Arquivo mensal: março 2015

O caso Keller – XI

O encontro com o senhor Ford foi estranho e nada esclarecedor. A investigação estava tomando um rumo muito esotérico. Ele gostava disso tanto quanto Vera Keller. Mas se o senhor Ford estava certo, se sua investigação era a jornada de um buscador em direção à Iluminação, o próximo suspeito seria o passo mais lógico, se é que ainda se pode falar nisso. Seu destino era a Abadia de Lacroix e o cardeal Chesterton. A última vez que Magritte foi a uma igreja católica foi aos três anos, na missa de sétimo dia de sua mãe.

A abadia era uma réplica de outras igrejas europeias, com aquele perturbador estilo gótico. A porta estava aberta e estava acontecendo alguma cerimônia importante. Discretamente, o inspetor se aproxima do altar, onde o cardeal acompanha a celebração feita por algum padre.

– Com licença, vossa eminência. Eu gostaria de lhe fazer algumas perguntas.

– Ah! Olá, inspetor Magritte. Eu o aguardava. Por favor, me siga até a secretaria. Eu devo ter ainda meu escritório quando era cura de Murano.

O barulho da cerimônia reduz conforme Magritte segue o cardeal. Em um escritório pequeno, simples, frugal, a portas fechadas, ambos tem toda a privacidade necessária.

– Então o senhor veio me perguntar sobre Mansfield, sobre minhas participações nas sessões e até sobre minha participação na seleção de modelos, eu estou certo?

– Incomodamente correto, vossa eminência. A forma como eu tenho sido recebido e as reações dos meus suspeitos demonstram que existe um esquema e o senhor corrobora minha suspeita. Eu espero que o senhor tenha algo mais do que respostas ensaiadas.

– Inspetor, eu não vou enganá-lo. Eu sou um dos artistas anônimos que se escondia atrás de Mansfield. O senhor há de concordar que as obras, pela minha posição, seriam catastróficas para a abalada reputação da Igreja Católica. Eu escolhia meus modelos, mas não cabia a mim ou aos artistas a seleção. Nós não tínhamos tempo nem meios para fazê-lo. Apenas um especialista em coleta de informações ou, como se diz, um espião, poderia fazê-lo. Eu não sei se o senhor é católico, mas eu juro por Deus que não matei Mansfield.

– Vossa eminência pode me dizer a cargo de quem estava esse agente de informações?

– Eu acho que o senhor tem a resposta, inspetor. Negar ou afirmar seria um insulto ao senhor.

Magritte percebe que o burburinho da celebração cessou completamente. Agradeceu ao cardeal pela colaboração, levantou, apertou a mão dele e saiu da abadia. Estava na hora de fazer aquela visita prometida à senhora Keller.

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O caso Keller – X

Magritte balbucia uma despedida e sai da delegacia para continuar suas investigações. Não que ele tenha ficado acabrunhado com a declaração de Vera. Há tempos ele havia perdido a vergonha. Chad, por outro lado, ficou envergonhado pelos dois. Ele não era muito diferente do comissário e do governador. Católicos e carolas. O inspetor tinha mais suspeitos, os recentes acontecimentos e seus instintos indicavam que os artistas anônimos que se escondiam atrás de Mansfield deviam ter algo em comum, além de sua conexão com os Montmart. Prodigiosamente, Magritte relembrou os dados do banco e os dados dos dossiês. Estava na cara dele. Um dos patrocinadores e, sem duvida, participante das sessões de imersão era John Ford, o presidente e dono da Fundação Ford, uma das instituições bancárias mais poderosas e influentes. Não haveria como Mansfield ter conta em banco se não tivesse alguma ajuda de um funcionário do banco. Ford teve razões de sobra para esquentar a ficha de Mansfield. Qualquer um em Murano conhece a Mansão Ford. Entrar é outra história.

