Arquivo mensal: setembro 2014

Muito barulho por pouca coisa – V

– A corte inicia o encerramento da presente sessão. Os jurados chegaram a uma sentença?

– Sim, sr. juiz.

– Leia para esta corte.

– Por decisão unânime os jurados aqui presentes e representados por mim, o presidente dos jurados, decidimos que o sr. Kappa não cometeu abuso sexual contra as srtas. Moranis e Kelvin. Esta decisão encerra igualmente os demais processos movidos pelos queixantes.

– A promotoria deseja apelar?

– Não, sr. juiz. Este caso deve ser resolvido entre os queixantes e seus descendentes.

– A defensoria deseja entrar com um pedido de indenização?

– Não, sr. juiz, a sentença é satisfatória para dirimir quaisquer futuras ocorrências. Mas o sr. Kappa gostaria de se dirigir a esta corte.

– Esta corte cede ao pedido do sr. Kappa, mas por favor, seja breve.

– Eu sei que vocês olham para nós e vêem crianças. Nós somos gente como vocês. Vocês foram como nós um dia. A diferença entre nós é de época e educação. Mas nós não temos culpa se vocês tiveram infâncias infelizes. Nós não temos culpa se vocês aceitaram viver debaixo de uma opressão e repressão sexual. Nós não temos culpa se vocês aceitaram viver debaixo da tirania, da ditadura da Igreja. Vocês tem sérios problemas, recalques, frustrações. Vocês se acham adultos mas tem uma mentalidade parada no século passado. Mas isso não dá a vocês o direito de se intrometer nas nossas vidas e na nossa felicidade. Nós temos total e plena consciência do que fazemos. Nós não nos metemos em suas vidas complicadas, não se intrometam em nossas vidas felizes.

O juiz bate o martelo, os jurados são dispensados, os autos são arquivados, a platéia presente se dissipa, os advogados continuam com outros casos e as famílias retomam suas vidas. Naquela tarde, depois de uma boa conversa franca, aberta e sincera, os pais de Gregg, Ness e Matt conseguiram acertar as coisas. Naquela noite, Matt pode perder seu selinho com Greg e todos viveram felizes para sempre.

Anúncios

Muito barulho por pouca coisa – IV

– A defensoria chama a srta. Kelvin para depor.

– Srta. Kelvin, por favor sente no banco das testemunhas.

– Bom dia sr. juiz, bom dia sres. advogados e membros do juri.

– Srta. Kelvin, bom dia. Para que conste nos autos, a srta. sabe a diferença entre verdade e mentira?

– Oh, sim, sr. juiz. Meus pais e meus professores me ensinaram bem.

– Pode declarar aos jurados qual sua relação com o sr. Kappa?

– Greg é meu irmão, embora de mãe diferente. Nós temos o mesmo pai. Papai tinha um relacionamento com mamãe quando estava casado com a sra. Kappa. Quando eu nasci, papai se divorciou. Greg tinha 2 anos. Eu acabei ficando com o novo sobrenome da família de papai.

– A srta. pode nos relatar os fatos do acontecimento?

– Sim, eu posso. Eu fui para a casa de Greg, porque papai gosta de visitá-lo. Ness chegou pouco depois, para nossa alegria. Ela mora perto e nós sempre brincamos juntos. Ness é a minha melhor amiga e nós conversamos sobre tudo. Eu e Ness gostamos de falar de Greg e do quanto gostamos dele. Falamos coisas que gente grande acha proibido ou inconveniente. Eu não vejo o porquê. Nós somos gente como todo mundo aqui. A ideia veio do nada. Eu sei que Ness esteve na cama com Greg. Eu queria perder meu selinho. Greg é o unico menino que eu conheço e confio. Eu sabia que ele me amava. Então porque não? Eu queria. Mas nossos pais estragaram tudo.

– Aham. Eu compreendo sua frustração, srta. Kelvin, mas a srta. ainda tem muito tempo para.. hã… perder seu selo. Então o sr. Kappa não abusou da srta?

– Não, sr. juiz, coom a Ness disse, o mais provável é que nós nos aproveitamos de Greg.

– A srta. não acha impróprio fazer essas coisas na sua idade?

– Não, por que acharia? Eu duvido que qualquer um nesta corte, na nossa idade, não pensou, não desejou, não quis e não fez isso, de um jeito ou outro.

