O presente especial – II

Vem segunda, a rotina e o estresse nos rondando, prontos para dar o bote. O serviço se multiplica, quem é trabalhador sabe bem como é essa sensação de que se está enxugando gelo. Há mais de 20 anos que nossa função é executada do mesmo jeito, de forma precária, improvisada. Há tempos que eu desisti de lutar por melhorias, recursos e tecnologia. Para a diretoria, enquanto estiver funcionando, está bom. Mas a cobrança é pesada quando acontece uma falha ou lacuna. E não adianta brigar, falando pro chefe ou diretor que falhas e lacunas acontecem porque faltam recursos para a execução do serviço.

Passa terça, quarta, quinta. Chega sexta e todo mundo fica alucinado, olhando os minutos que faltam para o fim de semana. Todos doidos para tomar cerveja, ir para a balada, azarar as mulheres, gastar o dinheiro que não tem em boate. Eu fico até mais tarde, escrevendo meus contos, lendo notícias, procurando novidades, atendendo os últimos pedidos. Eu me sirvo de café, para controlar o sono acumulado, quando meu celular toca.

– Oi, Léo. Vem aí um fim de semana prolongado. Você vai estar de folga?

– Sim e a senhora está pagando.

– Se todos fossem como você, eu não me incomodava em pagar. Mas a maioria é preguiçosa. Escuta, eu e a Carla vamos no clube. Que tal você e Vânia virem junto?

– Eu vou ligar pra minha fofucha e perguntar. Qualquer coisa, nós ligamos de volta, para combinar.

– Eu falei com ela, mas ligue mesmo assim.

Despedidas, palavras de duplo sentido, provocações, piadas, abraços e beijos trocados, eu ligo para a dona da pensão.

– Oi amor. Letícia ligou. Ela nos convidou para irmos ao clube nesse fim de semana prolongado. Vamos?

– Oi amor. Ela falou comigo também. Achei a ideia ótima. Sábado vamos todos no clube e ficamos três dias. Nós precisamos descansar.

– Ótimo. Então vamos acordar cedo no sábado, certo?

– Acordar cedo, não madrugar.

Despedidas, palavras de duplo sentido, provocações, piadas, abraços e beijos trocados. Eu acordo cedo, com de praxe, preparo o café. Vânia desce bem depois. Toca a campainha. Letícia e Carla chegam. Eu as convido a tomar café conosco. Piadas, trocadilhos, provocações, palavras de duplo sentido. Até parece que compartilham as mesmas coisas. Vânia pelo menos se arruma rapidamente. O transito ajuda e chegamos antes do almoço. Almoçamos, passeamos pela vila, tomamos sorvete, apreciamos o por do sol. Ao chegar na recepção dos quartos do clube, uma surpresa.

– Senhor, estamos com quase todos os quartos lotados. Há algum problema em o senhor e sua família dividirem um quarto duplex? Devido o incômodo, cobraremos o mesmo preço de dois quartos simples.

Eu tento processar a informação, mas pela alegria das minhas meninas, parece que está tudo bem. Não é a primeira vez que iremos dividir um quarto. Eu peguei a chave enquanto elas seguem adiante, fazendo mais piadas, mais trocadilhos e palavras de duplo sentido. A despeito da intimidade que tenho com elas, eu me sinto um pouco constrangido. Eu sinto adagas saindo dos olhos de outros hóspedes. Eu e Vânia ficamos com uma cama de casal, Letícia e Carla ficam com outra. Em instantes, todas dormem, mas o sono custa a chegar para mim. Eu escrevo contos assim, mas nunca imaginei que fosse vivenciar um.

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