O caso Keller – XI

O encontro com o senhor Ford foi estranho e nada esclarecedor. A investigação estava tomando um rumo muito esotérico. Ele gostava disso tanto quanto Vera Keller. Mas se o senhor Ford estava certo, se sua investigação era a jornada de um buscador em direção à Iluminação, o próximo suspeito seria o passo mais lógico, se é que ainda se pode falar nisso. Seu destino era a Abadia de Lacroix e o cardeal Chesterton. A última vez que Magritte foi a uma igreja católica foi aos três anos, na missa de sétimo dia de sua mãe.

A abadia era uma réplica de outras igrejas europeias, com aquele perturbador estilo gótico. A porta estava aberta e estava acontecendo alguma cerimônia importante. Discretamente, o inspetor se aproxima do altar, onde o cardeal acompanha a celebração feita por algum padre.

– Com licença, vossa eminência. Eu gostaria de lhe fazer algumas perguntas.

– Ah! Olá, inspetor Magritte. Eu o aguardava. Por favor, me siga até a secretaria. Eu devo ter ainda meu escritório quando era cura de Murano.

O barulho da cerimônia reduz conforme Magritte segue o cardeal. Em um escritório pequeno, simples, frugal, a portas fechadas, ambos tem toda a privacidade necessária.

– Então o senhor veio me perguntar sobre Mansfield, sobre minhas participações nas sessões e até sobre minha participação na seleção de modelos, eu estou certo?

– Incomodamente correto, vossa eminência. A forma como eu tenho sido recebido e as reações dos meus suspeitos demonstram que existe um esquema e o senhor corrobora minha suspeita. Eu espero que o senhor tenha algo mais do que respostas ensaiadas.

– Inspetor, eu não vou enganá-lo. Eu sou um dos artistas anônimos que se escondia atrás de Mansfield. O senhor há de concordar que as obras, pela minha posição, seriam catastróficas para a abalada reputação da Igreja Católica. Eu escolhia meus modelos, mas não cabia a mim ou aos artistas a seleção. Nós não tínhamos tempo nem meios para fazê-lo. Apenas um especialista em coleta de informações ou, como se diz, um espião, poderia fazê-lo. Eu não sei se o senhor é católico, mas eu juro por Deus que não matei Mansfield.

– Vossa eminência pode me dizer a cargo de quem estava esse agente de informações?

– Eu acho que o senhor tem a resposta, inspetor. Negar ou afirmar seria um insulto ao senhor.

Magritte percebe que o burburinho da celebração cessou completamente. Agradeceu ao cardeal pela colaboração, levantou, apertou a mão dele e saiu da abadia. Estava na hora de fazer aquela visita prometida à senhora Keller.

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