Arquivo mensal: abril 2015

O fantasma na máquina

Shakti e Deva saíram depois de tomar uma garrafa de uma bebida alcoólica e comer um prato feito com muita carne. Antes de saírem, comparam de Gretel alguns casacos feitos com couro e peles. Retomaram a estrada e notaram que alguns dos frequentadores da taverna as espiavam com um olhar desconfiado e ameaçador.

– Deva, por mais rápida e habilidosa que eu seja, eu não poderei lidar com um ataque de muitos destes bárbaros. Talvez devamos comprar com a Gretel uma espada para você.

– Creia-me, Shakti, eu não preciso de espada. Mas nós podemos convidar o cavalheiro que compartilhou a mesa conosco.

– Eu não confio nele. Eu senti que ele pretendia nos usar de alguma forma para retomar a coroa que perdera.

– Então talvez devamos nos deixar usar, assim chegamos mais rapidamente ao palácio do rei atual.

– Ali no palácio haveremos de encontrar muitos doutores e pensadores. O que faremos contra o ataque deles?

– O que sempre fizemos com pensadores, filósofos e doutores que vinha ao santuário, repletos de arrogância, prepotência e autoritarismo. Deixaremos que bebam do próprio veneno.

Shakti e Deva prosseguiram pela estrada, percebendo que estavam sendo seguidas. No entanto a carruagem que as seguia não tinha cavalos, mas se movia, fazendo um curioso barulho. Quando a estranha carruagem passou ao lado, um homem abriu uma janela e as saudou de dentro.

– Senhoras, permitam que as acompanhe. Eu soube que mulheres vindas do santuário viajavam pelos reinos. Eu não pretendo usá-las, eu diria que perder a coroa foi a melhor coisa que me ocorreu. Não que as senhoras precisem de minha companhia, mas em terras tão violentas, uma pessoa e uma espada a mais vêm a calhar.

– Que carruagem estranha é esta que se move sem cavalos?

– Isto, senhoras, é um veículo. Isto se movimenta pela força de um motor. Se tiverem um tempo, eu lhes posso mostrar e explicar como funciona.

Curiosas e interessadas, ambas pararam na margem da estrada e deixaram que o cavalheiro mostrasse e explicasse o que era um veículo. Olharam maravilhadas o motor, viram as engrenagens, ouviram que a energia do motor vem de um fluído flamejante, viram como se conectavam as rodas com o volante, sentaram na cabine do veículo, apreciaram o conforto.

– Que maravilha interessante o veículo. Como será que o homem aprisionou um espírito nessa máquina para que ela se movesse?

– Oh não minha senhora. Não há espírito algum aqui dentro. Um veículo se move apenas pelas ações de combustão e transmissão da força. Tal como na natureza, onde as coisas acontecem sem necessitar de um espírito ou entidade.

– Oh. Entendo. O senhor pode dar a partida nesse veículo para nos levar até o palácio do rei do norte?

O cavalheiro, cheio de si, inseriu a chave na fenda que tinha no painel do veículo, girou e… nada. Nenhum sinal. Nada ligava, nem as luzes de controle. O cavalheiro vasculhou o veículo todo, esmiuçou em cada detalhe, mas não conseguia encontrar o que estava causando o defeito em seu funcionamento.

– Algum problema, cavalheiro? Eu pensei que o veículo se movia por conta própria, sem necessitar de um espírito ou consciência.

– Eu… eu não sei. Eu não achei qualquer defeito. Tudo no veículo está em ordem.

– Aqui está o defeito, cavalheiro. Em minhas mãos eu segurei o espirito que emprestava seu ânimo ao objeto. Algo somente pode se mover se tiver algum tipo de consciência. O homem pode observar a natureza, mas não a entenderá enquanto perceber apenas como ela funciona, como se fosse um mecanismo, sem se dar conta de que um objeto pode se mover apenas quando há uma energia agindo ali e toda forma de energia é consciente.

O reino do norte

Shakti conduzia a carruagem pela estrada que as levaria ao reino do norte, saindo do reino do leste. Conforme avançavam, Shakti percebeu como a paisagem se modificava, a natureza transformava-se em outros tons e o clima ficava mais frio. Shakti ficou imaginando se é por causa disso que esse reino tornou-se tão falado como sendo racional, científico, emocionalmente indiferente. Totalmente aversos à intuição, condenava tudo que fosse espiritual como sendo mera superstição. Curiosamente acreditavam que sua Ciência e sua Razão poderiam explicar todo o Universo, esquecendo que são conceitos imateriais, impossíveis de terem sua existência provada pelo método que eles consideram ser o único válido. Suas elucubrações sobre o mundo eram o mesmo que um rato tentando explicar o queijo por uma ratoeira.

