Apologia da Arte Lolicon

Com a ocupação dos Estados Unidos no fim da Segunda Guerra Mundial, muitos artistas japoneses tiveram contato com a cultura ocidental e, influenciados pela cultura pop dos Estados Unidos, desenhistas em início de carreira começaram a conhecer os quadrinhos e desenhos animados na sua forma moderna.

Com o crescente sucesso dos animes, surgiu pelo mundo uma comunidade de fãs que se tornaram conhecidos como otaku.

O anime retornou a influencia da cultura ocidental, tornando-se tanto um fenômeno da cultura popular quanto um paradoxo para o Governo. O anime ganhou o gosto do público ocidental na mesma época em que revistas adultas pornográficas conquistaram seu espaço no mercado editorial.

Em uma cultura marcantemente puritana e sexualmente oprimida, recalcada e frustrada, foi inevitável que apreciadores ocidentais dos animes, dentro da cultura pornográfica, começassem a desenhar versões eróticas de seus personagens e animes favoritos.

Em países onde estranhamente a liberdade de expressão tem um forte componente patriótico, essa nova forma de arte desafiava os limites dos conceitos de obscenidade, de pornografia e da violência sexual. Ainda existem controvérsias, pois no mesmo país onde se condena toda forma de pornografia, se considera Lolita [de Vladmir Nabokov] uma literatura clássica. Um caso bem polêmico são os processos contra Larry Flint. A América do Norte se viu em um dilema ético e moral, afinal o mesmo país que elogiava a liberdade de expressão, de opinião e crença, queria proibir a pornografia, enquanto permitia a venda de armas e a produção de filmes de ação, recheados de uma verdadeira apologia à violência.

O mundo ocidental foi sacudido pela Contracultura e os primeiros estudos científicos sobre a sexualidade. A década de 60, do século XX, a cultura ocidental foi atingida na sua base mais sensível, que é sua visão sobre o sexo, carregada por valores religiosos judaico-cristãos. Da década de 60 do século XX até a década de 20 do século XXI a cultura ocidental despertou para sua sexualidade e sensualidade, novas formas de perceber e vivenciar o gênero e o relacionamento foram aparecendo, desafiando o conservadorismo e o puritanismo retrógado e reacionário.

Tudo ia muito bem, até o aparecimento das duas neuroses do mundo contemporâneo: a SIDA [Síndrome de Imunodeficiência Adquirida] e a pedofilia. O aparecimento da AIDS foi a ocasião apropriada para que setores conservadoristas e religiosos fundamentalistas tornassem um caso de endemia em uma segregação social. A pedofilia, que se tornou um verdadeiro escândalo para a história da Igreja, também foi utilizada para reinstaurar o medo, a paranoia e a neurose, omitindo-se que a maioria dos criminosos eram padres ou cristãos.

No mesmo âmbito supostamente legal de coibir a pedofilia, começou um verdadeiro expurgo de imagens na cultura ocidental. Imagens de personagens de anime, de cartoon, ou mesmo personagens fictícios foram equiparados à pornografia e, se fosse semelhante a uma pessoa “menor de idade”, seria pornografia infantil. A base legal para caracterizar uma forma de arte como pornografia e o seu conteúdo como pornografia infantil é totalmente subjetivo, irracional, ilegal e inconstitucional. Falamos de imagens de personagens fictícios. Como podemos presumir a idade do personagem, nos baseando em características atribuídas a uma pessoa real? Nenhuma, pois mesmo que a imagem esteja representando uma pessoa “maior de idade”, a idade real da arte e da personagem desenhada é a da conclusão da obra. Portanto, uma obra similar, cuja imagem esteja representando uma pessoa “menor de idade” fica sem sentido se a obra foi concluída no século XVIII.

Desmistificado as supostas causas legais para a proibição da arte erótica, devemos passar à desmistificação da suposta inocência e ingenuidade atribuída a uma faixa etária. A própria noção de faixa etária carrega em si mesma um preconceito que não tem base biológica, anatômica, médica, científica ou sexual. As leis das sociedades estão paradas no tempo, obsoletas e incongruentes.

A maioria das leis que visam proteger os cidadãos de certa faixa etária surgiu por que desde a Idade Média até os primórdios da Idade Moderna era bastante comum considerar o indivíduo como pessoa apta para cumprir com as obrigações que a sociedade da época impunha a todos, independente da idade. Até os meados da Idade Contemporânea, as roupas dos jovens não eram muito diferentes das roupas de adultos e para a grande massa de mão de obra necessária para a indústria nascente era bastante comum usar jovens e crianças.

Os conceitos sobre a criança e o adolescente veio posteriormente, junto com as lutas trabalhistas e as ideias da declaração universal dos direitos do homem. Concebeu-se também, certamente por influência religiosa, de que a criança e o adolescente é um ser naturalmente inocente e ingênuo, sem noções sobre sexo ou sexualidade, eram desprovidos de consciência e incapazes de responder por seus atos. Desumanizaram a criança e o adolescente, os tornaram seres assexuados.

Contrariando esses conceitos inegavelmente equivocados, os primeiros estudos sobre a sexualidade humana revelaram que, ao contrário do que se acreditava, todas as pessoas nascem com sexo e que a sexualidade aparece conforme a maturidade do indivíduo, maturidade esta que ocorre em faixas etárias diferentes do padronizado pela sociedade. O conceito de que a criança e o adolescente é um ser assexuado, inocente e ingênuo caiu como farsa, uma idealização da infância e da adolescência. Questões sobre educação sexual, gênero, opção sexual e relacionamentos abalaram ainda mais o alicerce da cultura ocidental puritana.

O publico foi mantido na ignorância e no medo por razões e motivos políticos e religiosos, mas depois de duas guerras mundiais a humanidade estava pronta para dar mais uma guinada. Os meios de comunicação de massa, em cuja programação e propagandas, expõem o erotismo publicamente para todos, independentemente da faixa etária. As revistas adultas masculinas tem sido a principal fonte de “educação sexual” de muitas gerações. Com o advento da internet essa informação tornou-se ainda mais acessível e disponível. No Mundo Contemporâneo, a criança e o adolescente sabem mais sobre sexo e relacionamento que seus pais, demonstram que tem consciência e são aptos a responder pelos seus atos. Cada vez mais é comum ver jovens em um espectro de idade “legal” em um tipo de relacionamento que desafiam os limites e os padrões sociais. Portanto, embora a lei presuma o abuso quando há muita discrepância de idade entre os amantes, a lei não pode presumir inocência, ingenuidade ou ausência de consentimento.

Chegamos enfim a uma conclusão. Ainda que uma imagem represente uma pessoa supostamente “menor de idade”, ainda constitui uma imagem, não uma pessoa real, portanto, não pode ser considerada pornografia infantil. Ainda que uma imagem represente uma pessoa supostamente “menor de idade”, não podemos presumir abuso porque não podemos descartar que haja consentimento.

Se uma imagem ou filme que represente a nudez de um personagem fictício pode ser acusada de provocar a pedofilia, então devemos proibir qualquer imagem ou filme que represente alguma forma de violência alegando que estas estimulam a agressividade, a violência, o uso de armas, o homicídio.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s