O filósofo e o ócio

Ser escritor não é fácil. Quando se é filósofo fica mais difícil. Espera-se que o escritor tenha uma boa história e um bom escritor tem que ser um bom mentiroso. Espera-se que o filósofo nos estimule a reflexão e o questionamento. Tem muitas vezes que as ideias falham, não temos inspiração, nem as Musas nem Apolo para nos ajudar. O ócio nos faz escrever ou filosofar sobre qualquer coisa, por mais banais e fúteis que sejam. Quando escrevemos movidos pela absoluta falta do que fazer ou falar, expomos muito de nossa real personalidade. Este é o caso de Luiz Felipe Ponde e seu texto “A publicidade e o Neandertal”.

Ele construiu seu tema a partir do comercial do Trivago e começa a viajar na maionese.

Segundo Ponde: “A publicidade é a melhor ciência social contemporânea”.

Publicidade é ciência social. O publicitário agradece pelo reconhecimento de que seu serviço é uma ciência social. Nós não precisamos da sociologia, mas de um bom publicitário para entender a sociedade.

Ponde não deve ter lido qualquer teoria da comunicação. A publicidade é um fenômeno que acontece dentro da sociedade de consumo, a publicidade é um reflexo da sociologia, não o inverso.

“A publicidade revela (e, mesmo sem querer, ridiculariza) o fracasso de toda forma de comportamento crítico. Tudo não passa de modinha para vender cartão de crédito para gente crítica”.

Ponde não deve acompanhar muito a Mídia e as peças publicitárias. Se o comportamento crítico está fadado ao fracasso, então Ponde é a epítome do fracasso. A publicidade explora diversas abordagens, faz diversas releituras da cultura e da sociedade, com a única intenção de vender uma ideia, um serviço ou um produto. As melhores peças publicitárias são aquelas que chegam ao nível da arte, provocando o senso comum, questionando os conceitos, desafiando normas. Talvez seja este o motivo pelo qual o comercial da Trivago inflamou a indignação do carola do Ponde.

O comercial é bem bolado. Mostra um homem e uma mulher. Deixa para o público rotular os personagens com os rótulos sociais. O homem tem cabelo e barba grandes, daí o preconceito de Ponde em taxar o homem de Neandertal. Um filósofo não pode se dar ao luxo de ter preconceitos. A mulher aparece em cenas que induz o publico a acreditar que ela é rica, sofisticada. Mas no fim do comercial, o homem está de terno e gravata e a mulher está com jaqueta de couro e camiseta. A mensagem do comercial da Trivago é apenas a de que não podemos nos enganar com as aparências. E ainda assim o público irá rotular os personagens conforme as normas sociais e Ponde caiu na mesma armadilha. Pior que ele nem se dá conta disso e destila sua indignação contra o comercial, revelando o quanto retrogrado, elitista e reacionário um filósofo pode ser.

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