– Você está pensativa, Shakti. Algum problema?

– Nenhum Deva. Eu estava apenas conjecturando sobre se o reino do norte ter se tornado tão desumano por causa do ambiente em que vivem.

– Ah. Você acha que o frio induz a uma mentalidade mais compenetrada e que o calor induz a uma mentalidade mais expansiva. Sem dúvida em tempos de frio nós ficamos mais introspectivos, mais reservados. Em tempos de calor nós ficamos mais extrovertidos, mais agitados. Mas se fosse assim, os habitantes do norte alterariam seu comportamento ao virem para o sul e vice-versa. Eu acho que é uma especulação inverossímil. Eu acho que tem mais a ver com a natureza da pessoa do que com a natureza do ambiente. O que me atiça a curiosidade é como o rei deste reino chegou a esta condição, mesmo depois de ter recebido minha doutrina.

– Antes, temos que pensar em como vamos chegar até o castelo e palácio do rei do norte. Eu estuo congelando!

– Haha! Concordo. Ali tem uma taverna. Vamos tomar algo que nos esquente, ver se podem nos vender uma roupa mais adequada e comer algo que eu estou faminta.

Shakti e Deva entram na taverna, bastante alegre e movimentada, cheia de homens, vestidos com pesadas roupas de couro e peles. As poucas mulheres que ali estavam zanzavam de um lado a outro, atendendo as mesas e aos pedidos, servindo comida e bebida. Uma mulher incrivelmente alta e corpulenta as recebe na taverna.

– Gutnon! Vocês querer comer, beber?

– Sim, obrigada. Aqui vocês teriam roupas para nos vender?

– Dah! Vocês de fora sem roupa quente. Gretel tem roupa quente, vende barato.

– Obrigada, Gretel. Traga uma bebida forte que nos esquente e a melhor comida desta taverna.

– Dah! Schnap e boidel para duas!

– Com licença, senhoras. Permitam-me acompanha-las. Estas terras têm homens que não tem muito tino para cortesia e educação. Eles não estão acostumados a ver mulheres sozinhas em suas tavernas.

– Sente-se, cavalheiro e peça algo. A quem devemos a honra de tal companhia?

– Eu sou o rei do norte. Ou eu era, até a pouco. Aqui no norte as coroas dançam tão rápido quanto as adagas.

– Engraçado, eu não me lembro de tê-lo recebido em meu santuário.

– Ah! Vocês devem ser do santuário. Aquele rei morreu faz tempo. O coitado trouxe ordem e unificação aos diversos povos, mas não sobreviveu aos reinos que surgiram e as constantes guerras entre os reis.

– Então a fama de serem racionais, científicos, é falsa?

– De forma alguma, senhora. Reis e reinos em ascensão, procurando aumentar suas riquezas e posses, vão patrocinar qualquer recurso disponível. Os doutores e pensadores fizeram fortunas, nenhum teve escrúpulo em seu racionalismo e cientificismo em desenvolver máquinas mortais.

– Isso explica por que são tão aversos à espiritualidade e à religião. Precisam acreditar que não existe moral, que a vida não tem valor, que suas ações não têm consequências. Eles não estão agindo pela razão, mas pelo poder.

Sempre haverá o dia seguinte

Shakti despertou percebendo que estava sendo observada. Ao virar o rosto, ela deparou-se com Deva reclinada ao seu lado, com aquele sorriso enigmático que a deixava sem jeito.

– Bom dia, Deva. Perdoe-me por ter dormido. Você precisa de algo?

– Oh! Acabou toda aquela formalidade? Até que enfim. Você dormiu bem, Shakti? Um bom descanso é importante depois dessa atividade. Pelo sorriso do Iluminado e por suas feições, vocês devem ter se divertido muito. Eu vou querer saber tudo. Principalmente como você se sente. Esta é a primeira vez que você executa este tipo de prática, não é?

– Sim, foi a minha primeira vez com um homem. A sensação é boa, mas diferente das vezes que você praticou comigo. Quando você me tocava, a sensação é de fraternidade. Com o Iluminado, eu me senti completa.

