O duro ofício do malvado – I

Na Floresta Sagrada, quando o sol começa a despontar no horizonte, uma criatura acorda no fundo de uma caverna, lava seus olhos na cachoeira, pega seu tacape feito de tronco de carvalho e se posta em sua vigília. Korg não se lembra a quanto tempo faz isto, mas ele faz desde que era pequeno, desde o tempo dos Deuses, quando os humanos não existiam.

Outros seres da floresta sequer se aproximavam dele. Olhavam para ele e clamavam: Troll! Por muito tempo a Floresta Sagrada ficou intocada, mas o ser humano é outra história. Humanos, quando tem um bom motivo, ou são estimulados a algo, eles não desistem. Korg ouve falar do que o humano fez em outros lugares e fica pensando se é ele que é o malvado. De tempos em tempos, chegam humanos, com uniformes engraçados, trazendo armas, tentando derrubá-lo, certamente para pilharem e destruirem a Floresta Sagrada.

– Troll! Em nome do rei de Aquitânia, eu irei derrubá-lo!

Korg olha o cavaleiro, em seu cavalo e armadura, cercado por um efetivo de cem soldados. Os humanos inventam armas interessantes, Korg reconhece uma catapulta, uma besta grande, torres de combate. Nenhum artefato que leve madeira, pedra ou ferro pode atingí-lo. Jogaram um tipo de vaso que explodiu. A explosão o surpreendeu, mas não o feriu.

– Avante! Pela honra de Aquitânia!

O cavaleiro faz a carga, indo à frente do pelotão, com toda aquela gritaria e cornetas irritantes. Korg suspira, espera o momento certo e com um leve aceno acerta todo o exército com seu tacape. A força é suficiente para jogar os humanos a metros de distância, muitos caindo retalhados, mortos ou gravemente feridos. Korg nunca teve que usar muito de sua força para combater os humanos.

– Hei! Malvado! Precisava bater tão forte?

Korg olha para o ponto de onde veio o exército e percebe que ficaram um cavaleiro, um mago e um arqueiro.

– Malvado? Vocês vem com seus cavalos, armaduras, armas, em grupo, para invadir a Floresta Sagrada e eu sou malvado?

– Sim, malvado! Nós viemos em nome do rei! Não tem respeito?

– Respeito? Por um humano que acha ter o poder por causa de uma coroa? Por um humano que manda outros humanos para resolver suas lutas? Por um humano que por ganância e cobiça deseja invadir a Floresta Sagrada? Vocês, humanos, quem deviam mostrar respeito.

– Hah! Respeito por um punhado de árvores? Cortamos várias no caminho, sem quem as chorasse. Por que essa floresta é diferente, melhor que as outras?

– Tolo humano. Sua espécie há de descobrir da pior maneira que cortar árvores é o mesmo que cortar os pulsos.

– Basta! Eu e minhas amigas iremos derrubá-lo, em nome do rei de Aquitânia!

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