Os monges do culto do medo – IV

Nicomano voltou ao quarto na ponta dos pés, tentando não acordar seus irmãos ou denunciar sua presença ou sua embriaguês. Clemente o estava esperando.

– Então, jovem, o que tem a nos dizer?

– Irmão, nós podemos seguir viagem amanhã. Esta vila conhece a Palavra. Eu não vi mal algum aqui.

– Ora, ora, vejam só! Acaso você recebeu sua tonsura? Recebeste as bençãos do bispo? Leste todos os Patriarcas? Agora o noviço quer ensinar os mais experientes!

– Calma, irmão Clemente. Vamos ouvi-lo e quem sabe possamos esclarecer nosso irmão. Diga-me, Nicomano, o que viu, ouviu ou percebeu durante seu jantar.

– Irmão Ambrósio, a senhoria desta taverna disse que outros como nós passou por aqui e deixou a Palavra. Ela conhece a Palavra tão bem quanto nós.

– Eu disse que não seria boa idéia deixar ele descer, Ambrósio. Diga a ele, Antíoco.

– Nicomano, você esteve conosco há bastante tempo. Recebeste a Palavra e ouviste os sermões. Quantas vezes você ouviu que o Diabo é quem mais sabe as Escrituras exatamente para perverter a humanidade? O Diabo distorce, deturpa, corrompe, inventa, omite ou cita partes das Escrituras como quer, apenas para seus vis propósitos.

Nicomano ouvia tudo cabisbaixo, como um menino sendo escolado pelos pais. Mas então veio um estalo, uma revelação.

– Então a Igreja é do Diabo, pois nós somos os que mais distorcem, deturpam, corrompem, inventam e citam partes das Escrituras conforme queremos. Eu estive com vocês, eu ouvi as escrituras, eu ouvi os sermões, mas somente eu percebi que o mesmo trecho era interpretado de forma diferente, conforme a vontade do bispo. Por onde nós passamos, levamos apenas tristeza, sofrimento, desespero, angústia, dor e morte. Nós somos monges do culto do medo.

– Nicomano, o que diz é a maior das heresias que ouvimos. Nós gostaríamos que fosse como nós, mas pelo visto o Diabo pegou seu coração com suas garras. Agora, nós temos apenas duas opções, ou o denunciamos ao Tribunal Eclesiástico, ou exorcisamos o Diabo de você e dessa taverna.

– Eu voto pela segunda opção. Vamos descer e enfrentar o Diabo com nossas santas armas. Resgataremos toda essa vila ao Senhor e ainda recuperaremos a alma de nosso irmão perdido.

– Desçamos, então, pois a aurora desponta e sabe-se que o Diabo tem pouca força de dia, à luz do sol, espelho do Senhor.

– E com sorte pegamos algumas sobras da janta. Precisamos comer algo depois da batalha.

– Antes, por precaução, amarrem e amordacem Nicomano.

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