O caso Keller – XII

Magritte entra na Ville de Siena, um bairro adjunto ao Ville de Monaco. Para quem vive em bairros comuns ou periferia, não há muita diferença entre esses bairros feitos pela e para a Alta Sociedade. Mas o inspetor conhecia o gênero humano o suficiente para perceber as sutis diferenças entre um bairro feito para gente que acredita ser aristocrata e um bairro construído para novos ricos. Pobres coitados, eles acreditam que tem sangue azul, eles veem como escória gente como eles, cujo único pecado que cometeram foi a de ter enriquecido. Esse bairrismo é mais compreensível quando se fala em zona norte e zona sul, entre bairro de italianos e espanhóis, ou outras distinções mais profundas do que o nível econômico ou suposta nobreza de seus habitantes.

A residência dos Keller é grande suficiente para três famílias suburbanas morarem, mas para os padrões dos esnobes é um cortiço. A iluminação é publica e não funciona muito bem. Os raios do sol diminuem e as sombras da noite se avizinham, deixando tudo cinza. Magritte vê um vulto próximo da entrada, ele não vê o rosto e nem precisa, sabe exatamente quem o aguarda.

– Mau movimento, inspetor. Eu não posso deixar o senhor entrar.

– Eu entrarei, Wilson.

– Então morrerá, inspetor.

O capanga de Lucia se aproxima, silenciosamente. Magritte imagina que tipo de treinamento ele teve, quais técnicas de artes marciais deve utilizar. Quando era policial, Magritte cruzou diversas vezes com pessoas que diziam ser peritas em artes marciais. Corpos treinados, ágeis, mortais, mas muito cheios de firulas e movimentos rebuscados desnecessários. O inspetor sorri ao lembrar-se da surra que deu em um tipo que se achava Bruce Lee. Estava na hora de ver o quanto Wilson aguentaria. Estava na hora de sorrir de volta para a morte.

Uma breve pausa para pular a descrição irrelevante da luta. Cinco minutos parece bom. Magritte ainda está em pé, mas muito mal. Wilson está bem pior. Várias fraturas e ossos quebrados. O corpo do capanga resta silente rente ao muro, esvaindo em sangue. Não dá para saber de quem é o sangue. O inspetor checa os sinais vitais. Os olhos baços confirmam que Wilson partiu deste mundo. Sirenes. Policiais ou paramédicos? Magritte ouve alguém gritando algo em sua direção. O inspetor mostra o distintivo e cai desacordado. Este é o fim? Magritte nada sente. Nem mesmo frio. Apenas apaga.

Uma longa pausa para pular a cena de resgate. Quatro horas parece bom. No leito 171, Magritte desperta e se vê na Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Geral de Murano. Dor e calor. Seu corpo está cheio de ataduras. Seus braços estão perfurados com agulhas que saem de sacos de medicação, contendo anti-inflamatório, antibiótico, analgésico.

– Inspetor? Que bom! O senhor acordou! Espere que o doutor vem daqui a pouco lhe falar. E depois o senhor tem uma visita.

O médico não tem muito que lhe dizer. Não é necessário ser um gênio. Magritte está mais interessado na visita. Seria o comissário, o delegado ou a senhora Keller? Ou será que a senhora Montmart enviou algum substituto do Wilson para fechar a fatura? Seja quem for, não sabe do que ele é capaz.

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