Censurar não resolve

Quando se fala de cultura japonesa, na internet, obviamente estamos falando de coisas bizarras e estranhas que não nos levam a pensar outra coisa senão “OH GOD WHY” e “Existe um público para isso? Eles são doentes!”. Não raramente está certo, não há outra coisa a pensar dos nossos amigos amarelos-san. E nós devíamos admira-los por isso.

Eu sei que você está pensando mas eu não bebi. Acompanhe o meu raciocínio e até o fim do dia você me dará razão assim como me oferecerá suas filhas.

O Japão possui uma única regra de censura que é vetar uma parte muito especifica do orgão genital (nem é ele todo, é só uma tirinha em uma parte) e fora isso tudo esta entregue a liberdade absoluta no que tange a mangas e animes.

Pornografia infantil? Pode. Incesto? Algo rotineiro. Bizarrices que fazem você querer deixar o almoço para mais tarde? Em qualquer banca perto de você.

Aqui no ocidente, ao se deparar com uma coisa dessas, nosso primeiro instinto é gritar “POR QUE O GOVERNO NÃO FAZ ALGUMA COISA A RESPEITO? SALVEM NOSSAS CRIANCINHAS!” e isso é o que é fundamentalmente diferente do outro lado do mundo para cá.

Ao contrário do Brasil e da América de modo geral, o Japão é uma nação capitalista. O seu povo tradicionalmente acredita na mão invisível do mercado para regular o que deve ou não existir e não no canetaço de algum político vivendo em seu próprio mundinho de fantasias. Então se um manga sobre bebês sendo estuprados por tentáculos feitos de fezes fizer sucesso, bem, paciência, é o que as PESSOAS querem. Se não gostarem é só não comprar, simples assim, e está resolvido o problema.

Por isso não existe censura no Japão, porque o seu povo não acredita que é dever do governo entrar em nossas casas, sentar na ponta da mesa e decidir o que devemos ou não ler, ver ou assistir. Quem faz isso é uma coisa que talvez você já tenha ouvido falar chamada “educação”. São os pais, as famílias que fazem essas escolhas, não os políticos e culturalmente os japoneses acham inadmissível essa inversão de valores.

Na América também se tem um conceito totalmente esquisito de educação: educação por aqui é se livrar das crianças em um internato de 6 horas (8 nos Estados Unidos com uma hora de intervalo) que muitos querem que seja 12 horas para que o governo ensine o que é certo, errado, decente e imoral enquanto os país não tem responsabilidade nenhuma nessas coisas. Ah, e de quebra façam as crianças decorar coisas aleatórias apenas pelo prazer de faze-lo.

Os japoneses são muito reticentes em dar mais poder ao governo, sobretudo coloca-lo da porta de casa para dentro, porque acreditam que censura é uma coisa que só funciona em um sentido: depois que algo é proibido pelo governo é necessário parir uma bigorna para desproibi-la. E sabiamente esse é um primeiro passo que eles não querem dar (ao contrário de nós que não só convidamos o governo para entrar e o mandamos ficar de olho nas crianças e coloca-las para dormir enquanto fazemos algo mais produtivo com o nosso tempo do que perde-lo com bobagens como educar nossos próprios filhos).

Por isso não existe censura no Japão e por isso um único beijo homossexual em uma novela é o “acontecimento do ano” no Brasil. Porque os dois povos tem uma noção muito diferente sobre a quem cabe transmitir valores e educar uma pessoa.

E aí você pode me perguntar: “Tá, mas se o cara ler um manga sobre lolicon ele não vai se tornar um pedófilo e atacar criancinhas?”. Talvez você não diga isso, mas em algum lugar no fundo deve ter pensado nessa questão e seu primeiro instinto foi recorrer ao Super-Governo, protetor dos fracos e oprimidos, para resolve-la.

Mas se você parar para pensar nela vai ver o quanto a sua pergunta é estúpida. Não é um manga, um anime ou uma foto na internet que torna alguém pedófilo, ou o cara é ou não é. Não é um videogame, uma partida de RPG ou um filme que faz uma pessoa matar outra pessoa. Não são as roupas curtas que tornam ninguém em estuprador.

Pessoas inaptas a viver em sociedade (e não do tipo nerd-perdedor-sem-amigos que fica sozinho em casa como eu, e sim o tipo “esse cara é realmente perigoso”) sempre existiram e sempre existirão. Ou você pode tentar remover todos os objetos afiados do mundo por causa delas ou você pode tentar resolver o problema diretamente.

Você pode, é claro, banir as revistas em quadrinhos, os filmes violentos, os videogames, o RPG, as palavras “feias” e por aí infinitamente afinal vivemos em um país em que mais de metade da população acredita que a culpa do estupro é da vitima.

Mas a pergunta que realmente importa é: você quer MESMO seguir por este caminho? Melhor ainda, quer que os POLÍTICOS (pq “o governo” não existe enquanto pessoa, é só um conjunt de políticos) decidam isso por você? Os japoneses não querem.

Pode parecer uma observação muito obvia mas que pouca gente acredita: um manga é só um pedaço de papel. Um anime é só um acetato colorido. Um manga sobre relações com menores não machuca ninguém, não são pessoas de verdade que estão lá. É diferente de filmar uma criança tendo relações sexuais (o que é crime no Japão também, alias), o personagem do manga é só isso: um personagem. Não uma pessoa real.

Se o leitor não sabe diferenciar a realidade da fantasia (e a partir dos 7 anos de idade o ser humano já tem controle disso) a responsabilidade não é do manga, não é da opinião pública e certamente não é dos políticos. A responsabilidade é da polícia, porque essas coisas são crime (tanto aqui quanto lá) e a responsabilidade da sociedade e dos políticos (aí sim) é fazer com que o sistema funcione.

Então da próxima vez que você pensar em gritar para o Super Governo fazer o seu trabalho e criar seus filhos por você, lembre-se do exemplo dos japoneses. Até porque no modo que você acredita que o mundo deve funcionar nem as burcas estão ajudando.

Autor: Cilon Mello

Fonte: Nerd Feelings

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