Somos crianças grandes

O que argumento em meus textos diz respeito a três pontos:

1) uma boa parte de nós não utiliza a palavra “pedofilia” segundo algum critério claro, confundindo o que pode ser doença, e que não necessariamente envolve violência, com relacionamentos que não são nitidamente patológicos, correspondendo ao abuso sexual;

2) não raro, chama-se de “pedófilo” até mesmo o homem ou mulher mais velhos que estão em relacionamento corriqueiro com mais jovens, que dependendo da cultura não são tomados como crianças, e que de fato consentiram com o relacionamento;

3) em nossa sociedade o termo “pedófilo” tem funcionado como sinônimo de “monstro”, de modo que se gritado na rua, pode gerar até mesmo linchamento do apontado, isso sem contar os danos relativos a inocentes (de todo ou de prática de violência), no trabalho e na vida familiar.

Nós pagamos um preço a pagar por sermos infantis. Nenhum de nós pode dizer que, em todos os níveis e características, é adulto e, se pode, lá sabe Deus o preço. Nada é mais perverso que a tentativa de punir aquele que é um monstro igual a nós, porque come carne como nós, embora paire sobre ele a acusação de comer carne humana, aquela que também comeríamos.

Não temos a coragem de perguntar qualquer coisa séria a nosso respeito. Mas não queremos saber disso. Não enfrentamos a histeria da pedofilia porque não enfrentamos a nós próprios, nem a Rousseau.

Não nos tornamos tão adultos quanto propagandeamos que somos ou quanto queremos que nossos filhos acreditem que somos. Nenhum de nós.  E fugimos de ter de pensar nessa nossa condição. Não enfrentamos o filósofo Jean-Jacques Rousseau, o inventor do Romantismo, ou doutrina que, entre outras coisas, alterou a nossa concepção de infância, tornando-a uma fase natural, inocente e criativa.

Podemos nos proteger nos dizendo adultos, ainda que tenhamos sérias desconfianças de que somos apenas crianças grandes. Mas se vamos nos passar por crianças, segundo conveniências ou escorregões do momento, podemos nos enaltecer porque nos lembramos de Rousseau, que diz que criança é tudo de bom e que merecemos, como crianças grandes, porém crianças, proteção e, ao mesmo tempo, liberdade. Nossa vida moderna, ou melhor, contemporânea, não nos deixa crescer. Então, agarramos Rousseau, ou o senso comum impregnado de seus ideais, como uma vitamina compensatória diante de refeições fracas que não nos deixaram crescer, ainda que não queiramos revelar essa nossa infantilidade. Rousseau nos faz vitoriosos na nossa derrota.

No entanto, quando apanhados em um trânsito narrativo que vai do interior de nossas casas e quartos  para a sociedade, para a casa dos outros e nos devolve para nossa casa, então, tudo se revela. Na correia de transmissão entre psicologia e sociologia, entre o eu e os outros, tudo se esclarece. Nossa condição de crianças grandes é exposta sem dó.

Nós não enfrentamos a nós mesmos, pois estamos sob a aura da natureza, do mundo romântico. Sendo crianças, somos inocentes. Naturalmente bons e inocentes. Não nos enfrentando, não poderemos enfrentar a histeria da pedofilia e nossas paranoias. Que aquele que não cresceu por patologia pague pelos que não cresceram porque simplesmente não cresceram.

Fonte [com edição da casa]: Prof. Paulo Ghiraldelli Jr.

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