um veículo se move apenas pelas ações de combustão e transmissão da força. Tal como na natureza, onde as coisas acontecem sem necessitar de um espírito ou entidade.

– Oh. Entendo. O senhor pode dar a partida nesse veículo para nos levar até o palácio do rei do norte?

O cavalheiro, cheio de si, inseriu a chave na fenda que tinha no painel do veículo, girou e… nada. Nenhum sinal. Nada ligava, nem as luzes de controle. O cavalheiro vasculhou o veículo todo, esmiuçou em cada detalhe, mas não conseguia encontrar o que estava causando o defeito em seu funcionamento.

– Algum problema, cavalheiro? Eu pensei que o veículo se movia por conta própria, sem necessitar de um espírito ou consciência.

– Eu… eu não sei. Eu não achei qualquer defeito. Tudo no veículo está em ordem.

– Aqui está o defeito, cavalheiro. Em minhas mãos eu segurei o espirito que emprestava seu ânimo ao objeto. Algo somente pode se mover se tiver algum tipo de consciência. O homem pode observar a natureza, mas não a entenderá enquanto perceber apenas como ela funciona, como se fosse um mecanismo, sem se dar conta de que um objeto pode se mover apenas quando há uma energia agindo ali e toda forma de energia é consciente.

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