O caso Keller – X

Magritte balbucia uma despedida e sai da delegacia para continuar suas investigações. Não que ele tenha ficado acabrunhado com a declaração de Vera. Há tempos ele havia perdido a vergonha. Chad, por outro lado, ficou envergonhado pelos dois. Ele não era muito diferente do comissário e do governador. Católicos e carolas. O inspetor tinha mais suspeitos, os recentes acontecimentos e seus instintos indicavam que os artistas anônimos que se escondiam atrás de Mansfield deviam ter algo em comum, além de sua conexão com os Montmart. Prodigiosamente, Magritte relembrou os dados do banco e os dados dos dossiês. Estava na cara dele. Um dos patrocinadores e, sem duvida, participante das sessões de imersão era John Ford, o presidente e dono da Fundação Ford, uma das instituições bancárias mais poderosas e influentes. Não haveria como Mansfield ter conta em banco se não tivesse alguma ajuda de um funcionário do banco. Ford teve razões de sobra para esquentar a ficha de Mansfield. Qualquer um em Murano conhece a Mansão Ford. Entrar é outra história.

Novamente na Ville de Monaco, Magritte passa pelas ruas, praticamente invisível. Ele poderia acreditar que sua presença havia se tornado algo comum, mas coisa alguma nessa investigação é tão simples. Ele sabia que estava sendo esperado, ele sabia que nenhum vigilante iria atrapalhar sua intromissão no Paraíso Perdido. Com se fosse um primo entre pares, Ford colocou sua mansão em uma colina distante, isolada dos demais moradores. A aparência, mais apropriada para um castelo, denota como a Alta Sociedade gosta de imitar a aristocracia europeia, aquilo que ela nunca será. O inspetor atravessa o passadiço e passa por enormes portões sem dificuldade. Funcionários vestindo roupas do século XIX o aguardam. Parecem cópias do mordomo dos Montmart. Um destes o conduz até uma sala onde o senhor Ford o aguarda.

– Bom dia, inspetor Magritte. Eu o estava aguardando. Por gentileza, sente-se para conversarmos e para que o senhor anote meu depoimento.

– Devo supor que o senhor conhece a natureza de minha visita e que é desnecessário avisá-lo de que, como suspeito, tudo que disser pode e será usado contra o senhor.

– Desnecessário. Porem eu posso dizer que o senhor tem 22 suspeitos. Eu ouso dizer que cada suspeito representa um arcano do tarot. O senhor não teria chego até aqui se o senhor não fosse um buscador. A questão é se o senhor chegará ao Ultimo Portal.

– Se o senhor me permite, eu me restringirei à investigação policial. Eu sempre achei filmes de suspense e terror fantasiosos, tendenciosos e simplistas demais. Em toda trama mostra o vilão todo poderoso no começo, mas no final o mocinho sempre ganha.

– Concordo que é frustrante. Mas a sociedade precisa desses lenitivos. São como ovelhas, apenas esperando sua vez para ir ao abatedouro. Mas o senhor, inspetor, é diferente. Eu sinto isso. Sua presença aqui corrobora minhas expectativas.

– Eu tenho outras expectativas a preencher, senhor Ford. Mansfield. Sua relação com o finado e sua arte. Sua relação nas sessões de imersão e na coleta de modelos.

– Não tem curiosidade em saber da minha relação com os Montmart? Sabe, tudo seria mais fácil se nos separássemos de vez da humanidade. Não vejo mais qualquer motivo e razão para continuar com essa farsa. Nisso consiste a arte de Mansfield, inspetor. Despertar os que dormem. Queremos juntar o nosso povo, resgatá-los da ignorância, do medo, da incerteza, da frustração, da insegurança, da pobreza, da humanidade. Desde o inicio, foi tudo um erro. Não devíamos ter descido a este mundo, não devíamos ter nos unido com humanas, não devíamos ter nos acostumado a viver dentro destas cascas.

– Então o senhor é também um dos artistas que se escondia por trás de Mansfield?

– Uma casca vazia representando a arte de meu ser escondido. Triste ironia.

– Desculpe, senhor Ford, mas os planos deste esquema não funcionaram, nem funcionarão. A arte do senhor não me afeta, eu diria que é simplória, infantil e ridícula. Desafiar normas sociais, tabus, proibições? Isso apenas vai causar mais medo e isolamento. Isso apenas vai fazer os que dormem afundar ainda mais na ilusão. O sistema não vai mudar enquanto houver uma Alta Sociedade, enquanto poucos tiverem certos privilégios. Quer mesmo despertar os adormecidos? Deixe que o Sol brilhe sua Luz para todos.

– Aha! Agora é o senhor quem fala por mistérios, inspetor. Lucia estava certa a respeito do senhor. Mas não sou eu o assassino. O senhor irá descobrir isso.

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