Sociedade, política e sexo

A sexualidade não se restringe a quatro paredes. Ao contrário do que muita gente imagina, suas implicações vão além dos limites da vida particular – questões ligadas à intimidade estão no centro da experiência social. Há o reconhecimento óbvio de que os seres humanos são frutos do contato sexual – razão pela qual a preocupação com os relacionamentos nesse nível acompanhou transformações culturais, interferindo diretamente nos códigos de conduta. É compreensível, portanto, que os grupos sejam bastante influenciados tanto pela reprodução biológica quanto pela relação com o corpo e o desejo.

Apesar disso, para o senso comum o sexo é considerado algo da ordem do privado, dissociado da dimensão pública. Contudo, a questão é bem mais complicada do que parece à primeira vista, já que a extensão e as modalidades de reprodução sexual sempre estiveram no centro das preocupações políticas e na gestão do espaço social. Não se pode esquecer, por exemplo, a grande ruptura que ocorreu no Ocidente na passagem do século 18 para o 19. Foi nesse contexto que a demografia começou a destacar a inversão significativa entre as taxas de natalidade e mortalidade, quando a primeira finalmente se sobrepôs à segunda. Se a dominância do registro de nascimentos sobre o de mortes foi tímida de início, a tendência histórica confirmou sua progressão contínua e incontestável. O resultado desse processo foi o aumento efetivo das populações.

A maior consequência desse ostensivo aumento foi a proposição do controle da natalidade, desde a primeira metade do século 19, sob o impacto da enunciação do teórico inglês Thomas Malthus (1766-1834) a respeito da relação entre o aumento da população e os limites das possibilidades de alimentação. Segundo ele, o crescimento populacional se daria por progressão geométrica, ao passo que o aumento das fonts de alimentos seguiria uma progressão aritmética, o que resultaria na fome em larga escala, sendo necessário instituir o controle da natalidade e a redução da prole para impedir o advento de tal catástrofe social. Pode-se depreender da reflexão malthusiana a enunciação de uma nova imagem escatológica de fim do mundo. Com isso, os anticoncepcionais começaram a se disseminar no século 19, apesar da oposição radical da Igreja Católica, como ocorre ainda hoje.

Anteriormente a essa ruptura histórica, o que caracterizava a imaginação ocidental era o temor (e o terror) de desaparecimento causado pelo alto nível de mortalidade. Essa obsessão dominava a existência de nossos antepassados. Para combater a situação, era preciso incrementar a taxa de natalidade e as relações sexuais com fins reprodutivos. Por conta disso, as normas que ordenavam as trocas sexuais passaram a ser rigorosamente codificadas, com o intuito de possibilitar a reprodução social e garantir a manutenção da sociedade.

O cristianismo foi um acontecimento moral e político decisivo nesse sentido, porque forjou regras estritas para os intercâmbios sexuais, que marcaram de maneira indelével a tradição ocidental. Em primeiro lugar, pela interdição do prazer sexual como tal, na medida em que este deveria estar a serviço da reprodução, como imperativo superior. Resultado, a luxúria foi transformada em um dos sete pecados capitais; as delícias da carne, colocadas sob suspeita, e a sensualidade, inscrita no registro do pecaminoso.

As consequências foram diversas. As mulheres se tornaram objeto de controle social pelo fato de seu corpo ser matriz da reprodução sexual. Com isso, a sensualidade feminina literalmente se demonizou e a mulher se inscreveu no registro moral e político da periculosidade. Não por acaso, sua figura foi identificada, na Idade Média, com a da feiticeira, sendo a feitiçaria transformada em um crime severamente punido com a morte pela Inquisição. Por serem consideradas passíveis de possessão demoníaca e desafiantes de Deus, as mulheres arderam nas fogueiras punitivas da virtude. O fogo sensual, enfim, foi queimado em praça pública para que a exemplaridade do castigo pudesse inibir as demais pecadoras em potencial.

Em paralelo, o casamento e a monogamia foram instituídos como formas decisivas para a regulação social da sensualidade e a inscrição desta no registro da reprodução sexual. A “moral da família” se disseminou na tradição simbólica, e esse grupo passou a ocupar posição estratégica na tradição ocidental como instituição social.

A homossexualidade generalizada na tradição pagã e na cultura antiga, principalmente no universo masculino – também se tornou objeto de interdição fundamental. Se na Antiguidade as relações entre mestre e discípulo eram permeadas pelo erotismo, articulando de modo decisivo os registros do saber e da sensualidade, com a emergência do cristianismo, essa possibilidade foi demonizada e passou a ser vista como antinatural”. E isso não apenas porque contrariava as essências substanciais do que seriam ou deveriam ser as noções de masculino e feminino, mas porque implicava uma profusão de sensualidade que se opunha decisivamente à reprodução sexual e ao ideário monogâmico da família.