Novamente na Ville de Monaco, Magritte passa pelas ruas, praticamente invisível. Ele poderia acreditar que sua presença havia se tornado algo comum, mas coisa alguma nessa investigação é tão simples. Ele sabia que estava sendo esperado, ele sabia que nenhum vigilante iria atrapalhar sua intromissão no Paraíso Perdido. Com se fosse um primo entre pares, Ford colocou sua mansão em uma colina distante, isolada dos demais moradores. A aparência, mais apropriada para um castelo, denota como a Alta Sociedade gosta de imitar a aristocracia europeia, aquilo que ela nunca será. O inspetor atravessa o passadiço e passa por enormes portões sem dificuldade. Funcionários vestindo roupas do século XIX o aguardam. Parecem cópias do mordomo dos Montmart. Um destes o conduz até uma sala onde o senhor Ford o aguarda.

– Bom dia, inspetor Magritte. Eu o estava aguardando. Por gentileza, sente-se para conversarmos e para que o senhor anote meu depoimento.

– Devo supor que o senhor conhece a natureza de minha visita e que é desnecessário avisá-lo de que, como suspeito, tudo que disser pode e será usado contra o senhor.

– Desnecessário. Porem eu posso dizer que o senhor tem 22 suspeitos. Eu ouso dizer que cada suspeito representa um arcano do tarot. O senhor não teria chego até aqui se o senhor não fosse um buscador. A questão é se o senhor chegará ao Ultimo Portal.

– Se o senhor me permite, eu me restringirei à investigação policial. Eu sempre achei filmes de suspense e terror fantasiosos, tendenciosos e simplistas demais. Em toda trama mostra o vilão todo poderoso no começo, mas no final o mocinho sempre ganha.

– Concordo que é frustrante. Mas a sociedade precisa desses lenitivos. São como ovelhas, apenas esperando sua vez para ir ao abatedouro. Mas o senhor, inspetor, é diferente. Eu sinto isso. Sua presença aqui corrobora minhas expectativas.

– Eu tenho outras expectativas a preencher, senhor Ford. Mansfield. Sua relação com o finado e sua arte. Sua relação nas sessões de imersão e na coleta de modelos.

– Não tem curiosidade em saber da minha relação com os Montmart? Sabe, tudo seria mais fácil se nos separássemos de vez da humanidade. Não vejo mais qualquer motivo e razão para continuar com essa farsa. Nisso consiste a arte de Mansfield, inspetor. Despertar os que dormem. Queremos juntar o nosso povo, resgatá-los da ignorância, do medo, da incerteza, da frustração, da insegurança, da pobreza, da humanidade. Desde o inicio, foi tudo um erro. Não devíamos ter descido a este mundo, não devíamos ter nos unido com humanas, não devíamos ter nos acostumado a viver dentro destas cascas.

– Então o senhor é também um dos artistas que se escondia por trás de Mansfield?

– Uma casca vazia representando a arte de meu ser escondido. Triste ironia.

– Desculpe, senhor Ford, mas os planos deste esquema não funcionaram, nem funcionarão. A arte do senhor não me afeta, eu diria que é simplória, infantil e ridícula. Desafiar normas sociais, tabus, proibições? Isso apenas vai causar mais medo e isolamento. Isso apenas vai fazer os que dormem afundar ainda mais na ilusão. O sistema não vai mudar enquanto houver uma Alta Sociedade, enquanto poucos tiverem certos privilégios. Quer mesmo despertar os adormecidos? Deixe que o Sol brilhe sua Luz para todos.

– Aha! Agora é o senhor quem fala por mistérios, inspetor. Lucia estava certa a respeito do senhor. Mas não sou eu o assassino. O senhor irá descobrir isso.

O caso Keller – IX

– Desculpe, Lou, eu não consegui segurá-las.

– Tudo bem, Chad. Elas não podem piorar o que está ruim. Lamento, senhoras, por reencontra-las em circunstâncias tão desagradáveis.

– As coisas são como são, Lou. Cabe a nós fazermos deste momento algo agradável. Por exemplo, descobrindo quem matou meu Gil.

– Senhora Lucia, eu acho que posso ser bem franco. O senhor Montmart foi morto pelo mesmo meio que o senhor Mansfield. Descobrindo quem matou Nathan mostrará quem matou Gillian. Então eu lhe peço sua ajuda. Eu preciso de jogo aberto, cartas na mesa. A senhora poderia explicar a sua presença e destas duas senhoras aqui?

– Quanta formalidade. Apenas Lucia. Esta loira você conhece, é minha filha Vera. Teve a infeliz ideia de casar com o senhor Keller. Esta freira é minha outra filha, Maya. Teve a infeliz ideia de casar com um zumbi hebreu.

