O reino do leste

Shakti conduz a carruagem pelas estradas, indo em direção ao reino do leste, ainda conturbada pela transformação que Deva havia passado. Shakti se lembra de Deva desde que era criança, Deva era uma adolescente quando Shakti começou a trabalhar no templo. Ela nunca havia visto Deva daquele jeito. Shakti relutava, pois havia crescido e sido ensinada a ver Deva como bondosa, sábia, compassiva, caridosa. Shakti tornou-se assistente de Deva desde que alcançou a adolescência e a tem acompanhado por muitos anos. Deva jamais havia alterado suas feições, nem mesmo com demônios. Shakti tentava entender o que havia testemunhado.

– Ainda tem dúvidas, Shakti? Ou você ao menos sabe por que estamos indo até o reino do leste?

– Vossa Santidade, eu não posso questionar Vossos desígnios. Nós estamos indo ao reino do leste por que ouvi relatos de que ali é completamente o oposto do reino do sul. Dizem que existe um Iluminado ensinado a todos.

– Shakti, não existe poder que não possa ser questionado. Como o homem poderia aprender se não pudesse questionar? Você pode me questionar, pode duvidar, pode até me criticar. Somente quando tiver perdido o medo de questionar é que irá perder sua vergonha. Quando chegarmos ao reino do leste, você irá questionar este Iluminado. Vamos ver o que acontece.

– Por falar em Iluminados, eu não me lembro de ter visto o novo credo que diziam existir no reino do sul. O que será esse novo credo? O que ensinam? De qual Deus ou Deusa falam? Por que será que acontece tanta guerra, discórdia, medo, destruição e ódio por causa desse novo credo?

– Ah! Enfim! Questões. Eu acho que suas dúvidas serão em breve respondidas, Shakti.

Uma imensa plantação de trigo e de arroz assinalava que chegariam a algum vilarejo ou cidade. O número de pessoas e casas se multiplicava ao longo do caminho e Deva recebia a todos, ouvia a todos, abençoava a todos. Os camponeses e viajantes se ajoelhavam, se prostravam, choravam de emoção. Shakti notou que o estado destas pessoas estava bem melhor do que no sul, mas ainda tinham uma grande devoção. Shakti riu ao lembrar-se dos doutores que falavam que a religião somente existe e prolifera onde existe ignorância, miséria e pobreza.

– Oh! Eu estou vendo você sorrir, Shakti? Que novidade! Percebe que todo ser vivo tem diversas faces, sem deixar de lado sua essência, sua natureza?

Shakti ficou ligeiramente ruborizada. Mesmo tendo vivido há tantos anos ao lado de Deva, a intimidade com que ela era tratada às vezes a deixava sem graça e não sabia o porquê. Deva se divertia com a expressão que Shakti fazia quando uma discussão acirrada chamou a atenção das duas. Próximo da entrada do reino do leste tinham dois homens que pareciam discutir as doutrinas espirituais.

O primeiro homem estava de costas para elas, vestia roupas escuras e pesadas, gesticulava energicamente e vociferava suas prédicas em alto som. O segundo homem estava de frente para elas, vestia roupas coloridas e leves, mantinha uma postura serena, proferia suas prédicas como se fossem mantras.

– Aí está sua chance, Shakti. O homem raivoso é um monge do culto do medo, ele representa o novo credo. O homem sensato é o Iluminado do lótus, ele foi um príncipe que uma vez me visitou e mudou seu nome de Sidarta para Buda. A quem irá questionar primeiro?

Shakti olhava os homens e Deva estava completamente indiferente a ambos. Shakti não havia decidido, mas queria ouvir as prédicas dos homens. Ela desceu da carruagem e começou a se aproximar do debate. O Iluminado percebeu sua chegada e a saudou com um sorriso. O monge do medo virou-se para ela e Shakti viu em seus olhos o desprezo.

– O que deseja, mulher? Não vê que este é um assunto entre homens? Não tens coisa alguma a fazer aqui. Volte ao teu lar, ao lado de teu pai, teu irmão ou teu esposo.

O rosto de Shakti encheu-se de fúria, seus músculos retesaram. Ela não havia escolhido, mas a circunstância a levou a enfrentar o monge do medo. Usando a palavra como ela usava a espada, cortou em pedaços o orgulho, a prepotência e arrogância do monge do medo. O homem não soube como responder, comentar, criticar ou refutar as palavras de Shakti e ela sentia que ele poderia recorrer à violência. Não duraria um segundo para esquarteja-lo.

As risadas de Deva e do Iluminado evitaram a morte do monge do medo, que se retirou do local, furioso, mas calado. Deva aplaudiu Shakti e o Iluminado a elogiou.

– A quem devo a honra de receber a visita das Apsaras?

– Iluminado, nós estamos vagando pelo mundo em busca de respostas. Eu te peço que nos receba para conversarmos.

– Ah! Respostas! Então vocês têm perguntas. Eu gostaria de ter todas as respostas, mas eu apenas tenho um método, uma forma de chegar até a Verdade.

– Nós estamos interessadas em conhecer este método. Eu ouvi dizer que recebeste a iluminação por este método e que conseguiste atravessar o véu de Maya.

O Iluminado ergueu seus olhos até Deva com um olhar sério, compenetrado. Então fez uma reverência. Shakti percebeu que ele havia, enfim, reconhecido a Deva.

– Seja bem vinda minha Senhora. Vós e vossa assistente são bem vindas ao meu reino.

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