Celebrando Ostara

Eu estou próximo de completar 50 anos. Em termos humanos, minha vida vai durar no máximo mais 40 anos. Eu comecei minha busca quando completei 21 anos. Eu comecei a trilhar o que eu chamo de Caminho no Bosque Sagrado aos 36.

Minha péssima reputação tem muito a ver com o tema deste blog e com o incômodo, até mesmo entre pagãos, que é discutir e questionar os padrões impostos pela sociedade ocidental quanto ao que se convenciona como faixa etária, idade de consentimento e relacionamentos entre indivíduos de diferentes idades.

Até não muito tempo atrás, era um escândalo o relacionamento entre diferentes etnias. Até não muito tempo atrás, era um escândalo o divórcio. Até não muito tempo atrás era um escândalo o relacionamento homossexual. Até não muito tempo atrás o adultério era ilegal. Ainda é um escândalo falar em poliamor e relações livres.

Mesmo diante dos fatos da atualidade, reconhecer que a criança e o adolescente tem sexualidade é provocar a histeria e a paranoia contemporâneas. Mas as noticias estão aí. Cada vez é mais comum ver adolescentes grávidas ou se relacionando com homens adultos. A cada ano, através do acesso à informação, crianças e adolescentes estão amadurecendo mais prematuramente, sem que a sociedade lhes dê educação e orientação sexual.

Não podemos nos esquecer de que nossa sociedade acha normal a sexualização precoce de crianças e adolescentes promovido pela propaganda. Como não podemos nos esquecer de que a sociedade tolera a pornografia e a prostituição, fenômenos que apenas pioram e agravam os distúrbios sexuais.

Nós rompemos com os padrões religiosos da sociedade, mas não conseguimos romper com o puritanismo sexual, ainda temos a mesma concepção ingênua de que a criança e o adolescente são assexuados, são ingênuos, são inocentes. Como disse o sábio, não existem inocentes.

Eu cansei de toda esta luta, de tentar esclarecer os fatos, de denunciar as fraudes, de desmascarar os farsantes. Eu vou cuidar de mim, honrar meus ancestrais e servir aos Deuses. Eu desisto de procurar por um coven tradicional, para receber o devido treinamento e iniciação, sobretudo depois da infeliz ideia de uma sacerdotisa tradicional ter ordenado um pagão, um sacerdote autoproclamado, cujo sacerdócio e popularidade foram construídos pela propagação da neo-wicca.

Com todo esse cansaço, frustração e desamparo, eu fui celebrar Ostara em meu santuário. Eu pedia força, coragem e ânimo aos meus ancestrais e Deuses. Eu pedia pela renovação ao meu Senhor e à minha Senhora. Então a campainha tocou, anunciando a chegada de visitas. Eram minha cunhada e minha sobrinha. A cunhada foi falar com a irmã dela, minha esposa. Minha sobrinha veio me saudar, me abraçou, me beijou e foi ao quarto de despensa, onde ficam meus livros, o computador e meu santuário. Eu a segui, achando que ela fosse querer mexer no computador, mas a encontrei encantada com meu santuário.

– Tio, o que é isto?

– Este é meu santuário, onde eu faço meus rituais.

– Eu quero fazer rituais também. O senhor me ensina?

Hesitei alguns instantes. Eu não saberia dizer se ela falava sério. Eu não saberia dizer se ela tinha maturidade suficiente. O desejo dela era sincero e honesto, mas outra pessoa poderia achar que eu a estou aliciando.

– Eu acho melhor você perguntar a sua mãe se você pode, afinal, sua mãe é cristã e eu faço rituais pagãos.

Ela ficou bem séria. Ela chegou bem perto de mim. Ela não é criança, mas também não é adulta. Eu poderia dizer que ela é adolescente, mas não existem padrões fixos para faixas etárias.

– Tio, eu não sou criança. Eu sou grande. Eu não preciso mais pedir permissão para minha mãe.

A declaração dela foi firme e decidida. Eu comecei a explicar os objetos no santuário. Eu mostrei meu Livro das Sombras. Mostrei como eu montava os objetos, qual a função de cada um e mostrei em qual parte do ritual eu parei.

Achei por bem não fazer um ritual inteiramente tradicional. Quando eu me ajoelhei e beijei sua barriga sobre sua camiseta ela riu. Quando encerramos o ritual, ela ajudou a desmontar os objetos.

– Ah, vocês estão aí. Estão se divertindo?

– Mamãe, o tio me ensinou e me deixou fazer um ritual pagão.

– Que bom, meu amor. Você gostou?

– Sim, eu gostei muito e gostaria de fazer mais rituais pagãos com o tio.

– Seu tio vai nos avisar quando for o próximo ritual. Nós podemos fazer juntas o próximo ritual, que tal?

– A senhora vai fazer rituais pagãos mesmo sendo cristã?

– Claro que vou. Não tem problema algum, tem, cunhado?

– Para mim, não. Se você puder estar presente será ainda melhor. Mas outros cristãos podem criar problema.

– Pois eu não dou conta da minha vida a quem quer que seja. Eu quero aprender e fazer os rituais com a minha filha.

Minha sobrinha puxou minha cunhada. Satisfeito com o acerto, eu mostrei a data do próximo ritual que seria em uma noite de lua cheia. Os votos de sigilo me impedem de contar detalhes. O que eu posso dizer é que agora eu tenho duas sacerdotisas para meus rituais. Sendo que nem sempre estamos em rituais para os atos de amor e prazer. Por que todo ato de amor e prazer são os rituais dos Deuses.

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