A adolescência e o êxito da pederastia

Adolescência e Pederastia – por que não compreendemos melhor essas relações de modo a compreender nossas instituições fracassadas diante do fenômeno da “explosão dos hormônios”?

As sociedades complexas nunca conseguiram lidar com o fenômeno que hoje, em termos bem amplos, chamamos de “adolescência”. Só uma única sociedade complexa erigiu uma instituição com êxito nessa tarefa. A Grécia antiga conseguiu por meio da instituição educacional chamada pederastia, um elemento chave da paideia, apresentar um caminho para a atribulada fase que leva o jovem à vida adulta.

Durante algum tempo a sociedade moderna tentou imitar esse ensinamento grego. Mas, no contexto da evolução dos tempos modernos, as coisas foram para outro lado. Com medo da homossexualidade, temor emergente na era vitoriana e na era do trabalho como valor moral máximo, a sociedade moderna tentou fazer o que podia para acomodar as coisas. De certo modo, por um lado, tentou continuar por meio de seminários internos e semi-externato aquilo que a Igreja herdou do mundo clássico – e que tantos problemas lhe causou bem mais tarde. Mas, por outro lado, substituiu o amante mais velho, responsável pela integração do jovem amado na sociedade adulta, pelo esportista mais velho ou por um tio ou um amigo de confiança do pai e similares. Foi o reconhecimento de que a escola podia fazer uma parte do serviço, mas que falhava principalmente nas situações mais agudas quando o adolescente ia além de um simples “aborrescente”. A sociedade moderna sempre soube que na fase dos hormônios enlouquecidos só os doutores em hormônios, ou seja, os homens capazes de ficar loucos de amor (1), é que entendiam o que podia ser a adolescência. Esses homens sensíveis davam um empurrãozinho no amadurecimento do jovem. Esse empurrãozinho sempre foi mais benéfico que maléfico, mesmo quando envenenados por bisbilhoteiros da família ou mal-amados em geral.

Essa fórmula ainda existe no Ocidente, mas ela se desgasta rapidamente em um mundo liberal cujos recíprocos aspectos comunitários são dados pela “comunicação de todos com todos”, como a Internet, por exemplo. No entanto, no underground ou, agora, no semi-underground, ainda é a herança da pederastia que, não raro, salva muitos adolescentes de situações que iriam lhes comprometer para o resto da vida, e do pior modo possível. Uma sociedade complexa parece precisar muito dessa relação regida pelo deus Eros para aprumar seus adolescentes. Uma sociedade simples tem ritos de passagem, uma sociedade complexa precisa de companheiros de passagem.

Estou longe da defesa da tese de que a sociedade complexa moderna deve abandonar o apoio maciço à escola, aos professores, às instituições culturais como cinema, teatro, práticas esportivas, práticas artísticas e tudo que se faz em torno da ideia de que é necessário perder menos adolescente do que já perdemos (o Brasil aumentou sua expectativa de vida, mas ainda é campeão em mortes de jovens). Mas deixar de lado o êxito grego da pederastia, vendo-o como algo de êxito bem debaixo de nossos focinhos, é estupidez.

O amor entre pessoas do mesmo sexo ou, como já se diz agora, o “amor de pessoas com pessoas” (o que significa o fim da chamada identidade sexual ou orientação sexual etc.) é uma forma de encaminhamento da vida do adolescente que se faz necessária, contra as soluções que nada ou pouco ajudam no caso, como a diminuição da maioridade penal etc. Todos nós que agora estamos aqui, sem grandes marcas, sabemos que muitos de nossos colegas, na adolescência, ganharam a morte ou então o fracasso perante a prisão, a droga, o esfacelamento moral, o racha de carros, o desafio tolo,  a exposição irracional a uma polícia conhecida pela violência etc. Nós, com um pouco mais de sorte escapamos. Uma boa parte de nós escapou por conta de um amor. Um parceiro ou parceira com “um pouco mais de cabeça” nos protegeu, nos guiou, nos retirou na hora “H” do problema, nos conteve nas “explosões de hormônios”, no fez voltar cedo para casa, nos convidou para a utopia da vida familiar etc. Namoradas ou namorados fizeram isso. Muito mais que pais, mães ou escola. Mas, nisso tudo, namorados mais velhos ou namoradas mais velhas, mas principalmente em relações masculinas, foram os que mostraram que a velha e boa pederastia tinha lá sua razão de ter um dia sido a coqueluche da paideia grega. Os gregos realmente sabiam das coisas. Eles souberam estabelecer um ponte para a criança que não é mais criança, mas que ainda não é adulto, ter um lugar de destaque. Um lugar no coração de alguém que pode tratá-lo como adulto e, ainda assim, reconhecer nele um jovem, é um lugar de destaque.

