A princesa rebelde – II

Melusa havia calculado bem como iria fazer para ganhar a liberdade. Em maio os camponeses entravam no castelo para comemorar a colheita, muitos Homens de Palha eram trazidos para receber as bençãos dos sacerdotes e uma era escolhida por seu pai, o rei, como a melhor, sendo dado uma bolsa cheia de ouro ao artesão que a construiu. Entrava muita gente, vindo até de outros condados, bem como nobres e reis de outras terras. Ela podia simplesmente sair pela porta frontal sem ser notada, mas os camponeses geralmente quando a viam, ajudavam ao seu rei, trazendo-a para dentro. Ela teria que se espremer pela fenda do rio que alimentava o poço, cuja vazante diminuia em maio, durante a lua cheia. Para a viagem, ela levaria pouco, o necessário mais fundamental, porque levar muita carga seria um empecilho para a missão. Seus olhos brilhavam em ansiedade por ver de perto as Montanhas de Lug quando ela percebeu que sua mãe se aproximava.

– Querida, por que tanto olha por esta janela?

– Eu quero conhecer o que existe além desses muros, mamãe. Papai não está sendo nem justo nem racional.

– Meu anjo, ele está fazendo isso para seu bem.

– Meu bem? Quem pode saber melhor o que bom para mim senão eu mesma? Eu não sou mais criança.

– Eu sei querida. Mas os pais são assim mesmo. Eu sou rainha, tenho uma filha adorável, mas mesmo assim eu sou tratado feito criança por sua avó.

– Desculpe, mamãe, mas se a senhora aceita isso, eu não aceito. Eu ouço tanta coisa sobre as outras terras, sobre nossos ancestrais, mas eu não posso nem ver, nem saber, nem experimentar essa vida pulsante que existe fora deste castelo. Eu sou capaz de enviar uma carta ao condado vizinho para pedir para ser resgatada dessa prisão.

– Seu pai teria que entrar em guerra com nossos vizinhos. Algumas vezes fomos ameaçados de invasão por exércitos de outros reinos unicamente por estarmos em uma posição estratégicamente favorável para a tomada dos reinos mais ricos ao norte. Você não gostou de quando seu pai teve que sair em batalha.

– Não gostei. Os reis parecem mais com garotos grandes, mimados e armados. Cobiçam as terras, as riquezas e até as mulheres dos outros reinos. Por acaso nós somos mobília, terreno ou um cavalo para sermos posse? Não, nós podemos reinar, nós podemos sentar em um trono, nós podemos fazer bem melhor do que todos estes reis, com muito mais eficiencia e inteligencia.

– Isso parece interessante. Como faria para conquistar este castelo? Basta conquistar este castelo, ser a rainha e você poderá fazer suas leis. Poderá sair e entrar, quando quiser, onde quiser. Mas o que será de seu pai e de mim?

– Não quero um castelo, mamãe. Eu quero viver livre. Ser rei ou rainha de um castelo não deixa de ser uma prisão. Eu estaria simplesmente trocando uma prisão por outra e teria mais responsabilidades.

– A vida é assim Melusa. Para ser livre, é necessário ser responsável. Sem responsabilidade, acabamos sendo prisioneiros dos apetites do corpo.

– O que não é diferente da minha situação. Como eu posso ser responsavel por mim se papai não acredita que eu seja capaz? Faz tempo que deixei de ser criança e eu preciso de espaço e liberdade se eu quiser fazer alguma coisa mais do que ser prisioneira do meu próprio pai.

– Minha filha, eu te peço que não tome uma atitude radical. Seu pai iria sofrer muito e eu iria chorar.

Melusa também sentia um aperto no coração, mas ela tinha que fazer algo e tinha decidido. Disfarçando as lágrimas, ela correu para seu quarto e ali ficou até se acalmar.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s