– Você sentiu, ainda que por um breve instante, a mais absoluta plenitude. Por alguns instantes você perdeu todos os sentidos, a noção de identidade, de personalidade, de individualidade. Esta é a mesma sensação quando o corpo está próximo de morrer. Por isso que dizem que o êxtase é uma pequena morte. Não sentiu medo de nunca mais acordar?

– Não. A conversa que eu tive com o Iluminado me fez ver que o medo é apenas uma reação instintiva, uma reação de sobrevivência. Não há o que temer. Por sua natureza o corpo quer sobreviver, mesmo sabendo que está fadado a perecer, então ele tenta a todo custo manter a alma aprisionada em si. Mas o corpo não é proprietário da alma e a minha alma que habita este corpo é imortal, isto que eu sou continuará a existir mesmo depois deste corpo perecer. Eu simplesmente acordaria no dia seguinte por que sempre haverá o dia seguinte.

– Pelo visto a conversa e a consumação foram boas. Como você conseguiu, Shakti? Eu estou curiosa para saber como conseguiu superar suas inibições, visto que sentia tanta vergonha.

– Eu percebi que eu estava em um impasse. Por anos eu te ouvi falar a doutrina e eu ouvi aquilo que o Iluminado me disse, mas palavras não iriam mudar meu estado, eu precisava ter uma atitude, eu precisava de uma ação. Eu então parei de pensar como se fosse eu ali presente, mas você. Eu parei de agir como eu agia e passei a agir como você agiria. Eu deixei de lado o papel e o roteiro que eu havia criado e imaginado para essa personagem chamada Shakti. Eu deixei que meu personagem fosse Deva. Eu te imitei e despi o Iluminado, me despi, me posicionei por cima do Iluminado e coloquei a parte dura do Iluminado dentro de mim. A partir deste ponto, corpo, mente e alma se movimentaram em sincronia. Meu corpo e o corpo do Iluminado uniram-se, fomos envolvidos por algo que parecia ser uma onda, uma energia, uma explosão e sumimos dentro do arrebatamento do êxtase.

– Eu senti quando você mergulhou dentro de mim. Agora você entende quando eu te digo que eu e você não somos muito diferentes? Possuímos corpos distintos, nossas almas se manifestam em espaços distintos, nesse mundo fenomênico nós criamos diferentes identidades e personalidades, mas nós compartilhamos a mesma essência. Este é o cerne de toda a minha doutrina Shakti. Você não precisa de coisa alguma senão de ti mesma para encontrar sua essência. A união do princípio feminino com o princípio masculino pela conjunção dos corpos é a chave para a iluminação. Quando esteve com o Iluminado dentro de você, o prazer abriu as portas da percepção. Ainda que estivesse imersa no oceano da minha divindade, você viu pelos meus olhos o meu Consorte? Viu o Iluminado imerso no fogo da divindade dele?

– Então é por isso e para isso que unimos os corpos? Sem a união do Deus e da Deusa, nada existiria. Sem a união do homem com a mulher, não despertaríamos. Sem o corpo, o desejo, o prazer, não há iluminação. Enquanto separarmos o corpo da alma, a matéria do espírito, continuaremos a criar falsos medos, falsas inseguranças, falsas crenças a respeito de nós mesmos, falsos conhecimentos a respeito do mundo, falsas interpretações a respeito do divino. Apenas levantando os véus é que podemos rasgar a ilusões de Maya.

– Então você agora entende por que eu não recuso abrir meu corpo a quem quer que me deseje? Agora entende que você também é digna de ser amada e me amar? Agora entende que, como minha sucessora, deverá estar pronta para se abrir e receber a todos?

– Não fale nisso, Deva. Eu não quero pensar nisso. Falar em sua sucessão enquanto ainda está viva não é apropriado. Eu ainda quero desfrutar de sua companhia por muito tempo, eu ainda tenho muito que ouvir e aprender.

– Oh, Shakti, meu amor! Consegue encarar sua finitude, mas é incapaz de aceitar que esta minha manifestação há de conhecer sua finitude! Tudo que você precisa fazer é me amar. Eu hei de continuar a existir quando este corpo perecer. Sempre haverá o dia seguinte.

Shakti e o Iluminado

A tarde anunciava a chegada da noite quando Deva e Shakti entraram no reino do leste e foram convidadas a tomar chá no palácio do Iluminado. Deva ficou sonolenta e Shakti a acompanhou até um quarto de hóspedes indicado pelo Iluminado. Shakti nunca havia visto Deva cansada ou com sono, então pressupôs que era um artificio de Deva para deixa-la mais à vontade para conversar com o Iluminado. Depois de colocar Deva na cama e cobri-la, Shakti retornou até a sala de chá, onde encontrou o Iluminado placidamente sentado, em uma postura que ela vira diversas vezes no santuário. Shakti sentou-se ao lado do Iluminado com a intenção de fazer as perguntas que a incomodava.