– Aham. Srta. Kelvin, atenha-se ao caso. Esta corte não é um lugar de debate.

– Mas deveria, se querem causar ou inventar problema onde não existe.

– Aham. Srta Kelvin, a srta. então afirma que tem noção e consciênci do que fez e é capaz de consentir?

– Sim e, por favor sr. juiz, passe aqui o teste para que eu prove isso.

Matt preenche o teste com desinteresse, em pouco tempo. O juiz dá uma olhada e passa para o psicólogo. O psicólogo também demonstra surpresa. O teste é anexado aos autos depois da avaliação.

– Que conste em ata que a srta. Kelvin alcançou um QI de 180. Esta corte reconhece que a srta. Kelvin é consciente e capaz de responder pelos seus atos. A minha decisão é que não houve abuso entre o sr. Kappa e a srta. Kelvin. Esta sessão prosseguirá para as cosiderações finais.

Muito barulho por pouca coisa – III

– Sr juiz, a promotoria gostaria de chamar a srta. Moranis.

– Srta Moranis, por favor, sente no banco das testemunhas.

– Bom dia sr. juiz, bom dia sr. promotor.

– Srta. Moranis, bom dia. Para que conste nos autos, a srta. sabe a diferença entre verdade e mentira?

– Sim, sr. juiz. Melhor que muito adulto aqui presente.

– Aham. Srta. Moranis, esta é uma sessão de julgamento, não um forum de debate. Pode declarar aos jurados qual sua relação com o sr. Kappa?

– Ele é meu melhor amigo. Nós somos primos, mas crescemos juntos, fomos criados juntos.

– Pode relatar aos jurados os fatos dos acontecimentos?

– Claro, sr. juiz. Eu fui à casa de Greg como sempre fiz. Matt estava lá. Nós começamos a brincar. Eu e Matt nos escondíamos de Greg então começamos a conversar sobre ele. A ideia meio que veio na hora. Nós duas dissemos a Greg que queríamos brincar de médico. Ele seria o doutor, nós seríamos ora a enfermeira, ora a paciente. Greg estava examinando Matt quando nossos pais estragaram tudo. Agora nós estamos aqui desperdiçando o tempo desta corte com pouca coisa.

– Então o sr. Kappa não abusou da srta?

– Não, sr. juiz, o mais certo é que eu e Matt abusamos de Greg. Ele faz tudo que nós pedimos. Eu acho que é porque ele é apaixonado por nós.

– Srta. Moranis, os jurados precisam saber se houve ato sexual ou não entre a srta. e o sr. Kappa.

– Precisam? Por que? Não tem vidas afetivas satisfatórias? Sim, eu transei com Greg. Eu não tenho vergonha de admitir isso.

– Srta. Moranis, a srta. não acha impróprio fazer essas coisas na sua idade? A srta. tem noção do que fez?

– Se eu acho impróprio? Claro que não. Impróprio é adulto usar seu cargo para roubar dinheiro público. Eu tenho total noção do que fiz. E eu desafio qualquer um a provar que não.

– Aham. Srta. Moranis, por favor, preencha este teste.

Ness preenche o teste com desinteresse, em pouco tempo. O juiz dá uma olhada e passa para o psicólogo. O psicólogo também demonstra surpresa. O teste é anexado aos autos depois da avaliação.

– Que conste em ata que a srta. Moranis alcançou um QI de 200. Esta corte reconhece que a srta. Moranis é consciente e capaz de responder pelos seus atos. A minha decisão é que não houve abuso entre o sr. Kappa e a srta. Moranis. Esta sessão prosseguirá para ouvir a srta. Kelvin.

Muito barulho por pouca coisa – II

– Bom dia sr. Kappa. O sr. sabe por que está aqui?

– Sim, meu pai me explicou. Os meus pais e os pais de Ness acham que eu fiz algo ruim. Mas nós não fizemos nada errado.

– Este tribunal irá decidir, sr. Kappa. Quantos anos tem?

– Nove anos, sr. juiz.

– Quantos anos tem sua irmã e amiga?

– A Ness tem oito e Matt tem sete.

– Matt é a srta. Kelvin ou a srta. Moranis? Quem delas é sua irmã? Por que seu sobrenome é diferente?

– Matt é da familia Kelvin, a Ness é da familia Moranis. Meu sobrenome é diferente porque meu pai, casou de novo e ele tem a minha guarda. Matt é minha irmã por parte de mãe, a outra mãe, não a minha madastra.

