O caso Keller – III

Magritte acordou com o alarme do vizinho. Ele havia dormido apenas seis horas. Em sua kitnet, o quarto e a cozinha são contíguos. Uma facilidade, pode se levantar e com alguns passos, pega-se café, água, bule e com um pouco de calor, eis que surge o maná da manhã. Ovos, torradas, pão, biscoito, frutas, frios sortidos. Magritte vivia em uma kitnet não por ser pobre, mas por ser solitário. O que ganhava como inspetor era melhor do que ganhava como soldado da PM, mas conseguira fazer suas reservas e tinha uma vida razoável.

Enquanto comia seu desejum, Magritte revia e reorganizava seus apontamentos. Passava a limpo, sublinhava pistas importantes, rabiscava possiveis suspeitos, riscava suspeitos improváveis, tentava traçar uma linha criminosa. Quem fez, por que fez, como fez. Tudo que qualquer um precisa para se tornar criminoso é motivo, oportunidade e meios. Com tantos nomes, dificl imaginar qual seria o mais provável. Ele precisaria começar de algum lugar. No caso, começar com a residência do finado. Magritte apostava que ali encontraria o começo da fiada. Arrumou-se rapidamente, desceu, pegou o lotação, desceu no ponto.

Ville de Monaco. Um bairro exclusivo para ricaços. Ele cansou de ler diversas teorias de conspiração sobre como ali teria uma sociedade secreta que dominava o mundo. Ele cansou de ler noticias sensacionalistas de que ali se faziam rituais satanicos. Ele cansou de fazer ocorrencias depois de queixas de pais de que suas filhas haviam perido sua inocencia em alguma dessas residencias, vitimas de algum pervertido. Não existe inocente. Magritte não sabe onde ouvira ou lera a frase, mas sempre se mostrou verdadeira. Ele se dirige a um tipo de guarita, onde vigilantes particulares controlam a entrada de pessoas.

– Bom dia, senhores. Eu gostaria de visitar a residência do senhor Mansfield.

Os vigilantes olham para o distintivo. Olham para o mandado judicial. Mesmo assim pegam o telefone e fazem uma ligação. Balbuciam algo. Alguns minutos mais tarde, surge um senhor, aparentando possuir idade avançada, fala com os vigilantes e o recebe.

– Bom dia, inspetor. Eu sou o senhor Kent, mordomo do senhor Mansfield. Eu imagino que o senhor veio aqui para investigar a morte de meu patrão.

– Exatamente, senhor Kent. Se não for inconveniente.

– Absolutamente! Por favor, me siga. O senhor Feng, motorista do senhor Mansfield, nos aguarda.

Magritte entra em um carro sóbrio, mas luxuoso. Mansfield certamente era rico, com tantos empregados e morando nesse bairro, mas não gostava de ostentar. Algumas quadras adiante, o carro estaciona. O mordomo abre a porta do carro e da casa.

– Este é a residência e estúdio do senhor Mansfield. Fique à vontade, eu lhe peço apenas para não fotografar nem quebrar as peças.

Magritte dá uma boa olhada. O canto de Mansfield parece muito com sua kitnet. Todos os outros espaços estão cobertos de materiais, esboços, entulhos e obras. Dificil se mover sem tropeçar em algo. As obras de Mansfield não são nenhuma revelação. O que havia ali destoava totalmente do que tinha na Pinacoteca. Os esboços eram ainda mais pobres. Os entulhos comprovavam que ele era um artista sem talento. Como explicar sua fama, suas artes consagradas, suas polêmicas?

Sem querer, Magritte encontra o filão de ouro. Diversos dossiês. Nomes, datas, endereços, escolaridade, idade, compleição física, fotos. Inumeras pastas contendo informações de diversas jovens. Algumas abaixo do que a sociedade convenciona como maduras. Diversos contratos, declarações de consentimento dos pais, sentenças judiciais concedendo emancipação. Todos recursos legais, embora socialmente reprováveis, para que estas jovens participassem de algum tipo de projeto. Estas foram as fontes de inspiração das obras-primas de Mansfield, embora não tenha sido ele o executor. Se não foi ele, quem? Uma pasta está com os dados ilegíveis, todos os dados estão cobertos com um traço preto hachurado, como a Censura fazia. Resíduos indicam que, se tinham fotos, estas foram destruídas. De quem era este dossiê? Seja quem for, esta jovem é a suspeita numero um.

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