– Iluminado, o senhor reconheceu a Deva. De onde conhece Vossa Santidade?

– Faz um bom tempo que eu conheci a Senhora. Eu a achei depois de perambular muito pelo mundo. Eu perdi a conta de quantos templos, credos, ordens e religiões eu conheci até chegar à Senhora. Mas eu não a reconheci, o que indica que eu estou ficando velho.

– Eu conheço Vossa Santidade desde que era criança e vi muitos homens irem e saírem do santuário. Ela resolveu sair do santuário para ver o que aconteceu com estes que a visitou. No reino do sul tivemos uma tremenda decepção, mas teu reino está melhor. O senhor sabe por que houve tanta diferença entre os reinos?

– Você é muito gentil, Shakti, mas meu reino não está bom. Eu tentei, com todas as minhas forças, ensinar o que aprendi com a Senhora, mas infelizmente o homem não está preparado para entender. Eu acho que foi isto o que aconteceu com o reino do sul. A mensagem da Senhora é clara, simples, evidente, mas o homem irá interpretar conforme seus objetivos.

– O reino do sul estava perdido em ganância, egoísmo, violência, ódio, miséria e pobreza. Como alguém que conheceu e recebeu a Sabedoria de Vossa Santidade pudesse permitir tal coisa?

– Eu não conheci o rei do sul, eu não conheci o povo do sul, mas eu aceito que as coisas e as pessoas são como devem ser. Então eu ensinei que o sofrimento é resultado de nossas ações, com a intenção de que cada um tivesse consciência e responsabilidade de seus atos. Mas ao invés disso, procuram ajudar os carentes, favorecendo a promissora Empresa da Miséria. Eu tentei ensina-los a pensar por conta própria, mas vivem recitando meus discursos como se fossem a Verdade. Eu tentei lhes ensinar sobre a constante mudança, falando sobre os ciclos da existência, mas o que entenderam é que tudo é impermanente. Eu tentei lhes ensinar que todos nasceram da mesma Fonte e a Ela devem retornar, mas o que entenderam é que é necessário o desapego. Eu não irei permanecer neste mundo por mais tempo, mas receio que não posso fazer coisa alguma para evitar que meus ensinamentos se tornem mais uma sistematização, uma burocratização, uma religião.

– Vossa Santidade sempre tenta me ensinar, mas eu devo ter as mesmas limitações e defeitos dos homens. Quando Vossa Santidade fala comigo, eu me sinto com vergonha, com culpa, com medo. O pior é que eu não sei o porquê. Vossa Santidade é gentil, bondosa, amorosa, mas por algum motivo eu me sinto como se eu tivesse algum problema ou erro e me sinto constrangida, ainda que Vossa Santidade tenha apenas compaixão por mim. Eu te peço, Iluminado, como eu posso vencer meus medos, minha insegurança e minha vergonha?

– Oh. Eu conheço isso muito bem. Eu recordo como eu me senti quando conheci a Senhora. Eu sei muito bem o que sente e sei o motivo, mas apenas você tem o poder para superar estas limitações, por que você mesma as criou. Pergunte-se Shakti por que você se sente envergonhada? Do que tem medo? Por que tem medo? Por que você acredita ter algum problema, falha, erro, defeito? Ouça aquilo que você responde, não com crítica, mas com compreensão, compaixão e amor. Entenda-se, se aceite, perceba-se. Enfrente o que te incomoda.

– O que me incomoda é de não ser merecedora do cargo de assistente de Vossa Santidade. De não ser capaz de enfrentar meu medo. De não ser capaz de superar minhas inseguranças. No santuário, eu treinei meu corpo em diversas artes marciais e sou uma espadachim incomparável, mas eu não consigo e controlar quando veja Vossa Santidade com os homens.

– Ah! Então sente ciúmes ou inveja da Senhora! Seu medo é na verdade uma reação secundária ao seu ciúmes ou inveja, visto que acredita que é inferior à Senhora. Sua insegurança, esse sentimento de que tem algum defeito, falha, erro, são decorrentes de suas crenças enganadas a seu respeito, a respeito da Senhora e do relacionamento que vocês têm. Diga-me Shakti, o que a Senhora possui que você sente tanta inveja, o que você quer dela que te faz sentir tanto ciúme?

