O caso Keller – VIII

Quando Magritte terminou de preencher a papelada burocrática na delegacia de polícia ele sentiu o peso das 16 horas de trabalho direto. Mas antes de ir embora, o inspetor foi falar com o delegado.

– Olá, Lou. Entre! Parabéns pela conclusão do caso. Você pegou um belo peixão. O comissário vai ficar irritado com seu sucesso. Vai se preparando, por que agora você é celebridade. A Imprensa vai querer te fotografar, fazer entrevistas, te convidar para programas.

– Chad, eu gostaria de continuar minha investigação.

– Ficou louco? Temos a confissão, os indícios. Se ele for para Júri e pegar um juiz barra pesada, é capaz de receber pena de morte.

– Nós temos que levar em conta a possibilidade de falso testemunho ou que o suspeito confessou para proteger alguém. Eu ainda tenho uma enorme lista de nomes como suspeitos, tem mais coisa para ser exposta.

– Olha, se isso é alguma coisa que você quer fazer para provar algo para o comissário, nem comece.

– Minha diferença com o comissário eu resolvo de outo jeito. Isso é profissional.

– Tudo bem, mas me mantenha informado. Tome cuidado, por que você está mexendo com gente muito perigosa e influente.

Magritte sabia que era um vespeiro. Desde que entrou na Academia de Policia, desde que começou a trabalhar para a segurança publica, ele sentia isso nos ossos. Ele perdeu a conta de quantas vezes ele prendia um suspeito em flagrante mas que, por ter contatos, saía livre no dia seguinte. Como inspetor a sua quota de risco aumentou exponencialmente. Algum dia ele iria encarar a morte. Mas antes de Tanatos, Magritte se entrega a Orfeu. Despenca em sua cama e apaga. Perde a noção de tempo e espaço. Repouso sem sonho. Quando o telefone toca, Magritte levanta surpreso ao perceber que havia dormido por doze horas. Ao telefone, a voz parecia turva, ele ainda estava sonolento, mas depois identificou que a voz era do delegado.

– Lou? Está me ouvindo? Venha rápido. Temos mais um corpo.

Magritte engole o resto de café que está na cafeteira por quase dois dias, vai ter que servir para despertar. Não é difícil encontrar uma viatura policial, transmitir a urgência e chegar ao 33° DP em quinze minutos. Chad estava muito nervoso. Isto nunca foi bom sinal.

– Parece que você estava certo, Lou. Nosso suspeito, réu confesso, foi encontrado morto na cela de segurança. Vinte facadas. Os peritos estão lá, mas tudo indica que foi a mesmo tipo de arma usada no falecido Mansfield.

Na área de detenção, uma confusão de jornalistas, policiais e detidos. Magritte respirou fundo. A cena estava comprometida. Ele não poderia sequer ligar este crime ao outro com tanta gente presente. Qualquer um com algum espírito de justiceiro poderia ter feito aquilo. A cela de segurança estava com sangue por todo lado. Ao menos os peritos usavam protetores plásticos cobrindo os sapatos. Não foi preciso que um perito lhe dissesse o óbvio. As vinte facadas foram nos lugares exatos onde Mansfield foi atingido. A intensidade e tipo de corte eram iguais. Magritte conhecia armas brancas o suficiente para saber qual foi usada em qualquer situação. Um alvoroço tirou sua concentração.

– Senhoras? Por favor, esta é uma cena de crime. O inspetor Magritte não pode ser interrompido.

– Saia da frente, Chad. Ele é nosso parente. Ou você nos deixa entrar ou ligamos para o governador e você vai trabalhar como vigilante de galinheiro.

O instinto de Magritte acende todos os avisos de perigo. O inspetor reconhecia a voz daquela mulher. Ele não se surpreende ao ver a senhora Montmart entrando na área de detenção. Também não fica surpreso ao ver que ela traz mais duas senhoras em companhia. Vera e a freira.

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