– Por favor, senhora Montmart, não fale assim do Filho de Deus, de Nosso Senhor Cristo.

– Por que não, Maya? Eu conheço todos os Deuses, todos seus Filhos e todos os Messias. A quem acham que recorrem quando tem problemas? Eles nos procuram. Você desperdiçou seu enorme potencial se submetendo a este Cristo.

– Senhora Montmart, Maya não existe mais. Eu sou a irmã Charity. Por favor, senhor inspetor ignore a falta de educação desta senhora. O senhor certamente é um bom homem temente a Deus, deve se sentir tão ofendido quanto eu.

– Irmã Charity, dizem que apenas Deus é bom e, para ser sincero, eu desconheço o Deus Bíblico. Eu conheço a Lei, a Justiça, a Verdade. Para achar quem matou dois homens, eu preciso que me digam quais suas relações com os finados. Lucia, eu preciso que também diga tudo que sabe.

– Ai que chato. Não vamos começar de novo com discussões religiosas e teológicas, por favor? Lou, eu preferia falar com você em particular. Mas se os presentes forem discretos e maduros, eu não tenho problema algum em falar com você aqui mesmo.

– Ora, ora, ora. Deixe um pouco para mim, Vera. Faz tempo que sua mãe não vê um homem de verdade. Você bem que podia aproveitar, Maya. Cinco minutos nos braços de Lou valem mais do que todos os anos que você passou no convento.

– Mam… senhora Montmart! Não seja indecente!

– Hahaha! A rainha do gelo enfim se quebra! Parabéns, Lou!

– Agradeço, senhoras, mas eu não estou em uma competição e eu não sou Paris. Minha prioridade é meu ofício e as senhoras precisam me ajudar a desvendar esse crime.

– Que chato. Eu conheci Nathan no Albergue. Gillian fazia um tipo de arte que a sociedade não aceita. Quem teve a ideia de usar Nathan como laranja artística foi Maya. Quanta ironia, ela queria salvar a vida dele, acabou o colocando no alvo.

– O Senhor opera por caminhos misteriosos.

– Eu pedi para parar com essa chatice. Meu marido, o senhor Keller, é um novo rico, não tem a nobreza e a fineza necessária para frequentar a Alta Sociedade então ele mais do que solicito aceitou minha indicação. Gillian e outros aceitaram esse canal e esse é nossa única conexão com o finado.

– Isso explica quase tudo, menos os dossiês que Mansfield colecionava. Eu acredito que, quem quer que o tenha matado, deva ter algum vinculo com esses dossiês e as sessões de imersão. Mansfield não tinha capacidade, conhecimento ou inteligência para esse tipo de trabalho. Deve ter uma rede de informações, como uma rede secreta ou espiões, se assim quiserem, que alimentava os artistas com modelos. Eu acredito que as senhoras tem mais a dizer sobre isso e poderiam dizer também os nomes dos demais artistas que faziam parte do esquema.

– Eu concordo, Lou. Vera, você tinha mais proximidade com Nathan, Gillian e os nossos colaboradores. Resolva isso. Por Gillian.

– Tudo bem, Lou. Eu te conto tudo, mas tudo mesmo, mas somente se você for em minha casa, depois de um jantar, algumas doses de bom whisky, dança, música, conversas intimas e sexo.

O caso Keller – VIII

Quando Magritte terminou de preencher a papelada burocrática na delegacia de polícia ele sentiu o peso das 16 horas de trabalho direto. Mas antes de ir embora, o inspetor foi falar com o delegado.

– Olá, Lou. Entre! Parabéns pela conclusão do caso. Você pegou um belo peixão. O comissário vai ficar irritado com seu sucesso. Vai se preparando, por que agora você é celebridade. A Imprensa vai querer te fotografar, fazer entrevistas, te convidar para programas.

– Chad, eu gostaria de continuar minha investigação.

– Ficou louco? Temos a confissão, os indícios. Se ele for para Júri e pegar um juiz barra pesada, é capaz de receber pena de morte.

– Nós temos que levar em conta a possibilidade de falso testemunho ou que o suspeito confessou para proteger alguém. Eu ainda tenho uma enorme lista de nomes como suspeitos, tem mais coisa para ser exposta.

