Alice Pergunta

– Estamos aqui no Brasil, em São Paulo, para entrevistarmos o Profeta do Profano.

– Saudações a todo o público de Alice Pergunta.

– Vamos para o principal. Por que o senhor se apresenta como o Profeta do Profano?

– Bom, Alice, a humanidade ouviu por tempo demais pessoas que alegam serem profetas de um Deus inseguro, ciumento e violento. A humanidade precisava reencontrar em si mesma o acesso ao sagrado, ao divino. Eu falo que o corpo, a carne, o desejo, o prazer e o sexo são formas de acessar o sagrado, o divino. Não por livros, não por Igrejas, não através de sacerdotes, mas por si mesmos. Para as religiões oficiais tudo que está fora do templo é profano, então eu me apresento como o Profeta do Profano.

– Mas essa mensagem não gera reações, controvérsias e polêmicas?

– Sem dúvida, Alice. Apesar de estarmos em pleno século XXI, o Brasil ainda é um país majoritáriamente católico ou professa alguma forma de cristianismo. A sociedade brasileira está carregada de toda a insatisfação, repressão, opressão, recalque, frustração em relação ao corpo, ao desejo, ao prazer, ao sexo. Se eu tivesse existido há não mais de cinquenat anos atrás, eu certamente seria preso e sumiria nos calabouços da Ditadura civil-militar. Se eu tivesse existido por volta do século XIV, eu certamente seria torturado e queimado pelo Santo Ofício.

– Felizmente não vivemos mais nestes tempos sombrios. Mas isso não é uma contradição se declarar pagão politeísta? Afinal, essas crenças existiram há mais de 5 mil anos atrás.

– Certamente, Alice, mas apenas se eu quisesse restabelecer as religiões antigas como estas existiram na época, o que não é o caso. Não há como afirmar com absoluta certeza de como eram as religiões antigas, em seu estado mais puro, visto que se modificaram, se misturaram e até foram assimiladas por outras crenças. Por isso que eu separo o Paganismo Clássico do Paganismo Moderno. Nós mantemos o cerne da religião de nossos ancestrais, mas dentro da perspectiva da Era Moderna.

– Quando e como surgiu o Paganismo Moderno?

– Podemos dizer que ganhou o interesse de intelectuais por volta do século XVIII, como resultado do Movimento Romântico, mas mesmo antes, na Renascença, os mitos antigos reapareceram pelos pincéis de muitos pintores. Mas o Paganismo Moderno ganhou espaço no interesse público apenas no século XX, na década de 60, dentro da Contracultura e da Revolução Sexual.

– Pode-se dizer que o Paganismo Moderno apareceu como uma forma de nacionalismo, patriotismo e até de subversão contra a Igreja?

– Em alguns casos. Na Alemanha, antes da Guerra Mundial, ideias e ideais do Paganismo Moderno foram usados para fins nem um pouco humanistas. Existem grupos de pagão modernos que ainda adotam esse pensamento incongruente e sem base histórica. O Paganismo Moderno veio a público como uma alternativa, um resgate de nossa origem e identidade que, por uma necessidade operacional, acabou se tornando uma subversão à Igreja e ao Cristianismo, pelas próprias características dos mesmos. Considerando que o Cristianismo e suas organizações religiosas ainda tem poder e influência na sociedade, temos que continuar resistindo.

– Vamos ao assunto que é do interesse de nosso público feminino. De acordo com suas, digamos, revelações, a mulher é uma manifestação da Deusa. O senhor está falando de uma religião da Deusa?

– Sim e não. Eu sou politeísta, então para mim cada Deusa é única, tem uma identidade e personalidade. A mulher é uma manifestação de uma destas Deusas ou da Deusa Estrela. Quando eu me refiro à Deusa Estrela, que eu celebro em um ritual wiccano tradicional, necessáriamente eu tenho que me referir ao Deus Bode, seu Consorte, algo que é omitido, negado e distorcido pelas “religiões da Deusa”.

– Então uma mulher pode ser uma sacerdotisa, conduzir cerimônias e adorar aos Deuses?

– Sem dúvida. Não há qualquer argumento lógico, racional, teológico ou religioso que possa negar que a mulher, bem como o homem, possa servir no sacerdócio aos Deuses.

– Isso é um contraste e tanto, se considerarmos o sexismo, a misoginia e o patriarcado reinante.

– Ao reafirmar o papel e identidade do Deus Bode eu contrasto com a misandria e a assexualidade. Pode parecer uma frase budista, mas temos que encontrar o equilíbrio.

