No reino do sul

A carruagem seguiu a estrada, enquanto Deva apreciava a beleza de seu reino e Shakti não relaxava, mantendo sua espada pronta para qualquer eventualidade. Viram muitos povoados, vilas ou casebres ao longo da estrada, viajantes e camponeses vinham até Deva para lhe ofertarem pão, um pão artesanal feito por eles mesmos, pão que raramente tinham para comer, mas mesmo assim queiram ofertar a Deva. Shakti evidentemente examinava todas as oferendas e dava uma mordida nos pães, para ver se não tinha algo que pudesse fazer mal a Deva. Sua senhora simplesmente sorria, agradecia a oferenda, dava uma mordida e devolvia ao pobre camponês. Contadores de histórias falariam que esses afortunados voltaram à suas casas e comunidades, suas famílias e vilarejos tiveram prosperidade por muitos anos.

Shakti ficava muito nervosa, tensa e contrariada quando encontravam destacamentos de exércitos. Os soldados faziam piadas sujas, proferiam palavras de duplo sentido, exibiam suas partes íntimas, ofereciam-se para uma orgia. Deva simplesmente sorria, descia da carruagem, encarava o pelotão, tirava sua roupa e aceitava o que aqueles homens tinham a lhe oferecer, como havia aceitado as ofertas dos camponeses. Shakti ficava envergonhada e embaraçada com a naturalidade que sua senhora permitia tal abuso, embora no fundo sentisse ciúmes e inveja. Deva depois se banhava de forma precária, mas suficiente para seguir viagem. Deva seguia indiferente ao conflito que queimava na alma de Shakti. Até ela quebrar o silêncio e, enfim, apascentar suas dúvidas.

– Vossa Santidade, eu sei que Vós sois a Providência. Mas Vossa Santidade precisa alimentar todos? Vossa Santidade precisa satisfazer o desejo de todos? Não teria a terra e o corpo outras finalidades que não atender à necessidade do homem?

– Shakti, meu amor, por que estamos indo ao reino do sul? Não é por que você ouviu falar que existe fome, miséria, guerra e ódio? Isso acontece apenas quando alguns retêm as minhas bênçãos que são dadas a todos. Qual o propósito de uma árvore e de um animal, senão produzir descendência? Todo ser vivo somente pode existir se alimentando de outro ser vivo. Do que serve uma flor se não produz fruto? Do que serve um ventre se não produz gente? A flor deve ser preenchida de pólen, o ventre deve ser preenchido por sêmen. Você fica tão admirada com a beleza de meus jardins e não sabe como isso é possível? Amor, Shakti, apenas amor é a Lei. Quem me dera eu pudesse me manifestar completamente. O homem certamente me veria dentro dele. Mas então ninguém iria vir me visitar, ninguém iria atravessar o caminho para a iluminação, ninguém conheceria a doutrina e ninguém aprenderia com as provações. Seria uma chatice.

Shakti ficou amuada, achando que Deva estava ralhando com ela. Deva sentiu muita pena e compaixão, mas enquanto Shakti não amadurecesse, qualquer coisa que ela dissesse acabaria sendo mal interpretado por sua amiga. A feição de Shakti alterou-se completamente assim que percebeu estarem próximos do portal de entrada do reino do sul, guarnecido com muralhas cheias de soldados e armas. Shakti não entendia muito de amor, mas entendia bastante de agressividade, do espirito belicoso e marcial. Shakti sentia com facilidade a grosseria, ignorância, estupidez e ódio que os soldados que guardavam a guarita emanavam.

– Parem! Quem vem lá? De onde vem? O que desejam em Southerly?

– Como ousam? Sabem com quem estão falando?

– Deveríamos saber? São apenas duas mulheres. Vieram para achar um dote ou servirem nas tabernas?

A vontade de Shakti era de decepar as cabeças daqueles soldados com sua espada. Mas Deva segurou o ímpeto de Shakti. Apenas sorriu para os soldados. Ambos imediatamente largaram as lanças, pediram desculpas pelo mal entendido e sinalizaram para que abrissem os enormes e pesados portões.

Assim que entraram, Shakti reagiu ao ambiente, ao cheiro, ao estado dos moradores, com repulsa. Em todo canto, os habitantes do reino procuravam diversas formas de tirar dinheiro de forma desonesta de sua própria gente. Fome, miséria, violência são sinais de que este povo escolhe mal seus representantes e estes refletem o espírito local, buscando unicamente aumentar suas riquezas às custas do sofrimento de seus iguais. Shakti temeu pela segurança, pela saúde e integridade de Deva, mas nenhum daqueles homens parecia se importar com elas, seguiram pelas ruas de Southerly como se fossem invisíveis e chegaram ao palácio do regente. A guarda pessoal do rei fez questão de lhes abrir as portas e elas seguiram, sem interrupção, até os cômodos pessoais do regente local.

Assustado com a chegada repentina, o rei desembainha sua espada e ataca Shakti. Por mais forte e habilidosa que seja Shakti, o medo e desespero dão forças ao rei que a desarma. Shakti se vê acuada prestes a receber um golpe fatal do rei, mas este fica imóvel. Partido em metades, o rei cai junto com uma cascata de sangue. Assustada, Shakti nota Deva, segurando sua espada, com olhos vermelhos, lábios púrpuras e pele branca como mármore.

– Shakti, meu amor. Não me amas mais, não me desejas mais, não queres mais cuidar de mim, apenas por algo tão banal? Eu também sou um ser vivo, Shakti. Minha existência está além desse momento, dessa manifestação, mas como todo ser vivo eu preciso me alimentar. De mim, todas as coisas nascem, para mim todas as coisas retornam.

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