– Olha, se isso é alguma coisa que você quer fazer para provar algo para o comissário, nem comece.

– Minha diferença com o comissário eu resolvo de outo jeito. Isso é profissional.

– Tudo bem, mas me mantenha informado. Tome cuidado, por que você está mexendo com gente muito perigosa e influente.

Magritte sabia que era um vespeiro. Desde que entrou na Academia de Policia, desde que começou a trabalhar para a segurança publica, ele sentia isso nos ossos. Ele perdeu a conta de quantas vezes ele prendia um suspeito em flagrante mas que, por ter contatos, saía livre no dia seguinte. Como inspetor a sua quota de risco aumentou exponencialmente. Algum dia ele iria encarar a morte. Mas antes de Tanatos, Magritte se entrega a Orfeu. Despenca em sua cama e apaga. Perde a noção de tempo e espaço. Repouso sem sonho. Quando o telefone toca, Magritte levanta surpreso ao perceber que havia dormido por doze horas. Ao telefone, a voz parecia turva, ele ainda estava sonolento, mas depois identificou que a voz era do delegado.

– Lou? Está me ouvindo? Venha rápido. Temos mais um corpo.

Magritte engole o resto de café que está na cafeteira por quase dois dias, vai ter que servir para despertar. Não é difícil encontrar uma viatura policial, transmitir a urgência e chegar ao 33° DP em quinze minutos. Chad estava muito nervoso. Isto nunca foi bom sinal.

– Parece que você estava certo, Lou. Nosso suspeito, réu confesso, foi encontrado morto na cela de segurança. Vinte facadas. Os peritos estão lá, mas tudo indica que foi a mesmo tipo de arma usada no falecido Mansfield.

Na área de detenção, uma confusão de jornalistas, policiais e detidos. Magritte respirou fundo. A cena estava comprometida. Ele não poderia sequer ligar este crime ao outro com tanta gente presente. Qualquer um com algum espírito de justiceiro poderia ter feito aquilo. A cela de segurança estava com sangue por todo lado. Ao menos os peritos usavam protetores plásticos cobrindo os sapatos. Não foi preciso que um perito lhe dissesse o óbvio. As vinte facadas foram nos lugares exatos onde Mansfield foi atingido. A intensidade e tipo de corte eram iguais. Magritte conhecia armas brancas o suficiente para saber qual foi usada em qualquer situação. Um alvoroço tirou sua concentração.

– Senhoras? Por favor, esta é uma cena de crime. O inspetor Magritte não pode ser interrompido.

– Saia da frente, Chad. Ele é nosso parente. Ou você nos deixa entrar ou ligamos para o governador e você vai trabalhar como vigilante de galinheiro.

O instinto de Magritte acende todos os avisos de perigo. O inspetor reconhecia a voz daquela mulher. Ele não se surpreende ao ver a senhora Montmart entrando na área de detenção. Também não fica surpreso ao ver que ela traz mais duas senhoras em companhia. Vera e a freira.

O caso Keller – VII

Magritte tem o dissabor de voltar a Ville de Monaco, um ambiente feito por e para ricos, pessoas que se iludem em se acharem melhores, especiais, simplesmente por terem mais riqueza, por entupirem suas residências dos mais diversos tipos de tralhas que se convencionou ser chique e elegante. A família Montmart tinha seu domicilio a poucas quadras de onde Mansfield morava. O inspetor podia sentir os olhares de cada vigia, dentro de suas guaritas, provavelmente pessoas de origens humildes, mas que se transformam por portar um distintivo, uma arma e por trabalhar com gente influente. Quando se aproximou do portão da mansão dos Montmart, uma voz familiar o saudou.

– Lou? É você mesmo? Sou eu, Abbot! Nós cursamos juntos a Academia de Polícia.

Segunda pessoa que Magritte encontra que tem um inconveniente elo com seu passado. O inspetor observa bem o vigilante. Alto, loiro, visivelmente mais gordo e careca. Se era a isto que seu colega de classe havia se reduzido, Magritte agradecia a seus ancestrais por terem evitado tal destino.

– Olá Abe. Eu gostaria de falar com alguém da família Montmart. Assunto policial.

