O reino do norte

Shakti conduzia a carruagem pela estrada que as levaria ao reino do norte, saindo do reino do leste. Conforme avançavam, Shakti percebeu como a paisagem se modificava, a natureza transformava-se em outros tons e o clima ficava mais frio. Shakti ficou imaginando se é por causa disso que esse reino tornou-se tão falado como sendo racional, científico, emocionalmente indiferente. Totalmente aversos à intuição, condenava tudo que fosse espiritual como sendo mera superstição. Curiosamente acreditavam que sua Ciência e sua Razão poderiam explicar todo o Universo, esquecendo que são conceitos imateriais, impossíveis de terem sua existência provada pelo método que eles consideram ser o único válido. Suas elucubrações sobre o mundo eram o mesmo que um rato tentando explicar o queijo por uma ratoeira.

– Você está pensativa, Shakti. Algum problema?

– Nenhum Deva. Eu estava apenas conjecturando sobre se o reino do norte ter se tornado tão desumano por causa do ambiente em que vivem.

– Ah. Você acha que o frio induz a uma mentalidade mais compenetrada e que o calor induz a uma mentalidade mais expansiva. Sem dúvida em tempos de frio nós ficamos mais introspectivos, mais reservados. Em tempos de calor nós ficamos mais extrovertidos, mais agitados. Mas se fosse assim, os habitantes do norte alterariam seu comportamento ao virem para o sul e vice-versa. Eu acho que é uma especulação inverossímil. Eu acho que tem mais a ver com a natureza da pessoa do que com a natureza do ambiente. O que me atiça a curiosidade é como o rei deste reino chegou a esta condição, mesmo depois de ter recebido minha doutrina.

– Antes, temos que pensar em como vamos chegar até o castelo e palácio do rei do norte. Eu estuo congelando!

– Haha! Concordo. Ali tem uma taverna. Vamos tomar algo que nos esquente, ver se podem nos vender uma roupa mais adequada e comer algo que eu estou faminta.

Shakti e Deva entram na taverna, bastante alegre e movimentada, cheia de homens, vestidos com pesadas roupas de couro e peles. As poucas mulheres que ali estavam zanzavam de um lado a outro, atendendo as mesas e aos pedidos, servindo comida e bebida. Uma mulher incrivelmente alta e corpulenta as recebe na taverna.

– Gutnon! Vocês querer comer, beber?

– Sim, obrigada. Aqui vocês teriam roupas para nos vender?

– Dah! Vocês de fora sem roupa quente. Gretel tem roupa quente, vende barato.

– Obrigada, Gretel. Traga uma bebida forte que nos esquente e a melhor comida desta taverna.

– Dah! Schnap e boidel para duas!

– Com licença, senhoras. Permitam-me acompanha-las. Estas terras têm homens que não tem muito tino para cortesia e educação. Eles não estão acostumados a ver mulheres sozinhas em suas tavernas.

– Sente-se, cavalheiro e peça algo. A quem devemos a honra de tal companhia?

– Eu sou o rei do norte. Ou eu era, até a pouco. Aqui no norte as coroas dançam tão rápido quanto as adagas.

– Engraçado, eu não me lembro de tê-lo recebido em meu santuário.

– Ah! Vocês devem ser do santuário. Aquele rei morreu faz tempo. O coitado trouxe ordem e unificação aos diversos povos, mas não sobreviveu aos reinos que surgiram e as constantes guerras entre os reis.

– Então a fama de serem racionais, científicos, é falsa?

– De forma alguma, senhora. Reis e reinos em ascensão, procurando aumentar suas riquezas e posses, vão patrocinar qualquer recurso disponível. Os doutores e pensadores fizeram fortunas, nenhum teve escrúpulo em seu racionalismo e cientificismo em desenvolver máquinas mortais.

– Isso explica por que são tão aversos à espiritualidade e à religião. Precisam acreditar que não existe moral, que a vida não tem valor, que suas ações não têm consequências. Eles não estão agindo pela razão, mas pelo poder.

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