– E- eu… estou começando a sentir o mesmo agora, mas com o senhor! Eu sinto vergonha, medo, insegurança como eu sinto quando eu estou com Vossa Santidade.

– Isso indica que a origem de sua reação está em você, não na Senhora, não no relacionamento, não no santuário, não na doutrina. Então seja sincera consigo Shakti e diga como você se sente a seu respeito, a respeito da Senhora, a respeito do santuário, a respeito da doutrina? O que você vê na Senhora de tão especial que você mesma não tenha? O que você acha que os homens têm que merecem mais atenção do que você da Senhora?

– Eu não sei, Iluminado. Eu sou uma mulher, não sou muito bela, não sou muito sábia. Eu sei que achei meu lugar no santuário e exerço minhas obrigações com extrema eficiência. Mesmo assim me sinto deslocada e estranha no santuário quando faço meus treinos físicos e marciais. Eu sei que Vossa Santidade tem um enorme apreço por mim, senão eu não seria sua assistente. Mesmo assim eu fico incomodada quando ela me dá a mesma atenção que ela dá aos homens.

– Acredita realmente que não é bela nem sábia? Devia se ouvir pelos meus ouvidos e se ver pelos meus olhos. Eu poderia até me dar a permissão de sentir ciúmes e inveja de você, por estar sempre tão perto da Senhora. Sem perceber, você declarou o quando acredita em si mesma. Sem perceber, sua disciplina corporal é o treino mais eficiente para a mente e o espírito. Sem perceber, reconhece o amor que tem pela Senhora. Sabe, Shakti, eu alcancei a Iluminação debaixo de uma árvore, jurando pela terra, sendo ameaçado pela sombra que eu mesmo criei. Eu desfiz as ilusões criadas por mim, ao perceber que aquela árvore era o corpo da Senhora, ao perceber que o solo é o corpo da Senhora. Você, abençoada, tem o corpo da Senhora para jurar, o que te falta é perceber que você é uma manifestação da Senhora. Você não tem defeito algum, não tem falha alguma, não tem problema algum, todas estas coisas somente existem quando você acredita que existem.

Shakti ficou ruborizada. Ela tinha tirado a serenidade do Iluminado. Ela conhecia bem a reação dos homens diante de uma mulher, diante de Deva. O Iluminado não tinha aparentado qualquer comportamento ou reação que costumeiramente acontece com um homem. No entanto, era bem visível que sua presença e sua conversa com o Iluminado havia deixado ele excitado. Shakti não tinha muita certeza do que devia fazer. Apenas pensou em como Deva teria agido. Shakti despiu o Iluminado, despiu-se e então, sentada no colo do Iluminado, venceu sua batalha final contra si mesma.

Liber 69

Gerald Gardner é o Pai da Wicca e Aleister Crowley é o Tio. Quando Doreen Valiente deu forma ao Livro das Sombras, ela tentou esconder nosso parentesco com a Thelema. Mas basta uma leitura da Liturgia para ver que a sombra da Besta ainda está bem viva na Wicca Tradicional.

Quando Perdurabo escreveu a Lei, esta chegou até nós pela Carga da Deusa e dizemos sem nenhum prurido que o Amor é a Lei, tal como nosso Tio havia dito. Mas a Lei acrescenta: Amor sob Vontade. Dizemos também: “Faça tudo que tu queres, desde que não prejudique alguém”, uma sombra da Lei que diz: “Faça o que tu queres, haverá de ser o todo da lei”.

Dizemos em nossos rituais de que a nudez ritualística é um sinal de que somos livres, mas como podemos ser livres se nos submetemos a sacerdotes, a linhagens, a tradições, a fórmulas, a sistemas burocráticos?

Então devemos entender o que entendemos por Amor, Lei, Vontade e a Liberdade. Devemos entender como tudo isso tem a ver com a nudez ritual e o sexo como ferramentas de iluminação espiritual.

Tudo que você precisa é Amor

Esse é o titulo de uma música dos Beatles, um reflexo e consequência da Contracultura. Mas amor a que ou a quem? Quando falamos em amor, falamos de Eros ou Afrodite? Amar a si mesmo é amor ou auto complacência? Amar a outrem é sublime ou carência? Amar tem regras, tabus, proibições, condições? Se o Amor fosse autossuficiente, teríamos respostas, não perguntas. Para haver amor é necessário que haja vontade e liberdade.

