Cartoonland – II

Reinold acordou como sempre, tomou café reforçado, acompanhado de torradas e frutas. O médico lhe avisou que ele estava com colesterol alto e um princípio de diabetes. Outra concessão que ele teve que fazer foi vender seu carro e trocou por ônibus e bicicleta. Sedentarismo que quase o estava matando aos poucos, se juntar o cigarro e a bebida. Drogas, somente as que o médico receitou. Tem 10 anos que ele teve que parar de usar substâncias ilegais. Não foi nada bonito ele entrar em uma neurose deprê em plena turnê diante de milhares de fãns e crianças.

Ele chegou no horário no estúdio, algo que é raro no mundo artístico. Novatos faziam fila para tentar falar com algum produtor ou roteirista, Reinold lembra bem como era essa época, quando se é apenas mais um entre milhares. Ele teve que começar com festinhas em buffets infantis, animar bailes de debutantes ou participar em diversos eventos até conseguir ganhar algum espaço e reconhecimento.

O diretor parecia nervoso e ansioso para falar com ele e trazia um jovem ator ao lado que se parecia muito quando era jovem. A atriz que subiu ao lado dele, que praticamente fez com ele o teste do sofá para entrar no seriado riu muito quando o diretor deu a sentença. Aquele jovem tinha sido enviado pela direção do estúdio e pelos produtores para substituí-lo. Reinold sorriu torto, como seu personagem costumava fazer, aperou as mãos do jovem ator e foi embora do estúdio. Deixaria seu agente e advogados cuidarem da papelada. Fez questão de jogar em um icinerador o uniforme que ele havia atuado por 40 anos como Jim no seriado.

Reinold andou pela calçada, com roupas normais, apenas um ou outro olhava para ele como se o reconhecesse. Anonimato, doce anonimato. Reinold sentou em um restaurante que praticamente fazia uma recepção quando ele ia comer lá, vestido do personagem famoso, mas como pessoa comum, recebeu tratamento comum. Anonimato, doce anonimato. Ele pediu uma salada, um file, arroz, farofa e uma cerveja. Pagou o que estava na comanda, sem gorjeta, afinal ele era uma pessoa comum agora. Ligou a televisão para ver como o novato saía. Ver seu personagem ser interpretado por outro ator era esquisito. Reinold não era crítico, era ator e sua experiência viu que a troca seria desastrosa para o estúdio. Que se dane. Não é mais problema dele.

Em seguida, fez uma limpa em seus e-mails, contatos, redes sociais. Deixou apenas os que eram realmente seus amigos, parentes, familiares. Então lembrou de sua terra natal. Mandou um e-mail para seu agente e advogado sobre a demissão, pedindo para cuidarem da papelada. Reservou o primeiro vôo para Parsania. Enquanto arrumava suas malas, recebeu dois telefonemas. O primeiro foi de seu advogado. O segundo de sua ex-mulher. Que se danem. Ele sabia que ambos tinham um caso. Agora eles também não são problema dele.

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