Os monges do culto do medo – V

Os cinco monges desceram até o salão principal da taverna com o pobre noviço atrás, amarrado e amordaçado. O sol surgia e o galo cantava. Mirtes tinha acabado de se livrar do ultimo cliente e ainda tinha que limpar a sujeira quando ela percebeu a aproximação dos monges e a situação do pobre jovem.

– Bom dia, sacerdotes. Por favor não reparem na bagunça. Por gentileza, sentem-se nessa mesa. Eu acabei de limpá-la. Meu cozinheiro deve ter algo guardado para os senhores.

– Mulher, sua gentileza não nos engana. Sabemos que esta taverna é um antro do Diabo. Mas para a alegria do senhor, nós viemos aqui para pregar a Palavra e salvar as almas desta vila.

– Mesmo? Outros como os senhores estiveram aqui antes e pregaram a Palavra. Eu devo ser a única que leu as Escrituras. Corrijam-me se eu estiver errada, mas as Escrituras dizem claramente que fala do Deus que é Senhor do povo de Israel, Deus de Abraão, Isaac e Jacó. Nenhum de nós é descendente de Abraão, Isaac e Jacó. Nossos ancestrais não vieram das tribos de Israel. Então o que quer que tenha nas Escrituras, não nos diz respeito.

Embora amarrado e amordaçado, Nicomano conseguiu fazer escapar uma risada. Clemente não achou graça, seu rosto ficou vermelho e ele começou a esbravejar.

– Como ousa, mulher? Esta é a Palavra de Deus, não deve ser lida ou proferida pelos lábios de uma mulher, nem pelos infiéis. Nós todos somos descendentes de Adão e somos todos pecadores pela tentação de Eva.

– Mesmo? Então como o senhor explica a cidade de Nod se tinha apenas Adão, Eva, Caim e Abel? Nem todos os seres humanos são descendentes de Adão.

Nicomano riu tanto, gargalhou e sacudiu seu corpo tanto, que acabou ficando livre das amarras e da mordaça. Mais do que ligeiro, desceu as escadas e se interpôs entre Mirtes e seus irmãos.

– Vê como nossa missão é injusta e imerecida, irmãos? Vendemos uma fraude, uma farsa, com nossa máscara de homens santos. Uma mulher sabe mais e mais propriamente as escrituras do que nós todos, do que toda a Igreja. Eu diria mesmo que é mais provável ouvir a Deus pelos lábios de uma mulher do que pela língua falsa de um homem.

– Irmão Nicomano, caiste no logro do Diabo e agora refestela com suas heresias. Nós iremos relatar isto ao Santo Ofício e que Deus tenha pena de suas almas.

– Eu tenho uma ideia melhor, sacerdotes. Pelas suas Escrituras, Isaias desafiou os sacerdotes de Baal. Façamos o mesmo desafio. Chamem ao seu Senhor, com todas as suas forças e vejamos se Ele atende. Eu chamarei ao meu Senhor, com todas as minhas forças e vejamos se Ele atende. Quem for bem sucedido, adora ao verdadeiro Senhor e quem for derrotado, será imolado ao Senhor. O que acham?

Os monges acharam que era uma aposta ganha. Pegaram em seus alforjes toda a quiquilharia que se usa em uma missa. Abriram suas Escrituras, leram trechos dela, ofereceram o cálice e a hóstia. Mas não aconteceu manifestação alguma. Nenhuma parusia. Nenhuma língua de fogo pairou sobre suas cabeças. O Espírito santo restava silente. Nicomano ria e gargalhava de chorar, rolava no chão de tanto rir. Mirtes tirou toda sua roupa, pegou uma faca da cozinha, derramou vinho no chão para desenhar um pentagrama e entoou o encanto das bruxas. O teto da taverna abriu-se, do chão surgiram árvores, bichos pulavam através das janelas. Um enorme vulto apresentou-se. Nicomano podia reconhecê-lo em qualquer lugar. Era Ele, chamado de Cernunnos, Herne, Pan. Nicomano caiu de joelhos e começou a entoar hinos em louvor ao Senhor das Florestas, das Feras e do Campo.

– Eu não vejo o Senhor que vieram anunicar, mas o meu. Está na hora dos senhores pagarem a devida oferenda ao verdadeiro Senhor.

– Não! Espere! Foi tudo um equívoco! Nós não pretendíamos ofender ao Senhor! Nos ensine!

– Os senhores vieram até aqui, espalhando discórdia, medo, sofrimento, desespero. Destruiram estátuas, templos, pergaminhos e culturas. Negaram e vilipendiaram os Deuses Antigos em nome de um Deus fictício. Querem perdão, misericórdia? Peçam ao Deus Cadaver que adoram.

Nicomano teve a satisfação de imolar seus outrora irmãos ao Senhor. De algum jeito esse caso foi contado em outras vilas que estavam escravizadas pelo medo. Algumas decretaram sua liberdade e retomaram o culto de seus ancestrais. Outras pediram ajuda ao Santo Ofício. Lutas seguiram, guerras, perseguições, torturas, prisões. A Igreja agia livremente, com a ajuda do poder Secular. Por um bom tempo, o medo venceu. Mas uma farsa, uma mentira, não perdura eternamente. Novos tempos surgiram e a humanidade está resgatando suas origens, sua identidade e o culto de seus ancestrais. O Deus Cadaver poderá finalmente descansar.

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