– Para que possamos entender sr. Kappa, qual é seu vínculo com a srta Moranis?

– Ness é minha prima. Nós praticamente crescemos e fomos criados juntos. Quem bagunçou tudo foram os nossos pais.

– Entendo seu lado, sr. Kappa, mas é o sr. quem está em julgamento. Pode contar a esta corte os fatos do acontecimento?

– Eu, Ness e Matt sempre brincamos juntos. Sempre. Brincamos de tudo. Policia e bandido. Castelo e dragão. Bombeiro. Escolinha. Ninguém nunca criou problema com isso. Nós gostamos de brincar de imitar o trabalho dos adultos. Não sei por que fizeram tanto caso por que brincamos de médico.

– O sr. tem ideia ou noção de que é impróprio fazer estas coisas?

– Por que, sr. juiz? Os adultos vivem fazendo isso. Com diversas pessoas, nem sempre com quem vivem.

– Porque, sr. Kappa, o sr. é uma criança e não sabe o que fez.

– Desculpe sr. juiz, mas como o sr. pode afirmar que eu ou Ness ou Matt sabemos o que fizemos? Como esta corte afirma que eu sou incapaz de saber o que eu fiz mas acha que eu sou capaz de responder pelo que eu fiz?

– Aham. Sr Kappa, o sr afirma que é consciente de seus atos?

– Sim, eu sou.

– Então, por favor, preencha este teste.

Greg preenche o teste e devolve ao juiz, que entrega ao psicólogo para avaliar e depois o teste é anexado aos autos.

– Que conste em ata que o sr. Kappa é considerado capaz e consciente. Esta sessão prosseguirá para que seja qualificado e tipificado o abuso.

Muito barulho por pouca coisa – I

Greg está com medo. Ele está entrando em um tribunal e está para sentar-se ao lado de um juiz, como réu de um caso. Seu pai está ao seu lado, sério, muito sério, sua face está pesada e fechada. Ele tinha visto seu pai bravo antes, mas agora parece ser mais grave. Isto o deixava com mais medo e apreensão. O que vão fazer com ele?

O tribunal por si é um cenário aterrorizante. Sombrio, lúgubre. Um ar pesado, sério e sisudo. Nos corredores, as cortinas parecem mortalhas, as paredes são cobertas de painéis de madeira mostrando a terrível ação da justiça. A estátua da justiça é uma mulher vendada com uma espada na mão. Os policiais que estão no corredor o olham com um olhar frio, agudo, como se lançassem adagas pelos olhos. Greg tem que se segurar para não borrar as calças.

A sala de audiências é enorme. Um teto enorme que parece tocar o céu. Das alturas ciclópicas pendem espectros de candelabros, cujas pontas parecem apontar para seu coração. Em bancos muito parecidos com o que ele via na igreja, pessoas sentadas parecem esquadrinhá-lo, ele pode sentir o bisturi dissecando-o. Na sua frente, um juiz o espera do alto de sua mesa, um senhor que em circunstancias mais amenas poderia passar por seu tio ou avô, mas ali a face do juiz está mais para um verdugo.

Um servidor da corte se aproxima, dá alguma sinstruções para ele e para seu pai. Greg tenta entender, mas o medo não deixa. Ele apenas acena. O servidor o acompanha até a cadeira dos réus que mais parece um cadafalso da forca. O servidor ajeita a cadeira para seu tamanho e o microfone para sua altura. Então o meirinho lê a ata da sessão.

– Moranis e Kelvin contra Kappa. Acusação de abuso sexual. Réu e vítimas são ininputáveis. Moção. Recurso aceito. Réu tem idade maior que as vítimas. Apelação. Réu e vitimas estão em idade abaixo da idade penal. Contestação. Reclamantes alegam que o réu tem consciência de seus atos e aproveitou-se da inocência das vítimas. Sessão está aberta.

Além do horizonte – V

Dung acordou e fez a vistoria nos suprimentos. Mesmo com racionamento, em algum momento não terão o suficiente para continuar. Mesmo assim o ghoan não se desespera. Apenas aceita que, se for necessário, morreria, mas não desistiria de procurar pela verdade. Ele olha para seus amigos. Eles mereciam algo melhor. Morrer pela verdade não era algo que seus amigos estariam dispostos a fazer. Dung olha para as nuvens, para o vento, para o mar, para o horizonte. Bem longe, no limite do que os olhos conseguem perceber, um pequeno sinal. Algo. Não muito, mas algo.

