O caso Keller – VI

Magritte olhava para todos os lados enquanto se dirigia ao Albergue Dominicano. Ele havia tido a impressão de que estava sendo seguido e persistia a impressão de que estava sendo observado. Uma boa olhada ao redor antes de entrar no albergue. Um casarão em avançado estado de decadência. O inspetor tentava imaginar sua aparência quando foi inaugurado, por volta de 1807, certamente com pompa e cerimônia. Os anos passam, coroas trocam de cabeças, o ser humano adquiriu consciência de cidadania, a Igreja perdeu sua força. Na frente do frontispício, a pesada porta de carvalho estava coberta de cal e um pesado sino pendia do alpendre. O inspetor faz o sino troar com movimentos vigorosos. Uma voz feminina lhe responde do outro lado da porta.

– Sim? Quem é? O que deseja?

– Eu sou o inspetor Magritte, irmã. Eu gostaria de falar com o responsável sobre um possível ex-interno.

A porta abre e Magritte se assusta com a semelhança desta freira com a senhora Keller.

– Magritte? O senhor deve ter vindo por causa da investigação a respeito do pobre senhor Mansfield. A Madre Superiora irá falar com o senhor.

Suas visitas estão demonstrando estar mais bem informado do que ele e isso incomoda. Ninguém recebe um inspetor de polícia com indiferença. Medo, nervosismo, negação, são as formas como as pessoas agem diante da visita de um inspetor. Seus visitados pareciam aguarda-lo. Tranquilidade, cooperação e neutralidade, são comportamentos inesperados. Dentro do albergue, os sinais de degradação são mais evidentes. Como estas irmãs se sustentam, como conseguem dar apoio a tantos desvalidos, é algo inexplicável.

– Aguarde, inspetor. Eu volto daqui a pouco.

– Desculpe, irmã, mas por acaso tem algum parente?

– Meus únicos parentes são minhas irmãs neste convento, inspetor. Eu cortei todos meus laços com o mundo externo ao fazer meus votos.

Magritte se lembra de seu pai falando de suas memórias de infância, quando seu pai era interno em um colégio de padres. As coisas que ele contava teriam acontecido aqui? Quantos fetos estariam enterrados nos jardins do convento? Quantas torturas essas mulheres teriam suportado em busca de uma comunhão com um Deus forjado? Ao sentir o clima pesado, sério, asséptico, estéril, Magritte agradece aos Deuses por ter encontrado o Caminho dos Bosques Sagrados.

– Hã… inspetor? A Madre Superiora irá falar com o senhor agora.

Magritte entra no escritório, apinhado de papéis, santos, terços, velas, ex-votos e esmoleres. Em uma mesa simples, mas feita de madeira maciça, uma senhora lhe fitava com nítido interesse.

– Boa tarde, inspetor. Eu sou a Madre Justine. O senhor veio aqui, eu suponho, para saber mais do senhor Mansfield.

– Exatamente, Madre Justine. Eu acredito que talvez eu possa achar algum indicio que indique o responsável ou responsáveis pela morte dele.

– Inspetor, eu creio ser desnecessário avisar que nossos arquivos são confidenciais. Nós gostamos de preservar o pouco de dignidade que essas pobres almas possam ter.

– Certamente a senhora pode contar com minha discrição. Permita-me olhar o registro do senhor Mansfield. Eu não citarei a fonte de minha pesquisa.

– Eu deixarei, mediante a minha supervisão.

Magritte dá de ombros. A Madre se levanta e, tomando o braço do inspetor, vai indicando o caminho até o arquivo geral. Habilmente, ela abre uma gaveta, sem qualquer tipo de marcação ou índice, saca uma pasta de uma enorme fila e entrega a Magritte.

– Pode começar seus apontamentos, inspetor.

Alguns dados comuns batiam com o que ele vira no banco. Mansfield dera entrada no albergue aos vinte anos. Mas a certidão de nascimento não batia. No banco, ele nascera em Riviera. No albergue, ele nascera em Tristen. Um indício preocupante é que o nome de Mansfield nessa certidão de nascimento havia sido hachurado. Seus olhos vão diretamente para a Madre, com enorme suspeita.

– Madre, qual era o nome de Mansfield?

– Eu não saberia te dizer, inspetor. O finado Mansfield ingressou em nosso albergue na gestão da Madre anterior. Eu não tinha acesso aos arquivos, então estavam assim quando assumi.

Magritte então dá um salto de gato. Ele podia ir a Tristen, checar os arquivos públicos, olhar por data e mostrar fotos de Mansfield para o povo local, mas antes ele tinha que jogar uma isca.

– Madre, quem era sua antecessora?

– Minha antecessora era a muito santa e imaculada senhora Montmart.

O instinto de Magritte apitou feito alarme de incêndio. Montmart era um dos nomes, tanto no banco, quanto nos dossiês de Mansfield. A antecessora da atual Madre, como muitos religiosos, tinha uma vida dupla. Próxima parada, família Montmart.

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