O homossexual mais velho que “adota” o jovem adolescente ou que até mesmo já inicia a proteção do pré-adolescente está longe de ser um corruptor. Corruptor foi Sócrates, que tentava inverter a relação de pederastia (e nisso corrompia a própria pederastia, não os jovens), como expliquei em outros textos. O pederasta busca realmente fazer a pederastia funcionar nos seus moldes tradicionais, protegendo seu garoto e, não raro, lhe dando passagem para a sociedade adulta de um modo “natural”. Aprende-se a dirigir carro com esse homem, a amar, a ver a cultura com outros olhos e, principalmente, o jovem pode sair de casa sem estar vinculado ao bando, às arruaças, aos exibicionismos típicos dessa fase, que acabam sempre na infração – com graus de perigoso variados. Um estudo sociológico e histórico desse fenômeno na sociedade ocidental e, mesmo na nossa atual, poderia mostrar bem o êxito pedagógico dessa herança da pederastia, tendo ou não essa prática envolvido relações como coito etc. No entanto, até agora não temos tido coragem de levar adiante pesquisas sobre o assunto.

A sociedade moderna ainda está impregnada dos ideais da sociedade burguesa clássica, de culto ao trabalho misturado com moralismo vitoriano, que se casam bem com a ideia de que amor, sexo e lazer devem ser tirados da cabeça da população. Sabendo o quanto são quentes os amores homossexuais, mais ainda essa sociedade os teme. Então, não deixa esse elo com o mundo grego avançar e fazer sua parte, nem como ensinamento distante. Se isso ocorresse, jogaríamos por terra toda essa ideia de formar cidadãos através da punição extraescolar, que está na base do pensamento conservador, e que pede a diminuição da maioridade penal. Era a estabilidade entre amante e amado, de responsabilidade de ambos, que deixava com que a explosão hormonal não inviabilizasse a vida do jovem na Grécia antiga.

Daqui alguns anos quando o ideia de heterossexualidade como algo “normal” ficar abolida – e isso vai ocorrer de modo mais rápido do que se imagina, pois a heterossexualidade é apenas lenda urbana – poderemos voltar a compreender o papel da pederastia. Daremos menos importância aos membros sexuais e mais importância aos modos pelos quais essas relações se viabilizaram. Aprenderemos sobre como foi possível o êxito de tal instituição. As pesquisas se abrirão para isso. Até os professores de filosofia atuais, que não sendo filósofos, não tocam no assunto, aprenderão. E ganharemos uma compreensão de como que uma transição jovem-adulto que teve sucesso poderá servir para pensarmos melhor a nossa transição jovem-adulto, que, por sinal, não vem dando certo.

(1) Sobre a loucura do amor ver o Fedro, de Platão, uma complexa obra em que há dois discursos de Sócrates, um considerando o amor uma loucura, o outro dizendo que se trata da boa loucura.

Fonte: Paulo Ghiraldelli.

PS: mais que todos os outros textos meus, este realmente é só para inteligentes.

PS: Pedofilia não é crime no Brasil. O termo cabe, mas, mesmo assim não totalmente, no âmbito de quadro clínico, quadro patológico. Aliás, não é crime exatamente porque “pedofilia” é um termo amplo, pode não ter nada a ver com o que anda hoje em dia com tal na mentalidade popular, que é abuso sexual com violências de criancinhas – e este sim é crime, ainda que também seja doença. Agora, cuidado com os termos: pedofilia é uma coisa, pederastia é outra. O texto acima é só sobre pederastia – a instituição educacional grega e sua herança. OK? Se você não tem condições de apreender a mensagem do artigo porque não terminou direito o ensino médio, primeiro termine, se eduque e depois volte sem preconceito de bobinho aqui, tá? Faça isso, não tente fazer diferente, não dá.

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Uma ideia sobre “A adolescência e o êxito da pederastia

  1. lilithfromhellvan

    Estou chocada (no bom sentido), impressionada em saber que existem pessoas sendo pessoas, que se aceitam como “animais” que dão e sentem prazer do jeito que for, independente da fantasia ridícula de que o sexo é algo sujo, feio, do mal, horrível, agressivo, e que é errado sentir tesão… O tesão não tem sexo, nem raça, nem idade. É um prazer da carne, a carne. Somos todos fonte de prazer para nossos semelhantes, hereros, homos, multi na hora do prazer, da entrega, da loucura que é se entregar ao seu instinto natural, se sentir vivo, fazendo com vontade, tendo um pênis ou uma vagina, sendo bem feito, te dando prazer, te fazendo gozar. Que diferença faz? Um exemplo: faz diferença se você comer a carne de um boi ou uma vaca? A necessidade é matar a fome. “Mas veja que coisa mais cruel, mastigar a carne de um animalzinho inocente morto.” Então me chupa PORRA, seu humanuzinho bobinho porque tô bem viva e não sou um animal inocente, sou má, sou boa, erro, acerto, não preciso ser perfeita pra ninguém, muito menos pra ser aceita na hipocrisia da sociedade.

    Resposta

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