Amor sob Vontade

Parece contraditório quando tio Crowley disse que o Amor é a Lei, Amor sob Vontade. Mas ele disse também que a Vontade é a Lei, ao anunciar o “faça”, mas quem é “tu”? O “tu” crowleyano é e não é eu, você, ele, nós. O “tu” crowleyano é o Espírito do verdadeiro Eu, nosso aspecto divino, nossa essência e natureza que transcende a individualidade, personalidade, identidade. Quando a humanidade age pelo Espírito, a ação não é egoísta, mesquinha, gananciosa. Quando agimos pelo Espírito, agimos por valores e princípios supremos, divinos. Portanto, tudo o que “tu” faz haverá de ser a Lei e a Lei é o Amor, Amor sob Vontade. Mas se falamos em Lei e Vontade como absolutos, onde fica a Liberdade?

Amor sob Liberdade

Nós vivemos em um mundo fenomênico, temos uma vida carnal cheia de restrições. Nossa condição mortal e humana nos faz conviver em grupos, tribos, clãs, sociedades. Para coexistirmos criamos leis e normas, nomeamos governantes, sustentamos um sistema. Nós criamos um ambiente artificial por que não sobreviveríamos em um ambiente natural. Nós criamos um mundo feito de ilusões. Para superar a ilusão de que nós somos distintos, separados, sacerdotes iluminados criaram as religiões de mistério onde, o homem, depois de um árduo treinamento e experiência pessoal, recebe uma ordenação, uma iniciação como sinal de que alcançou a iluminação. Parece contraditório dizer que o homem precise de um sistema para superar o sistema e conquistar a liberdade. Apenas usando as ferramentas do sistema podemos perceber suas contradições e hipocrisias, nos conduzindo à liberdade. Apenas usando as sensações do corpo, do desejo, do prazer, do sexo, que conseguimos superar e transcender as restrições da vida mortal, nos conduzindo à liberdade.

Toda forma de Amor é Vontade e Liberdade

A Revolução Sexual é apenas um dos aspectos da Contracultura que sacudiu o mundo contemporâneo. O que motivou a Contracultura é o antigo sonho do homem para que seja feita a Vontade e que haja Liberdade. Quem se encontra comodamente no trono do mundo fará qualquer coisa para se manter. Tiranos, ditadores, nobres, reis, governantes, sacerdotes.

A forma mais simples de manter um sistema é através do medo, do ódio, da intolerância, da ignorância, da frustração, do recalque, da opressão, da repressão. Seja Estado, Igreja ou Sociedade, o Sistema se sustenta ao criar uma desigualdade artificial, um bode expiatório, um falso inimigo, uma falsa solução. Enquanto sustentarmos um Sistema, não podemos agir conforme a Vontade, nem podemos ter a Liberdade. Não é para menos que um Sistema depende de produzir e reproduzir a agressividade, o ódio, a intolerância, o preconceito, a discriminação.

Para haver Amor é necessário que haja Liberdade. Ouçam a voz do Profeta do Profano que diz que todos são livres para amar quem quiser, quantos quiserem, havendo consentimento e maturidade.

Para conquistarmos a Liberdade, precisamos conhecer a Lei. Ouçam a voz da Besta que diz que restrição é a palavra de pecado.

Para conhecermos a Lei precisamos agir conforme a Vontade. Ouçam a voz do Eu que diz que as ações são mais eficientes do que as palavras.

Amor não pode se manifestar como Vontade sem Liberdade. Ouçam a voz dos Antigos que dizem que todos os atos de amor e prazer são rituais dos Deuses.

Quando manifestamos a Vontade, afirmamos nossa Liberdade, portanto, Disciplina é Liberdade. Ouçam a voz da Deusa Estrela e do Deus Selvagem, reúnam-se na lua cheia; dancem, cantem, façam música e amor. Que a reunião dos corpos no Hiero Gamos nos conduza ao arrebatamento do êxtase infinito.

Entre a hipocrisia e a histeria

Não é novidade que os meios de comunicação são sensacionalistas e buscam garantir sua audiência a qualquer custo. Aquilo que é considerado matéria tem mais interesse em seu potencial comercial do que em seu potencial informativo. Os meios de comunicação refletem o estado de hipocrisia e histeria de sua sociedade. Nossa sociedade mantem no século XXI a mesma mentalidade do século XVIII.

Como podemos entender e interpretar a polêmica construída em cima da menina funkeira? Por que ela não pode cantar e dançar funk, mas uma mulher pode? Por que uma mulher pode posar com lingerie ou biquíni em revistas de moda e uma menina não pode? Por que a sociedade tolera a pornografia ao mesmo tempo em que condena a prostituição?