Tal paradigma moral e a gramática civilizatória regularam as relações entre sexo e sociedade a partir do cristianismo, marcando nossa tradição até o final do século 18 e o início do 19, de maneira indelével. A suspeição sobre a sensualidade, colocada sob o signo insofismável do pecado, buscava inscrever a experiência do prazer no campo maior da reprodução sexual, de forma que o casamento, a monogamia e a família se desenvolveram como os pilares institucionais modernos do Ocidente. Nesse contexto, as figuras da mulher e do homossexual tornaram-se objetos de vigilância e controle social estrito, dado que representavam perigo social por exercitarem as “delícias da carne”.

PODER E MODERNIDADE
O advento da modernidade no Ocidente implicou a medicalização do espaço social. O ideal anterior de salvação foi substituído pelo da cura e da promoção da saúde, como analisou o filósofo francês Michel Foucault (1926-1984) em O nascimento da clínica (1963). Nesse novo mundo, marcado pela morte de Deus, como propôs Friedrich Nietzsche (1844-1900), não existiria mais lei simbólica absoluta que pudesse efetivamente constranger as ações humanas. Os homens seriam destinados à transgressão, uma vez que não haveria mais nenhuma interdição de forma absoluta. Fiodor Dostoievski (1821-1881), leitor atento de Nietzsche, diria então em seu romance Crime e castigo: “Se Deus está morto, tudo é permitido”.

Em oposição à queda decisiva da lei simbólica e à inquietude provocada pela transgressão, entrou em cena a normalização do espaço social, que teve na medicina seu operador estratégico fundamental. Com efeito, foi por meio da medicalização do espaço social que foram elaborados os conceitos de normal, anormal e patológico, os quais passaram a esquadrinhar o espaço social e os comportamentos da população, agora rigorosamente classificados em distintos registros.

As práticas terapêuticas e preventives foram, então, instituídas pelo discurso da medicina para regular e controlar condutas, nos diferentes e complementares campos da clínica e da higiene social. A polícia médica se constituiu como prática e instituição, ao lado da polícia propriamente dita, para realizar a vigilância ostensiva da população com o intuito de controlar a periculosidade social em estado nascente. As demais ciências humanas, que se desenvolveram ao longo do século 19, tomaram por modelo o paradigma teórico e político da medicina, que se transformou em referência antropológica por excelência.

Esse processo de medicalização do espaço social foi contemporâneo à inversão das taxas de natalidade e mortalidade e a ela correlato. O aumento da população foi o resultado mais evidente de tal fenômeno, constituindo uma problemática eminentemente nova para a tradição do Ocidente. Controlar ativamente o incremento populacional se tornou uma questão axial da modernidade, até mesmo porque o deslocamento da população do campo para a cidade se iniciou no mesmo período, em razão do aumento das trocas comerciais e da concentração das atividades produtivas nas áreas urbanas, assim como da posterior emergência da sociedade industrial. Portanto, a vigilância da população urbana pela polícia e pela medicina visava não apenas controlar a periculosidade social, mas também as fontes de doença e de situações de insalubridade.

Além disso, a gestão política da população se impunha de maneira imperativa porque a qualidade de vida das pessoas passou a ser a maior fonte de riqueza das nações, ao lado da extensão de território e dos recursos naturais, como comenta Foucault em A vontade de saber, de 1976.

Quais seriam os signos dessa suposta qualidade de vida? A saúde e a educação da população. Foi em decorrência delas que a medicalização do espaço social se efetivou, assim como se instituiu o ensino obrigatório, de maneira ampla, geral e irrestrita. Uma população bem qualificada seria então aquela bem-educada e saudável. Constituíram-se, desse modo, o biopoder e a biopolítica, como signos insofismáveis da modernidade ocidental, centrados na regulação da qualidade de vida da população.

ARTE ERÓTICA E CIÊNCIA SEXUAL
A partir do século 17 a família extensa foi sendo progressivamente desconstruída, mas sua transformação para a nuclear burguesa surgiu por completo apenas no início do século 19. Com isso, o núcleo familiar passou a ser representado por duas gerações, a dos pais e a dos filhos, excluindo, assim, os avós, a parentela e os agregados. Em paralelo, o poder absoluto do pai foi reduzido, sendo dividido com a figura materna. A mãe começou a ocupar uma posição privilegiada no espaço privado da família, ficando o pai circunscrito ao espaço público. Nesse momento de transformações, o poder paterno progressivamente se desconstruiu.

Contudo, em tal processo, a figura da mulher ficou reduzida à condição de mãe. A sensualidade feminina continuou a se inscrever no registro da reprodução sexual, como delineado na tradição do cristianismo, e forjou-se, então, o mito do amor e do instinto maternos. Houve, entretanto, a radicalização dos pressupostos cristãos: o poder social conquistado pela mulher nesse contexto histórico teve como contrapartida o sacrifício erótico da mulher.

