Shakti e o Iluminado

A tarde anunciava a chegada da noite quando Deva e Shakti entraram no reino do leste e foram convidadas a tomar chá no palácio do Iluminado. Deva ficou sonolenta e Shakti a acompanhou até um quarto de hóspedes indicado pelo Iluminado. Shakti nunca havia visto Deva cansada ou com sono, então pressupôs que era um artificio de Deva para deixa-la mais à vontade para conversar com o Iluminado. Depois de colocar Deva na cama e cobri-la, Shakti retornou até a sala de chá, onde encontrou o Iluminado placidamente sentado, em uma postura que ela vira diversas vezes no santuário. Shakti sentou-se ao lado do Iluminado com a intenção de fazer as perguntas que a incomodava.

– Iluminado, o senhor reconheceu a Deva. De onde conhece Vossa Santidade?

– Faz um bom tempo que eu conheci a Senhora. Eu a achei depois de perambular muito pelo mundo. Eu perdi a conta de quantos templos, credos, ordens e religiões eu conheci até chegar à Senhora. Mas eu não a reconheci, o que indica que eu estou ficando velho.

– Eu conheço Vossa Santidade desde que era criança e vi muitos homens irem e saírem do santuário. Ela resolveu sair do santuário para ver o que aconteceu com estes que a visitou. No reino do sul tivemos uma tremenda decepção, mas teu reino está melhor. O senhor sabe por que houve tanta diferença entre os reinos?

– Você é muito gentil, Shakti, mas meu reino não está bom. Eu tentei, com todas as minhas forças, ensinar o que aprendi com a Senhora, mas infelizmente o homem não está preparado para entender. Eu acho que foi isto o que aconteceu com o reino do sul. A mensagem da Senhora é clara, simples, evidente, mas o homem irá interpretar conforme seus objetivos.

– O reino do sul estava perdido em ganância, egoísmo, violência, ódio, miséria e pobreza. Como alguém que conheceu e recebeu a Sabedoria de Vossa Santidade pudesse permitir tal coisa?

– Eu não conheci o rei do sul, eu não conheci o povo do sul, mas eu aceito que as coisas e as pessoas são como devem ser. Então eu ensinei que o sofrimento é resultado de nossas ações, com a intenção de que cada um tivesse consciência e responsabilidade de seus atos. Mas ao invés disso, procuram ajudar os carentes, favorecendo a promissora Empresa da Miséria. Eu tentei ensina-los a pensar por conta própria, mas vivem recitando meus discursos como se fossem a Verdade. Eu tentei lhes ensinar sobre a constante mudança, falando sobre os ciclos da existência, mas o que entenderam é que tudo é impermanente. Eu tentei lhes ensinar que todos nasceram da mesma Fonte e a Ela devem retornar, mas o que entenderam é que é necessário o desapego. Eu não irei permanecer neste mundo por mais tempo, mas receio que não posso fazer coisa alguma para evitar que meus ensinamentos se tornem mais uma sistematização, uma burocratização, uma religião.

– Vossa Santidade sempre tenta me ensinar, mas eu devo ter as mesmas limitações e defeitos dos homens. Quando Vossa Santidade fala comigo, eu me sinto com vergonha, com culpa, com medo. O pior é que eu não sei o porquê. Vossa Santidade é gentil, bondosa, amorosa, mas por algum motivo eu me sinto como se eu tivesse algum problema ou erro e me sinto constrangida, ainda que Vossa Santidade tenha apenas compaixão por mim. Eu te peço, Iluminado, como eu posso vencer meus medos, minha insegurança e minha vergonha?

– Oh. Eu conheço isso muito bem. Eu recordo como eu me senti quando conheci a Senhora. Eu sei muito bem o que sente e sei o motivo, mas apenas você tem o poder para superar estas limitações, por que você mesma as criou. Pergunte-se Shakti por que você se sente envergonhada? Do que tem medo? Por que tem medo? Por que você acredita ter algum problema, falha, erro, defeito? Ouça aquilo que você responde, não com crítica, mas com compreensão, compaixão e amor. Entenda-se, se aceite, perceba-se. Enfrente o que te incomoda.

– O que me incomoda é de não ser merecedora do cargo de assistente de Vossa Santidade. De não ser capaz de enfrentar meu medo. De não ser capaz de superar minhas inseguranças. No santuário, eu treinei meu corpo em diversas artes marciais e sou uma espadachim incomparável, mas eu não consigo e controlar quando veja Vossa Santidade com os homens.

– Ah! Então sente ciúmes ou inveja da Senhora! Seu medo é na verdade uma reação secundária ao seu ciúmes ou inveja, visto que acredita que é inferior à Senhora. Sua insegurança, esse sentimento de que tem algum defeito, falha, erro, são decorrentes de suas crenças enganadas a seu respeito, a respeito da Senhora e do relacionamento que vocês têm. Diga-me Shakti, o que a Senhora possui que você sente tanta inveja, o que você quer dela que te faz sentir tanto ciúme?

– E- eu… estou começando a sentir o mesmo agora, mas com o senhor! Eu sinto vergonha, medo, insegurança como eu sinto quando eu estou com Vossa Santidade.

– Isso indica que a origem de sua reação está em você, não na Senhora, não no relacionamento, não no santuário, não na doutrina. Então seja sincera consigo Shakti e diga como você se sente a seu respeito, a respeito da Senhora, a respeito do santuário, a respeito da doutrina? O que você vê na Senhora de tão especial que você mesma não tenha? O que você acha que os homens têm que merecem mais atenção do que você da Senhora?

– Eu não sei, Iluminado. Eu sou uma mulher, não sou muito bela, não sou muito sábia. Eu sei que achei meu lugar no santuário e exerço minhas obrigações com extrema eficiência. Mesmo assim me sinto deslocada e estranha no santuário quando faço meus treinos físicos e marciais. Eu sei que Vossa Santidade tem um enorme apreço por mim, senão eu não seria sua assistente. Mesmo assim eu fico incomodada quando ela me dá a mesma atenção que ela dá aos homens.

– Acredita realmente que não é bela nem sábia? Devia se ouvir pelos meus ouvidos e se ver pelos meus olhos. Eu poderia até me dar a permissão de sentir ciúmes e inveja de você, por estar sempre tão perto da Senhora. Sem perceber, você declarou o quando acredita em si mesma. Sem perceber, sua disciplina corporal é o treino mais eficiente para a mente e o espírito. Sem perceber, reconhece o amor que tem pela Senhora. Sabe, Shakti, eu alcancei a Iluminação debaixo de uma árvore, jurando pela terra, sendo ameaçado pela sombra que eu mesmo criei. Eu desfiz as ilusões criadas por mim, ao perceber que aquela árvore era o corpo da Senhora, ao perceber que o solo é o corpo da Senhora. Você, abençoada, tem o corpo da Senhora para jurar, o que te falta é perceber que você é uma manifestação da Senhora. Você não tem defeito algum, não tem falha alguma, não tem problema algum, todas estas coisas somente existem quando você acredita que existem.

Shakti ficou ruborizada. Ela tinha tirado a serenidade do Iluminado. Ela conhecia bem a reação dos homens diante de uma mulher, diante de Deva. O Iluminado não tinha aparentado qualquer comportamento ou reação que costumeiramente acontece com um homem. No entanto, era bem visível que sua presença e sua conversa com o Iluminado havia deixado ele excitado. Shakti não tinha muita certeza do que devia fazer. Apenas pensou em como Deva teria agido. Shakti despiu o Iluminado, despiu-se e então, sentada no colo do Iluminado, venceu sua batalha final contra si mesma.

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