O caso Keller – V

Magritte gastou algumas horas, viajando na maionese, conversando com Raebeth, lembranças da escola, das aventuras, das descobertas dos corpos. Pouco havia mudado, Rae tinha ficado maior, seus cabelos estavam cor laranja, pistas indicavam filho e marido, mas o cheiro e o corpo pareciam ser os mesmos. Ele sabia aonde isso ia dar, Rae foi sua primeira e ele foi seu primeiro, até onde ele sabe e Rae dava sinais de que estava disposta a reacender a chama.

– Rae, eu passaria a tarde toda aqui com você, mas eu estou investigando um crime.

– Ah! O tal do Mansfield, não é? Enfim, alguém deu ao bastardo o que merecia.

– Pelo visto o conhecia. O problema é que eu cheguei até você. Pela sua reação, eu tenho que te considerar uma suspeita.

– Eu? Sério, Lou? Só se eu o matasse de prazer. Se eu me lembro, você quem era o Lobo Mau. Quantos você surrou? Quantos você matou?

– Eu não sei. Eu fui parar no Reformatório e de lá entrei para a Policia. Acordo na justiça. Agora eu mato com autorização do Estado. Doce ironia. Diga-me tudo o que sabe de Mansfield e onde você estava ontem à noite, por volta das 20h.

– Você deve ter descoberto que ele era um mendigo. Visitou o Albergue Dominicano?

– Minha próxima visita.

– Bom, ontem às 20h eu estava em casa, minhas vizinhas estavam aqui conversando comigo quando veio o boletim urgente sobre a morte de Mansfield. Ele poderia estar vivo agora, se não quisesse tentar ser esperto. Nenhuma de suas obras primas é de autoria dele. Ele quis mais. Transformaram-no em peça de arte.

– Transformado em peça de arte? Como assim? Quem poderia ter feito isso?

– Arte contemporânea, Lou. Gente rica quer que seja desafiador, insultante, obsceno, repugnante. Uma artista se autoflagelou como parte de sua arte performática. Mansfield apenas desceu mais o nível. Diga pornografia infantil, alusão a abuso sexual, tortura sexual… esse é Mansfield. Bondage, sado-masoquismo, incesto… por Deus, eram tão jovens!

– Eu achei sua ficha na casa de Mansfield. Então você esteve envolvida na produção dessas peças de arte. Até que ponto? Quem mais?

– Eu funcionava como uma facilitadora. Eu era vestida como uma sacerdotisa, Lou. Aqueles que eram escolhidos vinham com seus pais ou com sentenças judiciais para participarem do que chamamos de imersão. Na casa de Mansfield, no porão, ficávamos uma semana, isolados do mundo, sem regras, sem inibições. Eu via os flashes, ouvia as filmadoras, barulho de gravadores, laptops sendo digitados. Mas não via quem eram os verdadeiros artistas. Mansfield era apenas um testa de ferro, um laranja, um qualquer, fácil de se livrar caso nossas experiências viesssem a publico. Infelizmente eu nunca vi ou falei com os reais responsáveis. Mansfield era meu único contato.

Magritte ficou convencido da inocência de Rae, mas o Júri ficaria convencido? Havia muitas evidências apontando para ela, embora ela tivesse álibi. O inspetor deveria achar alguma pista que o levasse aos artistas que se escondiam por detrás de Mansfield para exporem seus devaneios. Ele apostou suas fichas no Albergue Dominicano. Uma aposta amarga, pois a vida de Rae estava na mesa. Partiu, depois de beijar sua antiga namorada com todo amor que havia guardado para ela. Os olhos… não olhe para os olhos… não olhe para trás… siga adiante, Magritte!

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