Os pais tinham de se sacrificar em nome dos filhos, dado que as crianças eram a representação efetiva do futuro e da riqueza da nação. Tudo girava em torno delas. Por isso mesmo, como afirma Freud em Introdução ao narcisismo, de 1914, a criança foi erigida e ungida à condição da soberania, ocupando enfim o lugar de “sua majestade”.

Nesse cenário, foram criados os exames prénupciais, com o objetivo de detectar possíveis doenças dos futuros cônjuges, diagnosticar e prevenir anomalias. Tudo isso para que não se comprometesse a saúde da futura prole. A obstetrícia e a ginecologia, como novas especialidades médicas, foram desenvolvidas para debelar possíveis enfermidades das mulheres. Da mesma forma, a puericultura e a pediatria também surgiram para garantir a saúde das crianças ao longo da infância, de maneira a preservar a qualidade de vida da futura população.

Ao mesmo tempo, crianças e adolescentes começaram a ser rigorosamente acompanhados em nome da qualidade de vida. Se no registro escolar foram instituídos indicadores de desenvolvimento intelectual da infância e da adolescência, visando formular devidamente programas escolares do nível mais simples ao mais complexo, no registro moral as práticas eróticas de crianças e adolescents eram agora vigiadas.

A masturbação infantil passou a ser vigorosamente controlada pelos adultos, uma vez que era considerada fonte de múltiplos males, somáticos e morais. Não apenas a fragilização do organismo infantil seria promovida pela masturbação, mas as doenças nervosas seriam também as consequências nefastas dessa prática. Uma verdadeira cruzada antimasturbatória entrou em cena, em nome da saúde e da moral infantil. Ainda que a normalização sexual se disseminasse na população como um todo, as crianças foram o alvo estratégico desse processo.

Os espaços domésticos ocupados por pais e filhos foram diferenciados, dado que as crianças não poderiam mais presenciar as intimidades dos adultos, para que não fossem estimuladas à masturbação e marcadas traumaticamente em sua imaginação pelo erotismo parental. A promoção do ideal da pureza infantil, no que concerne às questões da sexualidade, seria a condição de saúde física e boa formação moral, tendo em vista a constituição de uma população saudável e o controle efetivo de futuras perturbações nervosas.

Foi em decorrência disso que se constituiu uma sexologia no Ocidente voltada para a produção de uma população qualificada. Dessa maneira, em oposição radical às outras tradições civilizatórias, orientais, por exemplo, onde existia a arte erótica – como gramática de transmissão da experiência sobre o sexual –, o Ocidente construiu no século 19 uma ciência do sexual.

O surgimento da psicanálise, na passagem do século 19 para o 20, foi o contraponto desse processo. Ao formular a existência de uma sexualidade infantil, de tipo perverso-polimorfa, Freud separou o registro da sexualidade, voltado para o gozo e o prazer, do registro da reprodução sexual. Assim, a figura da criança perdeu para sempre a marca da pureza, estando permeada desde cedo pelo erotismo. Foi inaugurado outro tempo nas relações entre sexo e sociedade, que atravessa ainda hoje nosso horizonte político e social. Foi sobre esse solo que se inscreveram as transformações radicais ocorridas no século 20, nos registros do erotismo e dos laços sociais, esboçando outras figurações para o masculine e o feminino. Com isso, delineou-se uma nova ordem familiar.

Autor: Joel Birman
Fonte: Mente e Cérebro

A Tradição de Lilith acredita que o estudo da história da sexualidade humana favorece diferentes tipos de interpretações e conexões com a Deusa Lilith. Dentro desta óptica, apresentamos abaixo um texto cujo estudo pode favorecer o aprofundamento de nossa compreensão e experiência em Lilith. Compreender as relações do desenvolvimento da civilização e da cultura com a Bruxaria como Caminho Espiritual nos dá Conhecimento, e conhecimento é Poder.

As religiões de origem abraâmica [cristianismo, judaísmo e islamismo] envolveram o sexo de “mistério” [tabu e preconceito] com finalidades políticas, para encobrir e controlar a Liberdade original da alma humana.

Consciência e libido estão relacionadas, desde a criação até a morte, em todo o Universo.
Quanto mais uma pessoa estabelece um bom relacionamento com sua libido, mais livre se torna sua consciência. Tal libertação não é possível se a libido escravizar a mente do indivíduo, e isso é o que a religião faz tão bem: ao apresentar a sexualidade e o corpo como frutos do mal e do pecado, a pessoa é tomada pelo desejo e suas operações mentais passam a girar em torno dele, como uma necessidade inconsciente de saciar algo que nunca será tocado – e se o for, o indivíduo deve punir-se incansavelmente.

Essas estruturas de funcionamento ainda operam em nosso inconsciente, de modo que o desenvolvimento espiritual dentro da bruxaria precisa, em seu início, trabalhar a sombra abraâmica

Fonte: Tradição de Lilith

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