– Ao anunciar o corpo, o desejo, o prazer e o sexo como ferramentas para vivenciar o sagrado e o divino, o senhor está preconizando o Hedonismo?

– Sim e não. Considerando que os males sociais e psicológicos que temos hoje são resultado da filosofia estóica, da ascese extremada, da purgação da natureza humana, da imposição das reliigões abraâmicas, eu creio que devemos dar uma chance ao Hedonismo, ao ascetismo voluntário e à liberdade de religião.

– Mas suas profecias não podem ser consideradas um estímulo ao abuso físico e sexual?

– Não, porque está devolvendo à mulher o controle e o poder sobre seu corpo, sua sexualidade, sua sensualidade, seu desejo, seu prazer. Uma mulher empoderada terá muitos homens para protegê-la e defendê-la de predadores sexuais.

– Falamos sobre o corpo, o desejo, o prazer e o sexo. E quanto aos relacionamentos?

– Minha concepção é bem simples, mas poderosa. Todos tem a liberdade e o direito de amar quem quiser, quantos quiser, desde que haja consentimento e maturidade.

– Mas como ficam a traição, a fidelidade, o adultério, o casamento e a família?

– Nem o Estado, nem a Sociedade, nem a Igreja deve definir ou impor modelos, sejam estes de gênero, de opção ou identidade sexual, sejam estes de relacionamentos. Cada qual define sua identidade e opção seuxal, cada qual define a forma de seu relacionamento. Afinidades vão existir, parcerias são acordadas entre os participantes, o acordo pode ser rescindido pelas partes à qualquer momento. Todas essas noções que a senhorita listou tem por base que uma das partes se torna “propriedade” da outra. Isso para mim se chama escravidão.

– Isso não seria desrespeito ao parceiro ou parceira?

– Somente se prometermos algo e fizermos outra coisa. Somente se abandonarmos sem explicação nosso parceiro ou parceira. Somente se maltratarmos nosso parceiro ou parceira. Amor não tem limite, fronteira, quantidade, regra ou idade.

– Chegamos ao ponto mais quente da entrevista. O senhor falou em idade. Em seus escritos, o senhor é contra a discriminação etária. Pode explicar isso ao nosso público?

– Com prazer, Alice. Assim como a sociedade tem padrões duplos sobre muitas coisas, mantém uma moralidade de fachada e conserva muita hipocrisia, a definição de faixa etária e maturidade é extremamente discutível e questionável. Todos nós nascemos com sexo. A sexualidade, ou seja, a expressão de nossa natureza de gênero e opção, vem com a maturidade e isto tem tanta variação no tocante à idade que qualquer limite é ridículo.

– Mas e o abuso e a pedofilia?

– Violência fisica ou sexual é crime, independente da idade da vitima. Não faz sentido criar uma lei baseada na idade, especialmente quando a mesma lei não pune o dito menor infrator. A pedofilia é baseada no conceito equivocado que uma pessoa que está abaixo de um limite de idade não pode consentir e presume-se o abuso. O problema é que não se pode presumir que não haja consentimento, haja visto como a atual geração tem mais aceso e informação sobre sexo do que tínhamos há 50 anos atrás. Existem tantas situações limirofes que mostram que a lei precisa ser reformada, é necessário provar que houve abuso e não houve consentimento.

– Isso foi bastante instrutivo. Nosso público deve estar gostando de ouvir suas respostas. Para complementar, como ficaria os casos de abuso sexual e a questão da educação sexual?

– São coisas complementares. Parafilias ou distúrbios de comportamento sexual são mais uma consequência de uma sociedade sexualmente doentia do que uma causa. Certamente consequencia dos padrões duplos da sociedade que, impõe padrões de moral, sexo e relacionamento enquanto permite a circulação de revistas pornográficas. Com a devida educação sexual, as revistas pornográficas perderão seu apelo, com pessoas tendo vidas sexuais satisfatórias, acaba-se a violência sexual.

– Isso seria super! Alguma ultima palavra para nosso público?

– Vivam, amem, sejam felizes. Nenhum Deus que mereça nossa adoração irá se opor a isso. O que te agrada, o que te atrai, seja de quem você goste, expresse. Vivemos um mundo onde há mais liberdade para se falar de violência do que se falar de amor. Como você se identifica, como você sente seu gênero, assim deve proceder, procure o que te agrada.

– Fantástico! Eu, Alice, em nome do público de Alice Pergunta, agradecemos sua atenção.

– Foi um prazer, Alice.

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