– Aha! Encontrei! Acordem, Pakal e Keto! Eu encontrei a Terra do Verão! Vamos! Está bem perto!

Os amigos de Dung acordam. Evidente, eles não conseguem ver o que ele vê, tão certos de suas certezas, ainda que a linha tênue no horizonte começa a aumentar.

– Provavelmente é alguma parte de nossa própria ilha, você vai ver.

– Devemos agradecer a Lugun por termos voltado em segurança para casa.

Conforme a linha de areia foi ficando mais e mais definida, conforme apareciam pássaros e o verde das árvores, mais a sensação de estranhamento aumentava. Os peixes não eram os que conheciam. Os pássaros não eram os que conheciam. As árvores não eram os que conheciam. As pessoas que os esperavam na enseada não eram as que conheciam. Keto achava que tinham chego no Inferno, Pakal não tinha qualquer opinião. Dung tinha certeza de que chegaram na Terra do Verão. Uma mulher que tinha uma roupa semelhante a que suas sacerdotisas usavam, veio saudá-los.

– Saudações, viajantes! Nós lhes damos boas vindas. Venham, comam, bebam, descansem. Amanhã conversaremos.

Pakal era o que mais estava chocado com a descoberta. Ele havia passado toda sua vida até este momento afirmando que a Terra do Verão não existia, que as lendas eram meras superstições, que a ciência podia explicar tudo. Mas fora da ilha, fora do seu mundo, fora das evidências que tanto prezava, existia toda uma realidade maior e mais complexa do que poderia explicar ou imaginar.

Keto era o que mais estava aterrorizado com a descoberta. Ele havia navegado o grande mar, sem que Lugun o tivesse castigado. Ele havia chego ao fim do mundo e não havia morrido. Ele havia visto demônios, mas não tinha sido devorado. Em lugar algum ele via as imagens que seus sacerdotes tanto contavam sobre o Inferno. O que ele via era mais parecido com as imagens do que seus sacerdotes tanto contavam sobre o Paraíso.

Dung estava feliz, mas não criava expectativa. Ele estava preparado para o que viesse, se viesse. Agora seu foco será aprender e explorar este mundo novo, deixando para trás seus velhos preconceitos. Ele sentou, comeu, bebeu e descansou tranquilo, sabendo que haveria um dia seguinte.

Além do horizonte – IV

Os dias e as noites passam, as provisões vão mingando e o ânimo também. Cansados da viajem, os três ghoans acabam adormecendo. Pakal tem um pressentimento e acorda. Vê ao longe, voando entre as nuves, um vulto que se aproxima rápido. Conforme se aproxima, seu tamanho aumenta e conforme agita as asas, afastam algumas nuvens. Como uma aparição, passa por cima do barco dos ghoans, rápido, vermelho, escamoso. Pakal não consegue acreditar no que acaba de ver. Ele esfrega os olhos. Um dragão. Pakal tinha certeza disso, tal como as lendas contam.

– Eu devo estar sonhando ou delirando. Dragões não existem!

Pakal fala isso muito alto. Keto desperta e olha para cima, como se tentasse ver o que Pakal tinha visto. Pakal não fala nada, apenas deita e tenta dormir. Keto acabara de acordar, fica olhando em redor para passar o tempo. Nota que o grande mar faz borbulhas ao longe. Algo parece surgir do fundo do grande mar. Keto gela, pois está certo de que vem na direção do barco um demônio que vai devorá-los. Como um pesadelo, pula por cima do barco dos ghoans, grande, cinza, liso. Keto não consegue acreditar no que acaba de ver. Ele esfrega os olhos. Uma baleia. Keto tinha certeza disso, tal como as lendas contam.

– Estamos vivos? O demônio do grande mar simplesmente nos ignorou? Onde está tua ira, Lugun?

Keto fala isso muito alto e acorda Dung. Ele olha para o grande mar, tentando ver o que Keto acabara de ver. Keto nada fala, deita e tenta dormir. Dung não precisa ver o que Keto viu nem o que Pakal viu. Ele consegue intuir pela reação dos amigos, pelos tênues sinais. Ele estava perto de saber a verdade.