– Veio investigar a morte de Nathan. Boa sorte, Lou. Essa gente é muito influente. Pode-se dizer que são eles quem decide quem é o governador e tudo mais. Não espere muita colaboração.

Magritte acena, passa pelo portão e segue um dos serviçais da casa até a entrada principal. Como é de se esperar, um mordomo o aguarda. Sujeito calado e frio. Muito diferente do Kent. O inspetor segue o mordomo mal-encarado até uma sala repleta de quinquilharias cafonas. Uma senhora o aguardava no sofá enquanto um senhor o observava, em pé, atrás do sofá. Com uma pronuncia acentuadamente britânica o homem o saudou.

– Senhor inspetor Magritte eu suponho? Eu estou ao seu dispor para responder suas perguntas.

– Senhor Montmart, eu suponho. Por favor, me desculpem pela intromissão, mas minha ocupação pede isto. Eu estou investigando a morte do senhor Mansfield e as pistas me trouxeram até aqui. Podem esclarecer a natureza de seus negócios com o finado?

– Hahaha. O inspetor é engraçado. Veja só, ele acha que eu sou seu marido. Pobre coitado, deve ainda viver naqueles ideais antiquados.

– Não faça pouco dele, Wilson. Pessoas simples pensam e vivem como nós dizemos para viverem. Senhor Magritte, a natureza de nossos negócios com o finado eram puramente artísticos.

– Senhora Montmart, quando fala em artístico, isso inclui na confecção das obras atribuídas ao senhor Mansfield?

Wilson fica visivelmente nervoso, mas a madame faz com que ele fique na mesma posição, simplesmente fechando seu leque. A mulher se levanta e se aproxima do inspetor e a aparência dela o fazia lembrar-se de Vera e da freira.

– Perdoe Wilson. Ele tem, digamos, o mesmo sangue que o seu. No entanto, na próxima vez, o senhor deve dirigir a palavra a mim apenas se eu permitir. E quando se dirigir a mim, trate-me pelo nome. Meu nome é Lucia. O pobre Nathan nos servia, seria um escândalo se o nome de nossa família estivesse associado a tal tipo de arte. Será que eu me fiz entender, Lou?

Magritte deu de ombros. Há mais do que meras coincidências. A Madre Justine não sucedeu a santa Madre Montmart por competência. A freira devia ter mais do que semelhanças com Vera. Os nomes dos patrocinadores que ele vira no banco estavam perigosamente próximos da família Montmart. O inspetor havia chego até ali, qualquer jornalista poderia chegar nessa mesma encruzilhada. Para Magritte pouco importava os devaneios e desvios que esses inúmeros anônimos cultivavam em segredo. Ele também tem seus segredos e Wilson certamente daria um tiro em sua cabeça se sequer desconfiasse de qualquer um deles. Nunca subestime um ser humano. Qualquer que seja sua situação social ou econômica.

– Eu não perderia meu tempo com essas bobagens, Lou. Meu filho Gilllian participava dos eventos. Wilson, traga Gil, por favor.

Magritte teve tempo de imaginar de onde Wilson veio. Policia Secreta? Agencia de Inteligência? Serviços Secretos? Operações Especiais? Pouco importa. Não havia coisa alguma que Wilson achava saber que ele mesmo não sabia. Wilson retorna com um garoto franzino, tímido, cheio de espinhas, usando óculos enormes, um perfeito geek.

– Pare, Wilson! Você tem que parar de me bater!

– Pare de chorar, Gil. Pelo amor de Deus, você é um Montmart. O inspetor Magritte veio nos visitar por que ele está investigando a morte do Nathan. Ele era seu amigo, tem algo a dizer para o inspetor?

Após minutos que pareceram uma eternidade, Gillian confessa. A senhora Lucia finge surpresa e desmaia. Wilson pede para não chamar a imprensa. Uma viatura chega em inexplicáveis cinco minutos. Algemado, Gillian é levado pela viatura. Magritte balbucia algo que se parece uma despedida e segue até ao 33° DP. Ele teria muito papel a preencher.

