Meu pecado é o seu medo

– Olá ouvintes de Alice Pergunta. Hoje nós estamos na Floresta Negra para entrevistarmos o Lobo Mau.

– Hei, essa área é particular! Intrusos não são bem vindos!

– Olá, Lobo Mau, eu sou Alice do programa Alice Pergunta, o senhor deve conhecer.

– Nunca tive esse desprazer. Eu vivo na Floresta Negra exatamente para evitar contato com humanos.

– Mas nosso programa também é feito para as criaturas mágicas que vivem nas florestas. O senhor deve ter visto nosso programa na internet.

– Internet? Eu não tenho sequer rádio. Quiseram me vender um telefone. Eu os comi.

– Ora, o senhor deve ler algum jornal local.

– Sim eu leio O Salgueiro. Ah, eu lembro de ter lido algo sobre seu programa. Mas o que a senhorita veio fazer aqui?

– Nós viemos para entrevistar o senhor, afinal, nosso programa sempre quer ouvir o outro lado da história.

– História? Que história?

– A do senhor com a Chapeuzinho Vermelho que muitos condenam como pedofilia.

– Pelos ossos podres do barão. Essa história de novo? Depois de tanto tempo? Eu vou dizer somente mais uma vez. Eu não sou pedófilo.

– Claro que não, Lobo Mau. Por isso mesmo que viemos para te entrevistar, deixar que o senhor conte o seu lado.

– Então vamos começar certo. Meu nome é Stuart. Lobo Mau é uma alcunha que meus detratores usam. Eu morava em uma vila aqui próximo. Eu tinha uma vida simples e feliz, ajudava até humanos nas celebrações aos Deuses. Mas vocês humanos são problemáticos. Sempre que vinham aconteciam problemas. Meu povo recorria a mim por que o humano tinha medo e respeito por eu ser lobo. Sabe como é dificil ter que fazer algo e carregar a culpa que nos atribui? Eu fiquei conhecido como Lobo Mau porque expulsei os humanos.

– Isto é incrivel, Stuart e acredite eu sei o que o senhor sente. Eu tive problemas com a Rainha de Copas. Mas e quanto a Chapeuzinho Vermelho?

– O nome dela era Shirley. Ela usa a alcunha de Chapeuzinho Vermelho para enganar seu povo. Humanos não sabem ficar no lugar deles. Shirley começou a vir para a vila, com outros jovens, supostamente para fazer rituais de bruxaria. Eu conheço bruxas. Aquilo que ela fazia era ridículo demais, mas os humanos a aclamavam como bruxa, como sacerdotisa da Deusa. Certamente alguma coisa que ela copiou de algum livro. Ela chegava com aquele capuz vermelho, acompanhado de outros jovens com capuzes marrons nas cerimônias, querendo participar. A quem meu povo recorreu de novo? Ao Lobo Mau. E eu tive que fazer jus à minha reputação. Shirley não gostou e começou a me difamar entre os humanos. Os humanos, preguiçosos, ignorantes, iludidos, acreditavam mais nela e em suas alegações do que no que eu dizia.

– Acredite, Stuart, nem todos humanos acreditaram nessa Shirley. Pena que sejamos poucos. Mas e quanto a acusação de pedofilia?

– Alice, vá até a vila onde eu morei por anos. Veja se há alguma denuncia, acusação ou processo contra mim. Se não fosse por Shirley e sua massa de humanos manipulados, eu continuaria a viver nessa vila. Mas acabei sendo banido da convivência com os meus pela palavra de uma descelerada.

– Então a acusação foi apenas verbal, parte da campanha de calúnia, injúria e difamação da Shirley?

– Completamente. Eu não espero que humanos entendam, afinal vocês são esquisitos e complicados. Meu mundo e meus valores são de outro mundo. Vocês acreditam que uma pessoa é capaz ou incapaz de certos atos de acordo com uma idade. Isso é discriminação etária. O que vocês chamam de pedofilia, que se tornou um tipo de histeria e paranóia, simplesmente não faz sentido. Segundo vocês, a pedofilia é o abuso sexual cometido contra menores. Abuso sexual é crime, independente da idade. Vocês criaram um limite arbitrário a partir do qual o abuso se torna mais hediondo. E nunca discutiram como é sem sentido esse limite da “idade de consentimento”. Eu perdi a conta de quantas vezes eu vi gente do seu povo ter que fugir, até nobres, de suas casas, só porque uma pessoa do casal estava abaixo da idade permitida. A senhorita deve conhecer Cinderela, Branca de Neve, Rapunzel.

– Sim, nós conhecemos. Mas eu ainda não entendi o que este caso tenha a ver com a Shirley.

– Tudo. Shirley procurou uma forma de ser aceita e reconhecida como bruxa e como sacerdotisa da Deusa. Eu acho que foi através dessa tal de internet que ela achou a Selene. Ela praticamente a adotou como avó e seu povo a chamou de Vovózinha. A quem Selene apelou para se livrar da mala? Ao Lobo Mau. Eu amo Selene. Eu faço qualquer coisa por ela. A idéia era de amedrontar a Shirley. Mostar apenas um pedacinho do que é Bruxaria. O problema é que Selene, apesar de ser Anciâ no ofício, tem somente três anos a mais do que a Shirley. Para seu povo ela estava em uma idade limítrofe, dependendo do caso e circunstância. Shirley não quis nem saber. Saiu correndo assim que Selene tirou a roupa para que eu realizassem com ela o Grande Ritual. Estava feito o estrago. A história dela foi divulgada e foi desconsiderado qualquer circunstância.

– Então a história que ela conta de que o senhor comeu a Vovózinha e depois tentou comê-la não é toda a história?

– Digamos que é a versão dela, que certamente traz grande satisfação aos psicólogos. Shirley no fundo queria ser Selene. Como muitas mulheres, ela vive um dilema entre o que sente e o que a sociedade do seu povo manda. Vocês são realmente esquisitos. Inventam regras para o amor. Inventam regras para os relacionamentos. Inventam regras para as idades. Depois ficam procurando soluções para os problemas que vocês mesmos criaram. Como se isso não fosse suficiente, colocam todos seus medos e inseguranças em coisas e seres, como se fossem culpados. Meu pecado é o seu medo.

– Sua história é fantástica, Stuart! Eu tenho certeza de que nosso público entendeu e gostou de sua mensagem. A guisa de informação, a Chapeuzinho Vermelho, ou melhor, a Shirley, caiu em desgraça. Recentemente Selene em pessoa foi até a prefeitura local e desmascarou a farsante. Minha vinda aqui foi intencional. Eu quis trazer ao senhor um convite para participar de uma cerimônia de desagravo, onde o senhor poderá recuperar todas as suas atribuições.

– Oh, puxa… obrigado. Eu nem sei o que dizer, depois de ter me comportado tão mal. A senhorita merece um beijo.

– Depois da festa nós podemos conversar sobre isso. Aqui é Alice, sua apresentadora do Alice Pergunta. Até a próxima, pessoal!

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