Existe uma correlação entre essa moral hipócrita, esse falso puritanismo, essa censura velada à sexualidade e a repressão e opressão sexual. São as mesmas raízes e causas que tornam polemico defender o direito da comunidade LGBT. São as mesmas raízes e causas que tornam polemico falar em educação sexual e na sexualidade infantil. E isso tem tudo a ver com o Cristianismo e sua doutrina. E isso tem a ver com o Sistema tentando comercializar e mercantilizar as ideias e os princípios da Contracultura e da Revolução Sexual.

O Sistema consiste na produção e reprodução de uma economia da desigualdade. O Sistema depende de manter o sexismo, o machismo, o patriarcado, a misoginia, a coisificação e o fetichismo. A sexualidade, o corpo, o prazer, o desejo, o relacionamento e o amor apenas podem existir nesse Sistema na forma de ideias ou produtos que possam ser comercializados. Qualquer expressão que não possa reforçar ou endossar o Sistema será considerado proibido, crime, tabu. Interessa ao Sistema que o amor, sexo e relacionamento sejam mantidos controlados, reprimidos. Interessa ao Sistema banalizar e vulgarizar a sexualidade. Interessa ao Sistema patrocinar qualquer coisa que evite que o ser humano exerça sua liberdade.

A publicidade usa a sensualidade para reforçar o sistema e se torna sexista. A pornografia extrapola na coisificação da mulher para reforçar o sistema e se torna machista. O funk é a expressão do Sistema em forma de som. Os meios de comunicação ressaltam e reforçam a ideia de que a mulher deve ter uma determinada estética. Os meios de comunicação ressaltam e reforçam a ideia de que é normal e desejável que a mulher seja uma alpinista social, mesmo que use seu corpo e sua sensualidade para isso.

O próprio Sistema criou as condições para tanta violência e abuso físico e sexual de crianças, adolescentes e mulheres. Fala-se abertamente e com orgulho de estupro. Criou-se a histeria da pedofilia, como se criança e adolescente não fossem pessoas e não possuíssem sexualidade. Mas o Sistema cuidou de expor cada vez mais, deixar cada vez mais acessível, a todo o publico, essa sexualidade doentia criada pelo Cristianismo.

Um exemplo é a promoção de artistas que cantam e dançam de forma erótica e sensual e que se tornam um modelo, um ídolo, uma referência para as crianças e os adolescentes. Outro exemplo é noticias falando do homicídio, mas não do relacionamento entre a vítima, geralmente uma adolescente e o criminoso, geralmente maior de idade. O Sistema aceitou a teoria da maioridade penal a partir dos 16 anos o que abre espaço para discutir a questão da idade de consentimento e da presunção de abuso no relacionamento com um menor de idade.

Sem perceber, o Sistema está causando sua ruína. Sem perceber o Sistema está promovendo a Revolução Sexual. O Sistema tentou capitalizar e controlar com a prostituição e pornografia as ideias e ideais da Contracultura, no entanto sua estrutura rígida não conseguiu acompanhar o progresso e evolução da humanidade, cada vez mais desperta, cada vez mais livre.

Se queres mudar o mundo, ama um homem

Se queres mudar o mundo, ama um Homem , ama-o de verdade.
Encontra aquele cujos olhos sejam como sóis ardentes, que te façam ver longe pela primeira vez, que te atravessem, cegando-te de tudo, à parte do momento. Derretendo-te numa poça de pastel iluminado e suave, mesmo que te assustes com os tons de rosa .

Aquele que interrompe o teu raciocínio, que te deixa trémula, a pestanejar
enquanto o sangue enrubesce o teu rosto.
O que detém o dom da palavra, cujo sorriso é como uma flauta, que invoca canções de mel e melodias nas manhãs de Primavera.

Aquele que caíu do Céu, com uma marca nas costas, que perdeu as suas asas ao voar perto demais de uma estrela.

Aquele solitário em busca das suas asas e que te conta a história de como fazer Fogo.

Se queres mudar o mundo, ama um Homem apesar do teu medo de saíres queimada.

Além do imperdoavel, e das paredes que construiste para proteger a tua soberania e anonimato.

Ama-o além das velhas feridas e mentiras que acreditaste serem verdade, do vazio no teu coração de um pai ausente, da cicatriz na tua flor sagrada, deixada por ladrões.

