Tabus que geram violência

Hoje é equinócio de outono. Nós, pagãos modernos, celebramos, dependendo de sua vertente, Ostara ou Mabon. Eu inicio um período de reflexão e recolhimento. Eu digo constantemente que não existem coincidências. Então o fato de eu ter encontrado textos tão bons falando do tabu mais dificl de discutir veio no momento certo. Eu agradeço aos Deuses e ancestrais por terem me conduzido até os textos do Leandro Colling e da Dra Tatiana Lianço.

Gostaria de iniciar abordando um tema um tanto controverso que é o da sexualidade infantil. Sabemos que essa ideia gera constrangimentos e indignação, tendo sido objeto em grande parte da repulsa que o pensamento freudiano obteve e ainda obtém por parte da sociedade. No entanto, nós sabemos hoje — ou pelo menos é assim que construímos o sentido sobre a infância hoje — que a infância em si é uma construção social e histórica moderna, tendo sido aqueles e aquelas que qualificamos hoje como crianças tratados, durante longos períodos, como adultos em miniatura.

A emergência da infância na era moderna foi correlata à ascensão do poder disciplinar, em que o discurso médico, em grande parte, funda a inteligibilidade sobre a normalidade e a anormalidade, instituindo práticas de normalização dos indivíduos por meio das instituições disciplinares, entre as quais a escola nos interessa especialmente.

A sexualidade na era moderna foi objeto de intensa normalização, em que o suposto pecado cristão associado a práticas sexuais não matrimoniais ou não reprodutivas foi redirecionado para a lógica das aberrações sexuais descritas pela psiquiatria nas sociedades ocidentais. A prática da masturbação foi objeto de intensa repressão e a sexualidade infantil foi silenciada. Masturbação e sexualidade infantil são dimensões da sexualidade que desmentem ou questionam a sua intencionalidade meramente reprodutiva.

Ainda que a Psicanálise seja um saber extremamente controverso no debate sobre direitos sexuais, cabe resgatar aqui um pouco da proposição freudiana sobre o sentido da sexualidade infantil. Freud dizia não apenas que existia uma sexualidade infantil, mas ele qualificava a sexualidade humana em si, mesmo a adulta, como infantil.

O que ele propunha era a compreensão da sexualidade como experiência humana do prazer pelo prazer, e a dissociação entre sexualidade humana e a meta reprodutiva, sendo a sexualidade uma importante dimensão da vida psíquica e da vida relacional do sujeito. A principal característica da sexualidade humana é a própria plasticidade, uma abertura para múltiplas formas de acontecimentos para além da intencionalidade da reprodução da espécie.

A sexualidade infantil é a atividade por meio da qual as crianças exploram seus próprios corpos na busca do prazer, também num processo de construção da representação de si mesmas. Somos o nosso próprio corpo. As brincadeiras sexuais infantis também podem envolver os outros: meninos buscando conhecer os corpos de outros meninos ou meninas; e meninas buscando conhecer os próprios corpos e o de outras meninas e meninos.

Então, se eu posso fazer um apelo hoje, eu peço, primeiramente, que deixem as crianças brincarem em paz. Isso fará com se tornem adolescentes e adultos mais inteligentes e potencialmente mais perspicazes no enfrentamento e na transformação do mundo que lhes deixamos como herança.

Autora: Tatiana Lionço.

Enquanto nós não entendermos a sexualidade das crianças, enquanto nós continuarmos a ler a sexualidade das crianças apenas com as lentes dos adultos, os abusos sexuais continuarão a acontecer. No fundo imaginamos que a criança não é um ser sexuado, ou melhor, que a criança não será vista como um objeto sexualizado.

O que Tatiana Lionço estava defendendo na palestra era exatamente a necessidade de entendermos as crianças a partir delas próprias e não a partir das nossas normas ou dos nossos desejos enquanto adultos.

Enquanto a escola e a sociedade como um todo não discutirem ampla e profundamente a sexualidade, de qualquer idade, sexo e gênero, os abusos sexuais e tantos outros problemas gerados pela falta de conhecimento nesta área, a exemplo da gravidez indesejada, a transmissão de doenças sexualmente transmissíveis, e um sem número de traumas psíquicos que geram um sem número de dores e até suicídios continuarão a acontecer.

Autor: Leandro Colling

Eu fiz esta colagem dos textos para abordar de forma mais suave possivel essa questão, pois a negação da sexualidade da criança e do adolescente é um resquício da repressão e opressão sexual do Cristianismo, a raiz dos desvios e da violência sexual. Ainda há muita resistência exercida por grupos fundamentalistas cristãos para que sejamos uma sociedade sexualmente mais saudável, onde todas as formas de sexualidade tem seu espaço e direito. Necessário dizer – a homofobia, a violência contra homossexuais tem a mesma causa que a pedofilia, o abuso sexual – vivemos em uma sociedade doente, ainda construida sobre dogmas e doutrinas cristãs, que demonizam o corpo, o desejo, o prazer e o sexo.

Existem diversas organizações religiosas cristãs que dependem de manter um certo tipo de “norma” sobre gênero, identidade sexual, opção sexual, sem o que perderiam seu poder e influência social. Eu escrevi brevemente sobre isso no meu texto “Eu Escolhi Dar”. O ideal de um Estado Laico seria bom, mas não é o suficiente. O ideal de educação sexual seria melhor, mas também não é suficiente. Precisamos de uma Revolução Sexual, ou melhor, continuar o que começou há 50 anos atrás, mas paramos por medo, insegurança, recalques.

Se algum dia conseguirmos resolver esses traumas, recalques, pulsões, libidos, poderemos viver a utopia da Onigamia. Assim é, assim será, assim seja.

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