O caso Keller – VI

Magritte olhava para todos os lados enquanto se dirigia ao Albergue Dominicano. Ele havia tido a impressão de que estava sendo seguido e persistia a impressão de que estava sendo observado. Uma boa olhada ao redor antes de entrar no albergue. Um casarão em avançado estado de decadência. O inspetor tentava imaginar sua aparência quando foi inaugurado, por volta de 1807, certamente com pompa e cerimônia. Os anos passam, coroas trocam de cabeças, o ser humano adquiriu consciência de cidadania, a Igreja perdeu sua força. Na frente do frontispício, a pesada porta de carvalho estava coberta de cal e um pesado sino pendia do alpendre. O inspetor faz o sino troar com movimentos vigorosos. Uma voz feminina lhe responde do outro lado da porta.

– Sim? Quem é? O que deseja?

– Eu sou o inspetor Magritte, irmã. Eu gostaria de falar com o responsável sobre um possível ex-interno.

A porta abre e Magritte se assusta com a semelhança desta freira com a senhora Keller.

– Magritte? O senhor deve ter vindo por causa da investigação a respeito do pobre senhor Mansfield. A Madre Superiora irá falar com o senhor.

Suas visitas estão demonstrando estar mais bem informado do que ele e isso incomoda. Ninguém recebe um inspetor de polícia com indiferença. Medo, nervosismo, negação, são as formas como as pessoas agem diante da visita de um inspetor. Seus visitados pareciam aguarda-lo. Tranquilidade, cooperação e neutralidade, são comportamentos inesperados. Dentro do albergue, os sinais de degradação são mais evidentes. Como estas irmãs se sustentam, como conseguem dar apoio a tantos desvalidos, é algo inexplicável.

– Aguarde, inspetor. Eu volto daqui a pouco.

– Desculpe, irmã, mas por acaso tem algum parente?

– Meus únicos parentes são minhas irmãs neste convento, inspetor. Eu cortei todos meus laços com o mundo externo ao fazer meus votos.

Magritte se lembra de seu pai falando de suas memórias de infância, quando seu pai era interno em um colégio de padres. As coisas que ele contava teriam acontecido aqui? Quantos fetos estariam enterrados nos jardins do convento? Quantas torturas essas mulheres teriam suportado em busca de uma comunhão com um Deus forjado? Ao sentir o clima pesado, sério, asséptico, estéril, Magritte agradece aos Deuses por ter encontrado o Caminho dos Bosques Sagrados.

– Hã… inspetor? A Madre Superiora irá falar com o senhor agora.

Magritte entra no escritório, apinhado de papéis, santos, terços, velas, ex-votos e esmoleres. Em uma mesa simples, mas feita de madeira maciça, uma senhora lhe fitava com nítido interesse.

– Boa tarde, inspetor. Eu sou a Madre Justine. O senhor veio aqui, eu suponho, para saber mais do senhor Mansfield.

– Exatamente, Madre Justine. Eu acredito que talvez eu possa achar algum indicio que indique o responsável ou responsáveis pela morte dele.

– Inspetor, eu creio ser desnecessário avisar que nossos arquivos são confidenciais. Nós gostamos de preservar o pouco de dignidade que essas pobres almas possam ter.

– Certamente a senhora pode contar com minha discrição. Permita-me olhar o registro do senhor Mansfield. Eu não citarei a fonte de minha pesquisa.

– Eu deixarei, mediante a minha supervisão.

Magritte dá de ombros. A Madre se levanta e, tomando o braço do inspetor, vai indicando o caminho até o arquivo geral. Habilmente, ela abre uma gaveta, sem qualquer tipo de marcação ou índice, saca uma pasta de uma enorme fila e entrega a Magritte.

– Pode começar seus apontamentos, inspetor.

Alguns dados comuns batiam com o que ele vira no banco. Mansfield dera entrada no albergue aos vinte anos. Mas a certidão de nascimento não batia. No banco, ele nascera em Riviera. No albergue, ele nascera em Tristen. Um indício preocupante é que o nome de Mansfield nessa certidão de nascimento havia sido hachurado. Seus olhos vão diretamente para a Madre, com enorme suspeita.

– Madre, qual era o nome de Mansfield?

– Eu não saberia te dizer, inspetor. O finado Mansfield ingressou em nosso albergue na gestão da Madre anterior. Eu não tinha acesso aos arquivos, então estavam assim quando assumi.

