O presente especial – I

– Léo, olha só essa blusa. Combina bem com essa saia?

– Eu acho que combina melhor com esta calça.

– Essa calça tem uma modelagem que não combina com a blusa e a saia tem uma estampa que não combina. Que tal essa blusa com essa calça?

– Nossa, tio, ficou show!

Eu acompanho pacientemente minha esposa, minha cunhada e minha sobrinha nas inevitáveis compras de fim de ano. Estamos passando pela quinta vez no mesmo lugar, mas eu gosto de acompanhar minhas meninas, com elas eu vejo coisas que eu não veria se fosse fazer compras sozinho. Sem falar que aprendo a cada dia um pouco mais desse maravilhoso, colorido e sensual mundo feminino que eu amo tanto. A beira dos 50 anos, eu não sou mais inseguro de minha sexualidade, identidade e opção sexual. Por tabela, acabei aprendendo sobre moda, assessórios, maquiagem, sem deixar minha masculinidade de lado.

– Fechou. Vamos pagar. A blusa você vai pagar pra mim, né, cunhadão?

– Qualquer coisa para você minha cunhada que eu amo de paixão.

Letícia ri. Vânia finge brigar comigo. Carla finge que não ouve. Eu conheci Letícia e Vânia no mesmo dia. Foi esquisito namorar uma, sentindo atração por outra. Depois Letícia acabou casando com outro homem e eu me casei com Vânia. Carla nasceu pouco depois, filha de Letícia e nossa sobrinha. Letícia e Vânia são irmãs como raramente se vê. Eu queria ter esse tipo de vínculo com meus irmãos. Enfim, pessoas diferentes, famílias diferentes.

– Tio, vamos comer? Toda essa compra me deixou com fome.

Eu e Vânia praticamente criamos Carla juntos com Letícia. Quando reformaram a casa, dormiram conosco. Depois da minha cirurgia, elas vinham me visitar e dormiram em minha casa. Eu tinha uma intimidade com Letícia que parecíamos namorados. Carla herdou essa intimidade, gerando algumas confusões e mal-entendidos, mas nada muito grave. Pedro e eu fazíamos churrasco juntos, bebíamos cervejas juntos e falávamos de mulher como se fôssemos solteiros. Se Pedro tinha ciúmes de mim, disfarçava muito bem.

– Vamos. O que vai ser dessa vez? Hamburger, esfiha ou pizza?

– Meu aniversário está perto. Vamos no rodízio de comida asiática?

– Poxa, vocês vão estourar meu cartão!

– Ah, mas nós merecemos! Nós somos suas meninas!

Eu desfilava ao lado das três, todo orgulhoso, eu sabia que muito homem me invejava e muita mulher me censurava. Em pleno século XXI, ainda vivemos em uma sociedade puritana e vitoriana.

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