Além de vidas passadas e de memórias que manténs num santuário da traições.
De quando caíste de joelhos nas cinzas da tua aldeia, e o amor se tornou num campo de ossos.

Ergue o teu rosto escurecido para aquele que está diante de Ti . Pega na sua mão e deixa-o levantar-te.

Confia nele para te segurar enquanto tremes e choras nos seus braços, por tudo o que foi perdido e encontrado nesse instante sagrado.

Se queres mudar o mundo, ama um Homem.
Além da tua falta de fé, e do teu ódio secreto pela humanidade.
Além de todo o teu julgamento e auto-projecção.

A pedra que pesa no teu coração é tão antiga como o próprio pensamento, que tiveste que negar a sua existência quando encaraste o seu poder.

Não és menos Divina do que já foste .
O homem não é mais culpado do que a mulher é inocente.

Ama-o por suportar a carga de desejo por Ti, para que o teu Templo pudesse permanecer intacto, para assumires o aspecto da divisão da mente, para abandonares a unidade do céu, para que pudesses conhecer a alegria da sua extensão .

Ama a raiz extática e primal, castrada pela religião como a raiz de todo o mal.
O canal do divino impulso criativo que acende as sementes da vida, morte e nascimento, desde o ventre do Espaço e do Tempo.

Ama o Guardião humilde e Guerreiro.
O homem tem sido sempre para a Mulher, mesmo quando a persegue para a sua auto-gratificação, o Portal para a União da Alma.

Ama o infractor que detém o espelho para tudo o que tu renegaste dentro de ti mesma, de modo que todo o teu desejo, o teu impulso criativo possa ser libertado das correntes da separação, da falta, da culpa, e para que possas voltar a confiar em Ti Mesma.

Se queres mudar o mundo, ama um Homem.
Ama-o, em toda a sua natureza animal e instintiva, em toda a sua fome e devoção à beleza.

Ama-o além da tua vaidade e orgulho, além da Tua possessividade dourada e da tua necessidade de te sentires especial, para além do teu pensamento sobre as condições de segurança e de todos os teus conceitos sobre como um homem se deve comportar numa relação.

Ama-o além da tua raiva, por não conseguires o que queres, além do terror que te invade ao dares-te conta que não deténs o controle sobre nada.

Ama-o na sua busca incessante de penetrar os santuários mais profundos dentro de Ti, que possuem o caos das tuas emoções mais fortes, e dos teus segredos cuidadosamente guardados sobre a separação da luz e da escuridão, da virgem e da prostituta, do homem e da mulher, do espírito e da forma .

Ama-o para abrires a porta à sensualidade, para o teu Ser primordial, que está além da dualidade, de forma a que te possas conectar ao prazer.
Mesmo enquanto o ar te envolve e te contorces com a loucura, amaldiçoando a tua encarnação como o inimigo e te contrais, enquanto deitas as garras de fora, e choras em desespero, … ela traz-te alegria.

Ama-o por não ceder à tua resistência, a entregares-te a ele.
Por se manter no seu poder masculino mesmo enquanto ameaças destruí-lo.

Se queres mudar o mundo, ama o teu homem e deixa-o viver e cumprir o seu Propósito.Seja por um dia, uma semana, meses ou anos.

Ama-o por partir o seu próprio coração, vezes sem conta – por resistir á tensão e manter o equilibrio da polaridade e da intimidade, da distãncia e da proximidade.

Ama a sua necessidade de silêncio e consolo, de manter alguns dos seus mistérios só para ele. Não que ele tenha algo a esconder, mas para que possas sempre ser surpreendida!

Ama a sua natureza evolutiva que busca novas experiências, que nunca pode ser satisfeita pela sua curiosidade sem limites, e que, se a deixares ser livre possa ser a tua própria libertação, para a tua realização.

Ama-o pelo seu brilho único, do lugar onde se senta majestosamente, não por precisar de ti, mas por te ter escolhido, nesse mesmo lugar sábio e magnificente.

Ama-o por ser a tua orientação e destino paciente, por te devolver o teu próprio brilho durante a noite escura e ajudar-te a recordares o primeiro e único relacionamento que já tiveste e tentaste esquecer.
Por te trazer de volta, vulnerável e impotente, áquele lugar de rendição e honestidade absoluta, que sempre receaste e esperaste por toda a tua vida.

Onde finalmente podes ser consumida pelo Amor, e onde finalmente podes ser resgatada por deus.

~ Lisa Citore (2013 )

Fonte: Caminho da Serpente