Sempre haverá o dia seguinte

Shakti despertou percebendo que estava sendo observada. Ao virar o rosto, ela deparou-se com Deva reclinada ao seu lado, com aquele sorriso enigmático que a deixava sem jeito.

– Bom dia, Deva. Perdoe-me por ter dormido. Você precisa de algo?

– Oh! Acabou toda aquela formalidade? Até que enfim. Você dormiu bem, Shakti? Um bom descanso é importante depois dessa atividade. Pelo sorriso do Iluminado e por suas feições, vocês devem ter se divertido muito. Eu vou querer saber tudo. Principalmente como você se sente. Esta é a primeira vez que você executa este tipo de prática, não é?

– Sim, foi a minha primeira vez com um homem. A sensação é boa, mas diferente das vezes que você praticou comigo. Quando você me tocava, a sensação é de fraternidade. Com o Iluminado, eu me senti completa.

– Você sentiu, ainda que por um breve instante, a mais absoluta plenitude. Por alguns instantes você perdeu todos os sentidos, a noção de identidade, de personalidade, de individualidade. Esta é a mesma sensação quando o corpo está próximo de morrer. Por isso que dizem que o êxtase é uma pequena morte. Não sentiu medo de nunca mais acordar?

– Não. A conversa que eu tive com o Iluminado me fez ver que o medo é apenas uma reação instintiva, uma reação de sobrevivência. Não há o que temer. Por sua natureza o corpo quer sobreviver, mesmo sabendo que está fadado a perecer, então ele tenta a todo custo manter a alma aprisionada em si. Mas o corpo não é proprietário da alma e a minha alma que habita este corpo é imortal, isto que eu sou continuará a existir mesmo depois deste corpo perecer. Eu simplesmente acordaria no dia seguinte por que sempre haverá o dia seguinte.

– Pelo visto a conversa e a consumação foram boas. Como você conseguiu, Shakti? Eu estou curiosa para saber como conseguiu superar suas inibições, visto que sentia tanta vergonha.

– Eu percebi que eu estava em um impasse. Por anos eu te ouvi falar a doutrina e eu ouvi aquilo que o Iluminado me disse, mas palavras não iriam mudar meu estado, eu precisava ter uma atitude, eu precisava de uma ação. Eu então parei de pensar como se fosse eu ali presente, mas você. Eu parei de agir como eu agia e passei a agir como você agiria. Eu deixei de lado o papel e o roteiro que eu havia criado e imaginado para essa personagem chamada Shakti. Eu deixei que meu personagem fosse Deva. Eu te imitei e despi o Iluminado, me despi, me posicionei por cima do Iluminado e coloquei a parte dura do Iluminado dentro de mim. A partir deste ponto, corpo, mente e alma se movimentaram em sincronia. Meu corpo e o corpo do Iluminado uniram-se, fomos envolvidos por algo que parecia ser uma onda, uma energia, uma explosão e sumimos dentro do arrebatamento do êxtase.

– Eu senti quando você mergulhou dentro de mim. Agora você entende quando eu te digo que eu e você não somos muito diferentes? Possuímos corpos distintos, nossas almas se manifestam em espaços distintos, nesse mundo fenomênico nós criamos diferentes identidades e personalidades, mas nós compartilhamos a mesma essência. Este é o cerne de toda a minha doutrina Shakti. Você não precisa de coisa alguma senão de ti mesma para encontrar sua essência. A união do princípio feminino com o princípio masculino pela conjunção dos corpos é a chave para a iluminação. Quando esteve com o Iluminado dentro de você, o prazer abriu as portas da percepção. Ainda que estivesse imersa no oceano da minha divindade, você viu pelos meus olhos o meu Consorte? Viu o Iluminado imerso no fogo da divindade dele?

– Então é por isso e para isso que unimos os corpos? Sem a união do Deus e da Deusa, nada existiria. Sem a união do homem com a mulher, não despertaríamos. Sem o corpo, o desejo, o prazer, não há iluminação. Enquanto separarmos o corpo da alma, a matéria do espírito, continuaremos a criar falsos medos, falsas inseguranças, falsas crenças a respeito de nós mesmos, falsos conhecimentos a respeito do mundo, falsas interpretações a respeito do divino. Apenas levantando os véus é que podemos rasgar a ilusões de Maya.

– Então você agora entende por que eu não recuso abrir meu corpo a quem quer que me deseje? Agora entende que você também é digna de ser amada e me amar? Agora entende que, como minha sucessora, deverá estar pronta para se abrir e receber a todos?

– Não fale nisso, Deva. Eu não quero pensar nisso. Falar em sua sucessão enquanto ainda está viva não é apropriado. Eu ainda quero desfrutar de sua companhia por muito tempo, eu ainda tenho muito que ouvir e aprender.

– Oh, Shakti, meu amor! Consegue encarar sua finitude, mas é incapaz de aceitar que esta minha manifestação há de conhecer sua finitude! Tudo que você precisa fazer é me amar. Eu hei de continuar a existir quando este corpo perecer. Sempre haverá o dia seguinte.

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