Magritte então dá um salto de gato. Ele podia ir a Tristen, checar os arquivos públicos, olhar por data e mostrar fotos de Mansfield para o povo local, mas antes ele tinha que jogar uma isca.

– Madre, quem era sua antecessora?

– Minha antecessora era a muito santa e imaculada senhora Montmart.

O instinto de Magritte apitou feito alarme de incêndio. Montmart era um dos nomes, tanto no banco, quanto nos dossiês de Mansfield. A antecessora da atual Madre, como muitos religiosos, tinha uma vida dupla. Próxima parada, família Montmart.

O caso Keller – V

Magritte gastou algumas horas, viajando na maionese, conversando com Raebeth, lembranças da escola, das aventuras, das descobertas dos corpos. Pouco havia mudado, Rae tinha ficado maior, seus cabelos estavam cor laranja, pistas indicavam filho e marido, mas o cheiro e o corpo pareciam ser os mesmos. Ele sabia aonde isso ia dar, Rae foi sua primeira e ele foi seu primeiro, até onde ele sabe e Rae dava sinais de que estava disposta a reacender a chama.

– Rae, eu passaria a tarde toda aqui com você, mas eu estou investigando um crime.

– Ah! O tal do Mansfield, não é? Enfim, alguém deu ao bastardo o que merecia.

– Pelo visto o conhecia. O problema é que eu cheguei até você. Pela sua reação, eu tenho que te considerar uma suspeita.

– Eu? Sério, Lou? Só se eu o matasse de prazer. Se eu me lembro, você quem era o Lobo Mau. Quantos você surrou? Quantos você matou?

– Eu não sei. Eu fui parar no Reformatório e de lá entrei para a Policia. Acordo na justiça. Agora eu mato com autorização do Estado. Doce ironia. Diga-me tudo o que sabe de Mansfield e onde você estava ontem à noite, por volta das 20h.

– Você deve ter descoberto que ele era um mendigo. Visitou o Albergue Dominicano?

– Minha próxima visita.

– Bom, ontem às 20h eu estava em casa, minhas vizinhas estavam aqui conversando comigo quando veio o boletim urgente sobre a morte de Mansfield. Ele poderia estar vivo agora, se não quisesse tentar ser esperto. Nenhuma de suas obras primas é de autoria dele. Ele quis mais. Transformaram-no em peça de arte.

– Transformado em peça de arte? Como assim? Quem poderia ter feito isso?

– Arte contemporânea, Lou. Gente rica quer que seja desafiador, insultante, obsceno, repugnante. Uma artista se autoflagelou como parte de sua arte performática. Mansfield apenas desceu mais o nível. Diga pornografia infantil, alusão a abuso sexual, tortura sexual… esse é Mansfield. Bondage, sado-masoquismo, incesto… por Deus, eram tão jovens!

– Eu achei sua ficha na casa de Mansfield. Então você esteve envolvida na produção dessas peças de arte. Até que ponto? Quem mais?

– Eu funcionava como uma facilitadora. Eu era vestida como uma sacerdotisa, Lou. Aqueles que eram escolhidos vinham com seus pais ou com sentenças judiciais para participarem do que chamamos de imersão. Na casa de Mansfield, no porão, ficávamos uma semana, isolados do mundo, sem regras, sem inibições. Eu via os flashes, ouvia as filmadoras, barulho de gravadores, laptops sendo digitados. Mas não via quem eram os verdadeiros artistas. Mansfield era apenas um testa de ferro, um laranja, um qualquer, fácil de se livrar caso nossas experiências viesssem a publico. Infelizmente eu nunca vi ou falei com os reais responsáveis. Mansfield era meu único contato.

Magritte ficou convencido da inocência de Rae, mas o Júri ficaria convencido? Havia muitas evidências apontando para ela, embora ela tivesse álibi. O inspetor deveria achar alguma pista que o levasse aos artistas que se escondiam por detrás de Mansfield para exporem seus devaneios. Ele apostou suas fichas no Albergue Dominicano. Uma aposta amarga, pois a vida de Rae estava na mesa. Partiu, depois de beijar sua antiga namorada com todo amor que havia guardado para ela. Os olhos… não olhe para os olhos… não olhe para trás… siga adiante, Magritte!